MAB participa de encontro em Canguçu (RS) e fortalece articulação entre movimentos sociais pela soberania alimentar e a agroecologia
Publicado 03/11/2026

Nos dias 29 e 30 de outubro, o MAB esteve presente no encontro territorial do Rio Grande do Sul da Missão Josué de Castro, no município de Canguçu, no sul do estado. A atividade reuniu militantes, camponeses e pesquisadores para debater a construção coletiva da soberania alimentar, a agroecologia e o fortalecimento de alianças estratégicas entre os movimentos sociais do campo e da cidade.
A Missão Josué de Castro é uma iniciativa política e social multiinstitucional, construída por dezenas de movimentos sociais em 10 territórios em todo o Brasil. Entre eles, estiveram no encontro, junto ao MAB, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), assim como pesquisadores em agroecologia da Universidade Federal de Rio Grande (FURG).
O encontro de dois dias incluiu reuniões de análises e articulações políticas pelo futuro da transição agroecológica. Segundo Gerson Borges, representante da direção estadual do MPA, uma ação central da Missão é o mapeamento estratégico de ações políticas dos movimentos para a implementação das políticas públicas. “Nós debatemos a soberania alimentar, mas para chegarmos à soberania alimentar, é necessário um conjunto de novas políticas públicas”, aponta.
Atualmente na primeira fase do Projeto Sementes, a Missão Josué de Castro tem como objetivo principal levar alimento saudável ao maior número possível de pessoas no território e no Brasil, especialmente para aquelas que têm menos acesso, como comunidades periféricas e camponesas. “O objetivo é que o alimento produzido pelos pequenos agricultores da base do MPA, e também de parceiros, chegue à cidade; chegue nas bases que o MAB tem ação, nas bases do MTST”, completa Borges.
Para Adilson Schuch, também do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a escolha de Canguçu para acolher o primeiro encontro territorial do Rio Grande do Sul carrega um significado simbólico e prático fundamental: o município possui a maior concentração de pequenas propriedades rurais e agricultura familiar camponesa da América Latina. Além disso, a região já desenvolve iniciativas consolidadas, como o Programa Camponês, que inspira outros territórios do país.
De acordo com Schuch, o termo soberania alimentar trata de valorizar lutas por questões estruturais, como o direito à ocupação do território, reforma agrária e distribuição de riquezas, como a comida.
“A soberania alimentar é um termo que, para além da distribuição de alimento, é a autonomia de quem produz e a autonomia de quem recebe esse alimento. Então, esse conceito vai de encontro a um protagonismo do pequeno agricultor, um protagonismo do Estado, um protagonismo também das pessoas que têm a oportunidade de acessar essa base alimentar”, explica Adilson.
Agricultura familiar camponesa e a defesa do meio ambiente

A valorização da agricultura de base agroecológica esteve no centro dos debates, relacionando diretamente o modo de produção camponês com a preservação ambiental e o combate às mudanças climáticas. Adilson Schuch, da direção estadual do MPA e natural de Canguçu, enfatizou que o agricultor familiar depende diretamente do meio ambiente para produzir. “As populações periféricas e os pequenos agricultores são os primeiros a sofrerem os impactos dos eventos climáticos extremos. Por isso, aproximar o campo da cidade garante comida saudável para o povo mais humilde, protege a saúde e assegura a sustentabilidade ambiental.”
Durante o encontro, Fernando Campos da Costa, representante da direção do MTST, destacou que o impacto social relacionado à crise climática é maior para quem enfrenta insegurança alimentar e econômica. “Nas enchentes, tínhamos um refrão que era: o negacionismo climático é uma fábrica de sem teto. As comunidades de periferia, e quem tá em moradia irregular ou na rua, são os primeiros a ser atingidos. Então temos que estar preparados”.
Segundo o coordenador do MTST, a Missão vem para potencializar as pontes entre a produção rural camponesa e os trabalhadores das periferias urbanas, fortalecendo iniciativas concretas, como a distribuição direta para as cozinhas solidárias, feiras, centrais de abastecimento, além da criação de hortas urbanas. “Não tem como a gente enfrentar o fascismo, o racismo, o machismo e todas as formas de opressão se a gente não tiver unido. A unidade da classe trabalhadora é fundamental”, defende da Costa.
Para o MAB, a participação no encontro reafirma que a luta em defesa dos atingidos e por soberania energética caminha lado a lado com a luta pela terra e pelo direito à alimentação adequada. Mudar o modelo de produção de alimentos no país exige também pautar a transição energética justa, a preservação dos bens naturais e a construção do poder popular nos territórios.
Segundo João Jair Haacke, militante e coordenador de grupos de atingidos do MAB no Vale do Taquari (RS), o encontro é essencial para o diálogo entre movimentos com diferentes realidades, para se unirem pela criação de uma sociedade mais justa e com protagonismo popular.
“Fortalecer a discussão sobre como o homem se relaciona com a terra, e como as comunidades que estão nas áreas urbanas podem contribuir para que os movimentos de agroecologia, por exemplo, se ampliem e se fortaleçam cada vez mais”, afirma Haacke.
O encontro em Canguçu marca o início do ciclo de encontros territoriais no estado, com a perspectiva de que a próxima etapa ocorra em um território urbano, consolidando ainda mais as redes populares de produção, abastecimento e solidariedade ativa.