Sonhos Barrados
Documento
Metadados
Título da Arpillera
Sonhos Barrados
Descrição
A arpillera retrata alguns dos impactos causados pela Usina Hidrelétrica Sinop, que atingiu diretamente 214 famílias, isso somente no Projeto de Assentamento Wesley Manoel dos Santos (chamado também de Gleba Mercedes). Os danos são incalculáveis e nenhuma indenização pagaria e apagaria os desastres causados.
A barragem que entrou em operação em 2019 alagou 35 mil hectares, e o empreendedor não realizou de forma devida a supressão vegetal antes do enchimento do reservatório, aproximadamente 15 mil hectares de floresta amazônica foram deixados submersos. A decomposição desse material provocou forte redução do oxigênio dissolvido e alteração da qualidade da água, resultando em sucessivas mortandades de peixes que continuam ocorrendo até hoje. Além disso, o enchimento do lago intensificou a fragmentação florestal, isolando habitats essenciais para diversas espécies ameaçadas de extinção, inclusive por esse motivo animais como onças e serpentes se aproximam cada vez mais das casas e das criações dos moradores do assentamento. Muitas nascentes também foram submersas, comprometendo a autonomia das famílias que antes utilizavam rodas d’água e que passaram a depender de poços profundos, agravado pela oscilação de até dez metros no nível do reservatório.
Outro impacto relevante decorre dos chamados “paliteiros”, as árvores mortas que emergem durante o período seco e se tornam altamente inflamáveis. Esses materiais favoreceram o aumento de incêndios na região, atingindo florestas, assentamentos e propriedades vizinhas, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa e ampliando a degradação. Soma-se a isso a ausência de implementação do PACUERA, o plano ambiental que deveria recuperar as áreas de preservação permanente ao redor do lago. Sem essa recomposição, extensas margens permanecem expostas ao assoreamento, à contaminação por agrotóxicos e à perda de corredores ecológicos essenciais à fauna local.
O valor das indenizações pagas pela Sinop Energia foram muito inferiores ao valor real, aproximadamente R$ 3.900,00 por hectare, quantia contestada judicialmente, com perícia indicando valores seis vezes maiores. Muitas famílias também perderam suas fontes de renda baseadas no turismo, na pesca e no uso recreativo do rio. Além disso, a empresa alterou de forma unilateral a malha viária do assentamento, aumentando distâncias, piorando condições de deslocamento e afetando o escoamento da produção e o transporte escolar.
Apesar dos impactos, as famílias atingidas seguem na luta, organizadas e reivindicando seus direitos, buscando melhoria de suas produções e plantando o dia de amanhã.
Regiões
Centro-Oeste | Centro-Oeste > DF/GO | Centro-Oeste > DF/GO > UHE Sinop
Eixo - Tema
Data
outubro 1, 2025
Autoras
Mulheres Atingidas do Assentamento Wesley Manoel dos Santos, Sinop
Cartinha
Somos as mulheres agricultoras familiares do Assentamento Wesley Manoel dos Santos, a Gleba Mercedes 5, atingidas diretamente pela Usina Hidrelétrica (UHE) Sinop, que foi construída no Rio Teles Pires. Este bordado, a nossa arpillera, foi tecida com fios de amizade, carinho e cooperação, linha por linha em nossa oficina organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), é o tecido da nossa memória e uma crônica da nossa resistência.
Ela não é apenas um pedaço de pano; é a materialização da injustiça que inundou mais de 30 mil hectares de florestas e áreas agrícolas, inclusive as áreas de preservação permanente (APPs). Denunciamos a destruição que não se limitou ao Rio Teles Pires, mas que se espalhou pelos seus afluentes e riachos vizinhos, como o Matrinchã, o Córrego Fundo e o Caldeirão, entre tantos outros, alterando todo o ecossistema local. Esta obra grita o que vivemos: o empreendimento não barrou apenas o rio, ele barrou muitos sonhos.
Vemos aqui o cenário desolador deixado pelas águas. Muitas casas e pomares perdidos, a morte cruel dos peixes e o desequilíbrio biológico, com a invasão de capivaras nas lavouras. Denunciamos a poluição e a toxicidade da água, causada pelo sobe e desce desequilibrado do lago e pela floresta submersa.
Denunciamos a violência da indenização forçada. O descaso começa pelo valor imposto: fomos pagos com preços até dez vezes menores do que o correto. Nossa luta judicial comprovou a injustiça, com perícias técnicas feitas e refeitas que confirmaram nosso prejuízo, resultando em causas que vencemos na primeira instância. No entanto, a Usina Sinop recorre continuamente na Justiça, negando nosso direito a uma indenização justa e desrespeitando o cumprimento do Plano Básico Ambiental (PBA) — um ato de cinismo que se repete. Em resposta a esse roubo e à negação de nossos direitos, a comunidade se levanta e se manifesta, enfrentando a pressão da empresa nas ruas e nos tribunais. Esta é a lógica do capitalismo que, em nome do suposto 'progresso' e do lucro fácil, justifica essas barbáries e violências contra a vida. Estamos há anos na luta judicial conjunta, e a Usina segue colocando o lucro acima de tudo.
O descaso se estende ao nosso cotidiano: não recebemos projetos de royalties no assentamento, a luz continua cara e insuportavelmente instável na época das chuvas, e as mudanças nas estradas isolaram alguns vizinhos e forçaram várias crianças a enfrentarem longos caminhos até a escola.
Nossa obra conta a dor dos seres vivos: o cerco das onças rondando as propriedades em busca de alimento e a separação e morte de famílias de animais, como os macacos, tragados pela inundação e pela fome.
Mas no centro deste caos e desta denúncia, costuramos um grande Sol. Ele irradia os raios da esperança e da força que reside em nossa organização. Este Sol representa a união das mulheres em luta, de pessoas que se apoiam e se organizam coletivamente para enfrentar as dificuldades.
Assim como em tantas lutas de atingidas em todo o Brasil, nós, mulheres, costuramos a solidariedade e exigimos a reparação integral de tudo o que foi violado. Nossa Arpillera é um compromisso. Seguimos em luta até que a justiça e a vida sejam restabelecidas em nossa Gleba.
Com a força de quem não se cala. As Mulheres Agricultoras Familiares do Assentamento Wesley Manoel dos Santos. Mulheres atingidas, a nossa luta é pela vida!
Fotógrafo/a
Emilly Schwingel
Localização
Secretaria de Sinop
Dimensões
59x39 cm
Bloco
Bordando os Direitos
Anexos
Estudo revela novos impactos do desastre em São Sebastião (SP) e pressiona por mudança na reparação
