A arpillera foi produzida pelas mulheres na Comunidade do Sarandi, município de Porto Alegre/RS Brasil, atingidas pela enchente de maio de 2024 e pelo rompimento do dique do Sarandi. Esse dique que circunda o bairro faz parte do sistema de proteção de enchentes da cidade, mas não funcionou por ter sido negligenciado e sem a devida manutenção, causando inundação nas casas, com perda total de móveis e eletrodomésticos e estrutura das casas, que até hoje necessitam de reparos, além de seus meios de trabalho, danos materiais e vidas. Até hoje lutamos por moradia, infraestruturas básicas de saúde e escolas que não foram reconstruídas, além de alimentos que ainda se fazem muito necessários, por se tratar de comunidade atingida de baixa renda.
As mulheres desse bairro têm ocupações diferentes, sendo algumas donas de casa, mães, fazem trabalhos informais, como diaristas/faxineiras, cuidam de idosos. Em sua grande maioria são “mães solo”, que são mães que moram sozinhas com seus filhos, sem o auxílio dos pais das crianças.
A arpillera retrata a forma como encontramos nossas casas após as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024. Após 34 dias embaixo d’água, tudo o que tínhamos havia virado lixo e foi levado embora em caminhões. Durante semanas de limpeza da casa, oscilávamos entre o alívio cômico, a exaustão, o nojo e o pesar. O nojo era além do visual, tinha textura, som e cheiro. O cheiro sem dúvida era o pior deles.