Como energia, crise climática, desmatamento, proteção a povos tradicionais e agricultura familiar dividem as candidaturas à Presidência da República

Marcha “Mulheres em Defesa do Meio Ambiente realizada em 2025, Brasília. Foto: Gabriela Biló

A corrida eleitoral de 2026 coloca em evidência a urgência da pauta socioambiental e as divergências profundas entre os projetos de país que disputam a Presidência da República. Um relatório publicado pelo Observatório do Clima aponta que a maior parte das propostas de governo ignora ou aborda de forma contraditória e insuficiente o avanço das mudanças climáticas e a proteção dos biomas nacionais.  

A análise publicada pelo Observatório do Clima revela que a maioria dos presidenciáveis mantém posturas contraditórias ou ignora por completo a gravidade da emergência ambiental e climática na disputa eleitoral. 

O diagnóstico aponta que, enquanto os compromissos assumidos para conter o aquecimento global perdem espaço nas diretrizes de campanha, propostas de expansão da exploração de combustíveis fósseis e retrocessos na proteção dos biomas voltam a ser pautadas no debate político.   

A inconsistência no enfrentamento aos desastres socioambientais reflete a atuação recente de gestores que hoje disputam espaço no cenário nacional. Exemplo disso é o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que apesar de reconhecer formalmente que o país é afetado por eventos extremos, em seu plano não detalha como implementará ações de monitoramento e resposta às tragédias. Na prática, a gestão Zema reduziu em 96% as verbas destinadas à prevenção do impacto das chuvas em território mineiro entre 2023 e 2025.

Com base no documento do Observatório do Clima, as propostas ambientais para a eleição presidencial de 2026 desenham cenários divergentes entre as principais candidaturas. O plano de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foca na continuidade do fortalecimento da governança e na adaptação climática, como a consolidação do Plano Clima, o incentivo ao financiamento via Fundo Clima e a meta de zerar o desmatamento até 2030, embora enfrente críticas por manter contradições ao defender a expansão da produção de petróleo e gás. 

Em contrapartida, a plataforma de Flávio Bolsonaro (PL) retoma o alinhamento com a gestão do pai, ignorando metas de redução de emissões e a própria crise climática. Seu programa propõe incentivar a exploração de combustíveis fósseis, incluindo a concessão de licenças tácitas no licenciamento ambiental e a limitação do combate apenas ao desmatamento ilegal.

Entre as demais candidaturas avaliadas pelo Observatório, nota-se uma tendência de submeter a preservação ambiental às demandas do crescimento econômico. O programa de Romeu Zema (Novo) defende a atração de capital privado para infraestrutura e o uso de “vias rápidas” e ritos simplificados no licenciamento ambiental, sem detalhar meios de financiamento público para prevenção de desastres e omitindo metas de demarcação de terras ou do Acordo de Paris. 

De forma semelhante, o plano de Ronaldo Caiado (PSD) traz propostas de adaptação e recuperação de áreas degradadas, mas mantém o petróleo como “pilar da matriz”, trata o licenciamento pela métrica da rapidez e deixa de assumir o compromisso de zerar o desmatamento. 

Já Augusto Cury (Avante) subordina a pauta climática à modernização tecnológica e ao agronegócio. Enquanto Renan Santos (MBL) ignora inteiramente a pauta climática e prevê a exploração mineral em terras indígenas.

Frente a esse cenário de incertezas e riscos de retrocessos, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) entrevistou o Secretário Executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, e Elisa Estronioli, da coordenação nacional do MAB. Os especialistas analisaram a urgência da pauta ambiental e traçaram um panorama crítico sobre os rumos do país diante do avanço da crise climática.

1. Energia e transição energética

A discussão sobre a matriz energética brasileira se contrapõe à urgência do abandono dos combustíveis fósseis aos planos de expansão da exploração petrolífera. Para o MAB, a pauta da energia está associada diretamente à soberania popular e aos direitos das populações atingidas por grandes empreendimentos.

Segundo Elisa Estronioli, o movimento defende um modelo alternativo ao atual. “Nesse tema da transição energética, a gente fala em transição energética popular e não justa. E aí as nossas propostas estão, principalmente, nesse esforço conjunto, no documento da plataforma”, afirma. Ela complementa pontuando a diferença entre as candidaturas.

“Sabemos que o único governo que tem abertura para discutir essas propostas é o governo Lula. Os outros governos da extrema direita, principalmente Flávio Bolsonaro, não tocam nesse assunto, não discutem transição energética”.

Apesar dos avanços citados na gestão atual, a atuação do governo federal na área energética é alvo de críticas por parte de ambientalistas em razão do incentivo à exploração de petróleo e gás.

Para Márcio Astrini, do Observatório do Clima, existe um choque claro entre a diplomacia climática e as decisões práticas na área fóssil. Ele adverte que justificativas econômicas para novos poços não alteram o impacto na atmosfera. “Por mais que o governo, presidente ou qualquer governante do mundo tenha razões que ele julgue incorretas politicamente, economicamente, para a continuidade da exploração de combustíveis fósseis, a verdade é que a atmosfera do planeta não está nem aí para os argumentos ou razões dos governantes”.

2. Crise climática e eventos extremos

A resposta estatal à intensificação de secas, ondas de calor e enchentes é outro divisor de águas entre as candidaturas. Candidaturas ligadas à direita mantêm postura de minimização ou negação do aquecimento global, enquanto a atual gestão aposta em instrumentos como o Plano Clima e ações de mitigação.

Elisa Estronioli reforça que a proteção social frente a tragédias climáticas depende da atuação direta do Estado. “Com relação aos eventos extremos da crise climática é a mesma coisa. A única possibilidade de ter um mínimo de política de tratamento, de prevenção, de mitigação, de adaptação, nesse contexto da crise climática, é no governo Lula”, defende, destacando que sem a intervenção federal em crises como a onda de incêndios de 2024 ou as enchentes no Rio Grande do Sul, “a situação dos atingidos seria muito pior”.

Por outro lado, o Secretário Executivo do Observatório do Clima aponta o risco de candidaturas que adotam posturas ativas contra a ciência do clima. Em relação ao candidato Flávio Bolsonaro (PL), Astrini avalia que o termo “negacionista” é brando para definir a gravidade de sua plataforma.

“Nós temos uma eleição em que, novamente como tivemos em 2022, existe um candidato que é um negacionista do clima. E ele é mais do que apenas um negacionista do clima, porque negar o clima passa uma falsa impressão de neutralidade. Se trata de alguém que vai atuar de forma firme, proativa, para piorar a situação climática”.

3. Desmatamento e fiscalização ambiental

A meta de zerar o desmatamento até 2030 é um compromisso assumido pela atual gestão, respaldado pela queda nos índices apontados por sistemas de monitoramento. Em contrapartida, planos de governo da oposição propõem flexibilizar o licenciamento ambiental ou limitar metas apenas ao combate da ilegalidade.

Elisa argumenta que o retorno da extrema-direita ao poder significará a retomada da destruição florestal, com o risco de a Amazônia atingir um ponto de não retorno sob cenários de seca e queimadas. Ela relembra que o mandato de Jair Bolsonaro ofereceu um “aperitivo” do desmonte, com “fortalecimento de setores mais predatórios” e avanço do crime organizado. A integrante da coordenação nacional do MAB enfatiza o peso das urnas para a sobrevivência dos biomas.

“Esse tema da proteção ao meio ambiente e à vida das populações atingidas é um dos que inclusive vai ser mais afetado pelas decisões eleitorais que estão sendo tomadas nesse momento. É a diferença abissal entre a gente ter a continuidade do governo Lula ou a gente cair novamente na mão da extrema direita”.

Elisa endossa a análise ao relacionar a candidatura de Flávio Bolsonaro à continuidade direta das políticas do pai, que resultaram no aumento de mais de 60% no desmatamento da Amazônia e em perseguição a órgãos de controle. “Dar continuidade na área ambiental ao governo Jair Bolsonaro é dar continuidade à destruição, é dar continuidade à implementação do caos climático”, resume o executivo.

4. Proteção de atingidos e comunidades tradicionais

A demarcação de terras indígenas e a titulação de territórios quilombolas, retomadas no atual governo federal, encontram forte oposição no Congresso Nacional e nos planos de candidaturas alinhadas ao agronegócio e à mineração. Astrini relembra que a criação e garantia dessas áreas são comprovadamente a forma mais eficaz de deter o avanço da devastação.

“Essa ação de reconhecimento desses territórios, inclusive, fez com que a gente pudesse enfrentar os maiores picos de desmatamento na Amazônia. Não à toa, junto com a criação dessas áreas, a gente teve o desmatamento começando a diminuir, a despencar, a partir de 2004”, aponta.

No entanto, ele ressalta que o Poder Legislativo atua como uma ameaça permanente a esses direitos garantidos pela Constituição. “Existe um local de poder no Brasil em que a pauta indígena está sob ameaça constantemente, que é o Congresso Nacional. É de lá que partem os projetos de lei, as emendas constitucionais, tentando desfazer demarcações de terras indígenas, retirar direitos dessas populações”.

5. Agricultura familiar e sustentável

Por fim, a agricultura familiar surge tanto como o setor mais vulnerável às mudanças no regime de chuvas e temperaturas extremas como parte fundamental da solução climática e da garantia da segurança alimentar.

Márcio Astrini adverte que eventos extremos no sul e no semiárido colocam em risco os pequenos produtores que enfrentam dificuldades históricas de acesso a crédito e tecnologia. De acordo com o ambientalista, o apoio governamental à agroecologia e aos pequenos agricultores deve ser tratado como prioridade estratégica.

“Não podemos deixar esses agricultores que retiraram o Brasil do mapa da fome, por conta do clima extremo, perderem a sua capacidade de produção e amanhã se verem na fila do Bom Prato, porque não têm mais a terra produzindo o alimento para a população brasileira. Por outro lado, a agricultura familiar também é uma solução climática, a agroecologia é uma solução climática, porque produz a comida de verdade em um modo de produção que emite muito menos gases de efeito estufa”, conclui Astrini.