Atingida pelas enchentes de Jequié, Jeizi transformou as marcas da água em força para lutar por direitos, reparação e justiça coletiva
Publicado 17/09/2026

O Natal ainda nem tinha terminado quando a água passou a ditar o ritmo de Jequié, Sudoeste da Bahia. Naquele dezembro de 2022, enquanto algumas famílias ainda guardavam os restos da ceia, outras tentavam salvar o que podiam de uma vida inteira. Móveis, roupas, mercadorias e lembranças precisavam ser retirados às pressas. Em pouco tempo, ruas foram tomadas e moradores tentavam descobrir até onde a água chegaria. Jeiziane Machado Brito guarda daquele dia uma imagem difícil de apagar. Para ela, Jequié parecia uma “zona de guerra”.
Jeizi, como é conhecida, já sabia o que era conviver com as cheias do Rio de Contas. A água fazia parte da paisagem, da memória e da própria maneira de compreender o lugar onde cresceu. Durante muito tempo, enchente era quase sinônimo de natureza: o rio enchia, as famílias se preparavam como podiam e, depois, a água baixava. “A gente achava que era natural”, recorda.
Em 2021, uma cheia já havia provocado isolamento em algumas localidades e exigido a retirada de moradores por barcos. Mas dezembro de 2022 alterou a percepção de segurança de Jeizi. A água avançou sobre áreas que até então pareciam protegidas e alcançou também o residencial do Minha Casa Minha Vida, onde vive. De repente, não bastava estar longe da margem para se sentir segura.


Aos 39 anos, casada e mãe de Samuel (15) e Flor (06), Jeizi se define como uma mulher tranquila. A palavra, à primeira vista, parece contrastar com a figura que hoje participa de reuniões, mobiliza moradores, ocupa atos públicos e cobra respostas das instituições. Mas basta ouvi-la por alguns minutos para perceber que tranquilidade, no caso dela, nunca significou passividade. “Eu sou muito persistente. Eu luto todos os dias pelos meus direitos e pelos direitos da minha comunidade”, diz.
A persistência ganhou outra dimensão depois daquele Natal. Nos primeiros momentos, Jeizi ainda enxergava a enchente dentro da lógica com a qual havia convivido durante anos. Depois vieram as perguntas. A Barragem de Pedra estava com alto volume de água. As famílias, segundo relata, não receberam aviso com antecedência suficiente para se preparar. Quando os alertas chegaram, na manhã do dia 25, o cenário já era de desespero.
As enchentes que marcaram Jequié em 2022, estão relacionadas à abertura das comportas da Barragem de Pedra, de responsabilidade da AXIA Energia (CHESF), que provocou o aumento da vazão do Rio de Contas e atingiu milhares de moradores. Foi quando a explicação de que se tratava simplesmente de mais uma cheia começou a deixar de fazer sentido. “Para mim, aquilo foi criminoso”, afirma.
A frase marca uma mudança importante em sua trajetória. Jeizi começou a compreender que entre a chuva que cai, o rio que enche e a casa que alaga existem também decisões humanas. A operação de uma barragem, a gestão das águas e os interesses econômicos envolvidos passaram a fazer parte de um vocabulário que, até então, não estava presente em seu cotidiano.
“A água chegou nos quatro cantos da cidade. Para onde você corria tinha água. Onde não tinha, as pessoas estavam ilhadas. A água tomou conta de tudo de uma forma muito rápida “, recorda.
Nesse processo, ela encontrou o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Uma audiência pública realizada na Câmara de Vereadores de Jequié se tornou uma das lembranças importantes desse encontro. Ao ouvir outra pessoa falar sobre barragens, direitos e organização popular, Jeizi começou a perceber que a história vivida em Jequié não estava isolada.


A indignação encontrou uma possibilidade de organização. “Foi quando eu comecei a entender que não era só uma coisa da natureza”, conta. A partir dali, a atingida começou também a se reconhecer como sujeito de uma luta coletiva.
E essa mudança talvez explique uma das características mais marcantes de sua atuação. Jeizi não fala apenas sobre aquilo que aconteceu dentro de sua própria casa. Quando lembra de 2022, fala dos vizinhos que perderam móveis, dos comerciantes que viram mercadorias desaparecerem, das famílias que tiveram suas casas atingidas e, principalmente, das pessoas que ainda hoje carregam consequências psicológicas daquele dezembro. “Não é mais uma luta só por mim. É uma luta pelo coletivo.”
A entrada no MAB aconteceu em um período em que ela estava abalada com todo o processo da enchente. Aos poucos, sair de casa para uma reunião, assumir uma tarefa e perceber que outras pessoas esperavam algo dela foram adquirindo um significado que ultrapassava a militância.
A organização coletiva que ajudava atingidos a reivindicar direitos, também a ajudava a reconstruir a maneira como enxergava a si mesma. “Eu mudei muito depois que entrei no movimento”, reconhece.

Vieram as formações e novas responsabilidades. Jeizi passou a representar os atingidos em outros espaços. Aquela mulher que inicialmente buscava compreender o que havia acontecido em seu próprio território, tornou-se uma das referências do MAB em Jequié e passou a integrar espaços de coordenação do movimento.
Mas é dentro das reuniões em Jequié que uma característica chama sua atenção: quase sempre, a maioria das cadeiras é ocupada por mulheres. São elas que chegam para discutir enchentes, indenização, moradia ou reparação, mas as conversas raramente terminam nesses assuntos. Entre uma pauta e outra aparecem os filhos, a sobrecarga dentro de casa, a desigualdade, os problemas do bairro, o medo e as violências enfrentadas no cotidiano. “Às vezes, nossa reunião vira uma terapia”, conta.
Não é uma terapia no sentido clínico. É a possibilidade de encontrar alguém disposto a escutar. Mulheres que chegam para falar sobre uma barragem descobrem que podem falar também sobre aquilo que carregam dentro de casa. Para Jeizi, esse acolhimento é parte da organização.
Talvez por isso ela faça questão de explicar que reparação não pode significar apenas dinheiro. O recurso financeiro é necessário. Há famílias que perderam eletrodomésticos, móveis e roupas; comerciantes e feirantes tiveram mercadorias destruídas; outras pessoas precisaram reconstruir espaços que levaram anos para conquistar. Mas há perdas que não aparecem em uma relação de bens. “Tem gente que perdeu a saúde mental.”
Quando fala em reparação integral, Jeizi fala também dessas pessoas. Daquelas que passaram a ter medo da chuva, que revivem o Natal de 2022 quando o nível do rio sobe ou que ainda convivem com inseguranças provocadas pela enchente.
“A reparação justa para mim vai muito além de dinheiro. As marcas foram profundas. Precisávamos ter tido acesso a acompanhamento psicológico. Tudo teria sido mais fácil. E, embora o dinheiro não seja tudo, faria as pessoas tocarem as suas vidas com mais dignidade, pois muitas pessoas que trabalham nas feiras e comércios, por exemplo, perderam tudo e não tiveram como se reerguer”, defende.
Quatro anos depois, continuar mobilizando não é tarefa simples. A espera desgasta. A ausência de respostas definitivas sobre os processos de reparação faz com que alguns moradores deixem de acreditar. Jeizi admite que uma das partes mais difíceis de sua atuação é justamente chamar novamente quem já participou de tantas reuniões e manifestações. Ainda assim, ela continua.
Há uma recompensa particular quando uma reunião enche, quando alguém que nunca havia participado aparece para uma formação ou quando uma pessoa passa a compreender que aquilo vivido individualmente também possui uma dimensão coletiva. São pequenas vitórias em uma luta cujo resultado maior ainda é esperado.

Fora das reuniões, existe outra Jeizi (ou talvez seja exatamente a mesma). Ela estuda Serviço Social, cuida dos dois filhos e encontra no companheiro, na mãe e na irmã uma rede importante para conseguir seguir uma rotina que mistura família, universidade e militância. Quando fala do futuro, seus desejos não começam com grandes obras.
Ela imagina uma Jequié onde seja possível acessar saúde pública com dignidade, onde os jovens tenham segurança, onde as famílias atingidas finalmente sejam reparadas e onde o Rio de Contas possa voltar a ser visto não como depósito de esgoto ou ameaça, mas como parte viva da cidade.
É também o futuro de Samuel e Flor que está colocado nessa imaginação. “Eu quero uma cidade melhor para os meus filhos”, resume. E é aí que a militante, a estudante, a mãe e a mulher ribeirinha mais se aproximam. Jeizi não fala de um futuro abstrato. Fala de um lugar onde seus filhos possam permanecer, onde outras mães não precisem atravessar o que tantas mulheres atravessaram e onde uma família não precise perder tudo para começar a ser ouvida.
Antes de 2022, Jeizi acreditava conhecer as cheias do Rio de Contas. Sabia que a água subia e depois encontrava novamente seu curso. O que ela não sabia era que uma dessas cheias mudaria também o curso de sua própria vida. Desde aquele dezembro, a água a levou para lugares inesperados: reuniões, manifestações, formações, viagens. Transformou perguntas individuais em reivindicações coletivas e fez uma moradora ribeirinha descobrir-se liderança.
Hoje, quando a água baixa, Jeizi permanece.
Entre a tranquilidade que diz carregar e a persistência que aprendeu a transformar em luta, ela segue tentando fazer com que Jequié não esqueça o Natal de 2022. Porém, não faz isso para viver eternamente naquela enchente, mas para que nenhuma família precise atravessar outra sem aviso, sem resposta e, sobretudo, sem justiça.
*Esta matéria integra a série Atingidos do Brasil, que reúne perfis de pessoas atingidas em diferentes territórios do país. As informações apresentadas nesta reportagem também podem ser ouvidas no episódio abaixo.