Entre conquistas sociais, ampliação de direitos e resistência popular, a história recente do Nordeste ajuda a explicar por que a região mantém sua identificação com projetos políticos de esquerda, apesar das ofensivas e dos discursos preconceituosos da extrema direita

Ato de campanha de Lula realizado neste semana, na ponte que une Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). Foto: Ricardo Stuckert

“Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! / Não sou da nação dos condenados! / Não sou do sertão dos ofendidos! / Você sabe bem: conheço o meu lugar!” – Belchior, Conheço o Meu Lugar.

Há motivos para o Nordeste votar assim. E esses motivos estão muito além das explicações simplistas e preconceituosas que tentam reduzir as escolhas políticas de milhões de nordestinos à dependência de programas sociais ou à falta de conhecimento. O Nordeste tem memória, consciência de sua história e razões concretas para reconhecer nos governos de esquerda um projeto político que, apesar das contradições e dos desafios ainda existentes, contribuiu para transformar a realidade de milhões de famílias. Não se trata de gratidão cega, tampouco de uma escolha sem fundamento. Trata-se de reconhecer que, quando o Estado passou a olhar para o Nordeste como território de direitos, investimentos e oportunidades, a vida de muita gente começou a mudar.

O historiador e professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior costumava provocar: “O Nordeste não existe; o Nordeste foi inventado”. Com essa reflexão, ele alertava para como a região foi reduzida, durante décadas, a um rótulo externo pautado pela seca, pobreza e sofrimento. Também, quando Belchior cantou os versos da canção “Conheço o Meu Lugar”, reforçou o mesmo manifesto ao rejeitar a ideia de uma “nação de condenados”.

Nas últimas duas décadas, essa imagem limitada e injusta começou a ruir. A história recente prova que o Nordeste real é plural, dinâmico e protagonista do seu próprio destino. E parte importante dessa transformação está diretamente relacionada às políticas públicas implementadas, sobretudo, durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), com Lula e Dilma Rousseff, que colocaram o enfrentamento das desigualdades regionais e a inclusão social no centro de suas agendas.

A revolução pelas salas de aula

A mudança de rumo começou pela base, pela democratização do ensino. O acesso à universidade e ou ao ensino técnico deixou de ser privilégio para se tornar realidade no campo e na cidade. A expansão de campus e institutos federais pelo sertão e agreste levou o conhecimento para perto das pessoas, formando a primeira geração de diplomados em famílias de agricultores, lavadeiras, feirantes e trabalhadores informais.

Durante os governos petistas, políticas como o ProUni, o Fies, a expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica e a interiorização das universidades federais ampliaram as possibilidades de acesso à educação. Jovens que antes precisavam abandonar suas cidades para estudar, ou sequer imaginavam chegar ao ensino superior, passaram a encontrar novas oportunidades em seus próprios territórios.

Mais do que diplomas, essa oportunidade deu voz e autonomia para que os próprios nordestinos pesquisassem, criassem soluções e contassem suas histórias. A educação pública tornou-se um instrumento fundamental de transformação social, permitindo que filhos e filhas da classe trabalhadora ocupassem espaços historicamente reservados às elites.

Economia aquecida no interior e infraestrutura

A transformação social ganhou força no bolso das famílias. O acesso ampliado ao crédito, a valorização real do salário mínimo e o fortalecimento de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, impulsionaram pequenos negócios, o comércio local e a produção no campo. O dinheiro passou a circular com mais intensidade nas feiras municipais e bairros, gerando trabalho e dignidade.

É justamente nesse ponto que o discurso preconceituoso de setores da direita encontra uma de suas maiores contradições. Aquilo que frequentemente tentam apresentar como dependência, representa para milhões de famílias a possibilidade concreta de superar a fome, garantir alimentação, estudar e movimentar a economia. O dinheiro que chega às famílias de baixa renda não fica parado: circula no mercadinho, na feira, na farmácia, na agricultura familiar e nos pequenos empreendimentos que sustentam a vida econômica de tantos municípios nordestinos.

Paralelamente, investimentos em infraestrutura mudaram a paisagem urbana e rural. A Transposição do Rio São Francisco levou a água do Velho Chico a áreas historicamente afetadas pela seca, ampliando a segurança hídrica e o abastecimento para milhões de pessoas. Obras de saneamento básico, pavimentação de rodovias, iluminação, habitação e urbanização encurtaram distâncias e trouxeram mais qualidade de vida às cidades.

Esses investimentos não resolveram todos os problemas históricos da região, mas representaram avanços importantes para uma população que, durante muito tempo, precisou conviver com a ausência de políticas públicas estruturantes.

Do combate à seca ao motor da produção: a força da agricultura familiar

Segundo dados do MDS, mais de 1 milhão de famílias do Nordeste receberam cisternas para água de beber e cozinhar entre 2004 e 2024. Foto: Gabrielle Sodré / MAB

No campo, a agricultura familiar deixou de ser vista apenas como atividade de subsistência para ganhar maior reconhecimento como um dos motores do abastecimento alimentar e da economia do interior.

Esse avanço foi impulsionado por um conjunto de políticas públicas integradas. Programas como o PRONAF ampliaram as possibilidades de acesso ao crédito, viabilizando a compra de sementes, equipamentos e sistemas de irrigação. Iniciativas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) fortaleceram a comercialização da produção local para abastecer escolas e redes de assistência social.

Ao mesmo tempo, as políticas de convivência com o semiárido, incluindo tecnologias de captação e armazenamento de água, como as cisternas, aliadas ao apoio à agroecologia e à assistência técnica, ampliaram a segurança das famílias agricultoras nos períodos de estiagem.

Essa mudança também representa uma disputa sobre a forma de enxergar o Nordeste. Durante décadas, a seca foi utilizada como justificativa para a concentração de recursos, terras e poder nas mãos de poucos. A chamada indústria da seca transformou o sofrimento de muitos em instrumento de manutenção dos privilégios de determinadas elites. As políticas de convivência com o semiárido ajudaram a fortalecer outra perspectiva: a de que o povo nordestino não precisa abandonar seu território para viver com dignidade, mas necessita de condições concretas para permanecer, produzir e prosperar.

A união entre campo e cidade constrói o futuro

A prosperidade no campo reflete diretamente nos centros urbanos. Quando o agricultor familiar produz bem e vende por um preço justo, a comida de qualidade chega à mesa da cidade e contribui para o abastecimento da população. Por outro lado, a renda gerada na roça movimenta as farmácias, lojas e depósitos locais, criando empregos, fortalecendo a economia, fixando as famílias na terra e reduzindo o êxodo rural forçado.

O Nordeste dos últimos vinte anos confirma o pensamento de Durval Muniz e Belchior. No campo e na cidade, a combinação de direitos, infraestrutura e a força do seu povo mostra que o Nordeste não é o lugar que os outros inventaram, mas aquele que ele próprio constrói todos os dias com fartura, orgulho e futuro.

Esse movimento, contudo, não é um ponto de chegada, mas um processo vivo. Ao olhar para frente, o Nordeste segue avançando ao transformar velhos desafios em novas oportunidades, seja liderando a transição para energias renováveis, seja expandindo a inovação tecnológica e cultural. É necessário, entretanto, garantir que esse desenvolvimento não reproduza injustiças históricas, que as populações atingidas por grandes empreendimentos sejam respeitadas e que as riquezas produzidas na região se convertam em direitos e qualidade de vida para seu próprio povo.

O Nordeste tem memória, e sua escolha política também é resistência

Desde 2003, ano de criação do Luz para Todos, o programa alcançou mais de 1,7 milhões de famílias nordestinas, segundo o Ministério de Minas e Energia. Foto: Domingos Tadeu / PR

É nesse contexto que precisamos compreender a relação histórica de grande parte da população nordestina com os governos de esquerda. Os resultados eleitorais não surgem do acaso. Em 2022, Lula venceu nos nove estados do Nordeste e conquistou aproximadamente 69% dos votos válidos da região no segundo turno. Um resultado que expressa, entre outros fatores, a força de uma identificação política construída ao longo de décadas, atravessada pela memória das políticas sociais, pela valorização do trabalho e pela expectativa de um Estado comprometido com a redução das desigualdades.

Isso não significa que o Nordeste seja politicamente homogêneo, nem que os governos progressistas estejam livres de críticas. Significa reconhecer que existe uma trajetória coletiva que ajuda a explicar por que tantos nordestinos continuam encontrando na esquerda uma perspectiva de futuro.

E é justamente essa consciência que incomoda setores da extrema direita. Incapazes de aceitar determinadas escolhas populares, seus representantes e apoiadores frequentemente recorrem à desqualificação do voto nordestino, reproduzindo estereótipos regionais e discursos que tentam transformar a pobreza em motivo de vergonha e a garantia de direitos em sinal de dependência.

Mas o Nordeste conhece sua história. Sabe o que significa enfrentar a fome, a concentração fundiária, o coronelismo, a ausência de investimentos e o abandono do poder público. Também sabe reconhecer o valor das conquistas construídas pela organização popular, pelos movimentos sociais, pelos trabalhadores do campo e da cidade e pelas políticas públicas que ajudaram a ampliar direitos.

Não foi a esquerda que inventou a força do Nordeste. Essa força sempre esteve presente na resistência dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, dos camponeses, das mulheres, da juventude e de tantos trabalhadores que construíram a região com suas próprias mãos. O que os governos progressistas fizeram, em diferentes momentos, foi abrir caminhos para que parte dessa força encontrasse mais oportunidades, reconhecimento e condições materiais de transformar a realidade.

Por isso, quando o Nordeste escolhe majoritariamente projetos políticos associados à justiça social, essa decisão não pode ser reduzida a um favor recebido. Há memória, experiência, interesses, valores e projetos de sociedade em disputa.

A região que já foi contada pelo olhar alheio hoje escreve, com soberania e altivez, os novos capítulos do seu próprio desenvolvimento. E, mesmo diante das tentativas da extrema direita de deslegitimar suas escolhas, espalhar preconceitos e apagar as conquistas populares, o povo nordestino continua demonstrando sua capacidade de resistência.

Porque há motivos para o Nordeste votar assim. Há motivos para defender seus direitos, reconhecer suas conquistas e continuar lutando por um projeto de país que não abandone seu povo. O Nordeste não é uma terra de condenados, como tentaram fazê-lo acreditar. É terra de luta, de memória e de resistência. E quem conhece o próprio lugar não aceita que outros decidam, por ele, qual deve ser o seu destino.


* Marcos Souza é estudante de jornalismo na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

** Maria Gonçalves é pós-graduada em educação do campo e membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).