No diálogo diário e na festa popular, as brigadas do MAB levam consciência política, cultura e debate sobre direitos às periferias e territórios atingidos de todo o país

Organizar a esperança e ocupar o espaço público com diálogo, arte e debate de ideias. É com essa proposta que movimentos populares levam nacionalmente as Brigadas de Agitação e Propaganda às ruas, iniciativa que mobiliza centenas de militantes na construção do debate político, na defesa da democracia e no fortalecimento das pautas das populações atingidas por barragens e pela crise climática.

Mais do que a panfletagem, o método aposta no contato direto, na escuta atenta e no convencimento olho no olho. As brigadas atuam no cotidiano das cidades, percorrendo feiras livres, portas de fábricas, universidades, institutos federais, pontos de ônibus e áreas periféricas. Nas conversas com a população, temas centrais do dia a dia do povo trabalhador ganham espaço: o direito à cidade, meio ambiente, emergência climática, precarização do trabalho e a urgência de cobrar o compromisso dos representantes públicos nos territórios.

A estratégia ganha ainda mais relevância nas regiões atingidas por grandes empreendimentos, como na Bacia do Rio Doce e no Litoral do Espírito Santo, onde o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) articula a atuação popular. 

Juliana Nicoli, militante do MAB no Espírito Santo, explica como a metodologia se distribui no estado capixaba.

“Nós estamos em quatro brigadas atuando em quatro regiões diferentes do nosso estado, nos municípios atingidos onde o Rio Doce passa e do litoral capixaba, e também uma brigada na região metropolitana da Grande Vitória, a capital”.

Conforme relata Juliana, o planejamento articula o mapeamento de bairros prioritários para combinar o diálogo eleitoral com ações formativas e de escuta ativa. “Nós mapeamos alguns bairros prioritários em cada município de atuação nosso para a brigada rodar, e estamos fazendo tanto essas ações no dia a dia de conversar, de panfletar, do diálogo, de escuta, de convencimento ao voto no Lula e também no primeiro turno aos candidatos que nós estávamos apoiando, tanto para governador, senadores, deputado estadual e federal e os deputados estaduais que nós apoiamos também”, pontua.

Cultura, festa e o “Sextou” popular

A agitação e propaganda das brigadas não se restringe à palavra falada ou impressa. A dimensão cultural ocupa papel central na metodologia do MAB, transformando a mobilização política em momento de acolhimento e celebração coletiva. A cultura popular é utilizada como ferramenta para unir as pessoas e espalhar mensagens de esperança.

Atividades como rodas de samba, forró e feijoadas comunitárias são organizadas para integrar as comunidades e aproximar os moradores das pautas debatidas pelo movimento. Juliana Nicoli detalha essa dimensão festiva do trabalho de base.

“Além desse dia a dia do diálogo e panfletagem percorrendo feiras, portas de fábrica, portas de universidade e porta dos institutos federais nos municípios, nós também promovemos ações culturais e atividades culturais. Então, as quatro brigadas, cada uma na sua região de atuação, nós promovemos samba, forró e feijoada, nesse caráter mais animador e de promoção da cultura e de espalhar a nossa alegria e a nossa esperança por onde a brigada passou também”, diz.

Para organizar essa dinâmica, os grupos estabelecem uma rotina contínua de planejamento semanal e ações diárias. A sincronia do trabalho culmina em mobilizações mais amplas às sextas-feiras, conhecidas nas brigadas como momentos de culminância do trabalho territorial. “E toda semana com planejamento semanal, diário e na sexta-feira a gente promovendo os nossos sextous, que eram as atividades mais massivas e que a gente articula mais gente para estar junto com a gente nas ruas”, completa a militante.

Espaço de cultura e formação política

Diálogo territorial e áreas de risco

Em São Sebastião, no Litoral paulista, a experiência das brigadas mostrou a força da receptividade popular quando o debate se conecta com a realidade local. As caminhadas pelos bairros permitiram abordar temas decisivos para os moradores, como a infraestrutura urbana e a urgência do combate à crise climática em regiões vulneráveis.

Arthur Macfadem, integrante do MAB em São Sebastião, destaca que o método abriu caminhos para conversas sinceras e necessárias sobre a realidade do município. “Olha, nós somos das brigadas. A gente, como na metodologia, se reunia no sextou e durante a semana saía para as ruas. Aqui, a gente teve bastante, muita animação do pessoal. Tinha bastante abertura de diálogo”.

A atuação em campo permitiu um mapeamento afetivo e político das comunidades que vivem sob o risco de tragédias socioambientais, reforçando a importância da população fiscalizar a atuação do poder público local.

“Deu para explicar bastante coisa, falar sobre a cidade, a questão da crise climática, do trabalho, do meio ambiente. Então, foi muito em torno disso. Deu para conhecer bastante os bairros nas áreas que têm as áreas de risco, para conversar sobre a importância da gente fiscalizar, a importância do político estar presente no território. Então, foi nesse sentido, não só entregar panfleto, mas de explicar a importância da participação”, relata Arthur.

Também nos centros urbanos, através de faixas e lambes, as Brigadas anunciam suas mensagens, ajudando a levar o debate da soberania pro cotidiano dos brasileiros. Foto: Isadora Silva / MAB

Simbologia, redes e a luta no segundo turno

Em Minas Gerais, as brigadas articulam as ações nas ruas com a presença nas redes digitais, combinando ferramentas virtuais com a confecção artesanal de estandartes, bandeiras e materiais visuais para carregar a identidade dos atingidos por barragens.

Olívia, integrante da coordenação nacional do MAB em Minas Gerais, explica o impacto de levar as cores e os símbolos do movimento para o espaço público.

“As Brigadas de Agitação e Propaganda, aqui em Minas Gerais, têm atuado nas ruas e nas redes também. Nas ruas, a gente tem tido muitas atividades para levar a nossa simbologia, levar a nossa alegria, levar o bonito que é a luta do povo atingido pela democracia e por seus direitos”, aponta.

O trabalho direto nas ruas também se converteu em uma ação de orientação cívica, ajudando a sanar dúvidas da população sobre o processo de votação e incentivando a presença nas urnas. “Então, a gente tem tido muitas atividades de diálogo com o povo na rua, principalmente. De entregar o nosso material, entregar aquele panfleto de campanha, dialogar com o povo sobre por que é importante estar votando, orientar as dúvidas que as pessoas têm sobre o dia da votação, principalmente”, ressalta Olívia.

A confecção de materiais de divulgação e a celebração das conquistas sociais do povo trabalhador também fizeram parte das dinâmicas internas desenvolvidas nas comunidades mineiras. “A gente também fez ações mais internas. A gente fez produção de muitos estandartes e materiais visuais com a nossa pauta, mostrando também quais foram as conquistas do governo Lula, divulgando os nossos candidatos também”, acrescenta Olívia.

Militantes se organizam em ato, em Minas Gerais, pela reeleição do presidente Lula. Foto: Comunicação MAB MG

Com a chegada do segundo turno, a estratégia das Brigadas de Agitação e Propaganda se voltou, prioritariamente, para o combate à abstenção e para a conversa com eleitores indecisos, priorizando os territórios de maior vulnerabilidade social e o interior dos estados.

“Agora, no segundo turno, nós temos feito mais ações de vira-voto, dialogando com as pessoas indecisas, com quem não votou no primeiro turno, explicando e animando a pessoa para ir votar no segundo turno, reafirmando que pode sim votar no segundo turno, mesmo que não tenha votado no primeiro. Então, nós estamos mais com ações de diálogo direto, de casa em casa, andando pelas ruas, principalmente de bairros que têm mais abstenções aqui nas regiões. Estamos indo mais para o interior também, para dialogar com o povo e estar conquistando mais pessoas para a nossa luta”, afirma Olívia.