Abertura de comportas da barragem do Capivari atinge o Vale do Ribeira (SP) e isola comunidades 

Famílias têm casas alagadas e enfrentam falta de alimentos, medicamentos, comunicação e energia; MAB cobra resposta emergencial do poder público diante da previsão de novas chuvas na região

As famílias do Quilombo Galvão estão isoladas pelo aumento do nível do Rio Ribeira de Iguape. Foto: Comunicação MAB SP

As fortes chuvas que atingem o estado de São Paulo desde sexta-feira (11), somadas à elevação do nível dos rios e ao aumento da liberação de água por barragens, colocaram comunidades quilombolas do Vale do Ribeira em situação de emergência. Em Eldorado (SP), famílias estão com casas alagadas, comunidades ficaram isoladas e já há preocupação com a falta de alimentos, medicamentos e energia elétrica.

O Rio Ribeira de Iguape subiu rapidamente nos últimos dias e transbordou em diferentes pontos de Eldorado. Segundo informações divulgadas pela Defesa Civil, dezenas de famílias tiveram que deixar suas casas no município. Neste domingo (13), o estado de São Paulo chegou ao terceiro dia consecutivo de fortes chuvas, com enchentes, deslizamentos, quedas de árvores e interdições de rodovias.

Nas comunidades onde o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) atua, a situação é especialmente preocupante. O levantamento feito pelo MAB aponta que mais de 200 famílias já foram atingidas direta ou indiretamente, número que pode chegar a cerca de 500 famílias conforme as águas avançam.

Há atingidos em Sapatu, Nhunguara, Pedro Cubas, Ivaporunduva, Galvão e São Pedro, comunidades quilombolas da região. Em Sapatu, a água já entrou em residências e houve famílias que perderam móveis, eletrodomésticos e outros pertences porque não conseguiram retirá-los a tempo. Em Ivaporunduva também há casas tomadas pelas águas. Galvão e São Pedro estão ilhados, sem condições regulares de circulação de pessoas e carros. 

“No quilombo Sapatu, já temos famílias com a água dentro de casa. Em Ivaporunduva também já tem casa alagada. Galvão está ilhado e São Pedro também. Não passa carro, não passa nada”, relata Débora Silva, coordenadora do MAB no Vale do Ribeira.

A situação fica mais grave à medida que as comunidades perdem acesso às estradas, à energia e aos serviços básicos. Segundo Débora, em Pedro Cubas, o pequeno comércio que abastece moradores já enfrenta desabastecimento. A preocupação imediata é garantir comida e medicamentos às famílias que não conseguem sair das comunidades.

Isolamento agrava falta de comida e medicamentos

“O mercadinho lá do bairro já não tem nada. Então, o que preocupa as famílias aqui é a alimentação. Nós vamos ter que socorrê-las, porque alimentação e medicação são o que mais preocupa, principalmente porque estão isoladas”, explica Débora.

São Pedro enfrenta uma das situações mais críticas. Além de estar ilhada, a comunidade ficou sem energia elétrica e moradores passaram a enfrentar dificuldades para manter contato com pessoas de fora. Há preocupação de que problemas na rede elétrica também atinjam outras comunidades.

Para o MAB, não é possível esperar que a situação se agrave para que o socorro chegue. “É necessário garantir imediatamente água potável, alimentos, medicamentos, energia, acesso seguro às comunidades e estrutura para retirada e acolhimento das famílias quando necessário”, alerta Arthur Macfadem, da coordenação do movimento no estado.

Barragens aumentam preocupação no Vale do Ribeira

A emergência ocorre também em um contexto de preocupação com a operação de barragens da região. No sábado (12), o prefeito de Eldorado alertou moradores após receber do governo estadual a informação de que seria necessário aumentar a liberação de água da barragem de Capivari, no Paraná, diante do grande volume acumulado no reservatório. Segundo o relato divulgado, o aumento da vazão poderia contribuir para uma nova elevação dos rios no Vale do Ribeira.

A combinação entre solo encharcado, rios elevados, comunidades isoladas e novas precipitações mantém a região sob risco. A previsão é de continuidade das chuvas até esta segunda-feira (14), e o Vale do Ribeira está entre as regiões paulistas sob alerta para novos alagamentos, transbordamentos e deslizamentos.

A situação reforça para os atingidos a necessidade de informação transparente sobre a operação das barragens e de atuação articulada e preventiva do poder público, especialmente quando decisões sobre vazões podem afetar populações que vivem à jusante.

PNAB deve orientar proteção aos atingidos

A regulamentação da PNAB é urgente aos atingidos que sofrem com recorrentes violações de direitos. Foto: Amélia Gomes / MAB

A emergência também evidencia a importância da implementação efetiva da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), conquistada após décadas de luta dos atingidos e transformada na Lei nº 14.755/2023.

A legislação reconhece entre os impactos relacionados às barragens a interrupção prolongada ou alteração da qualidade da água, prejuízos à subsistência e aos modos de vida, impactos sobre comunidades tradicionais e a interrupção do acesso a comunidades rurais.

A PNAB também estabelece instrumentos específicos para situações de emergência relacionadas a barragens e determina atenção especial a comunidades tradicionais e pessoas em situação de vulnerabilidade. Além disso, define como princípio a participação e a informação da população nas ações preventivas e emergenciais e prevê atuação conjunta entre empreendedores, órgãos fiscalizadores e Defesa Civil diante de incidentes, acidentes ou desastres.

Para o MAB, essas garantias precisam sair do papel e orientar a resposta à emergência. As famílias não podem ser deixadas isoladas esperando que a água baixe. Cabe ao poder público atuar de forma preventiva, garantir abastecimento, atendimento de saúde, comunicação, energia e rotas seguras, além de assegurar informação permanente sobre as chuvas, os rios e a operação das barragens.

Enquanto a situação permanece crítica, o MAB atua junto às comunidades e organiza uma ação de solidariedade para garantir alimentos e outros itens essenciais às famílias atingidas, priorizando aquelas que estão isoladas e as que tiveram suas casas invadidas pelas águas.

Com a possibilidade de novas chuvas, cada hora conta. Evitar que o isolamento se transforme em desabastecimento e que novos danos atinjam as famílias é responsabilidade do Estado e dos responsáveis pelas barragens.