Marcha do 32º Grito dos Excluídos toma as ruas do país em defesa das mulheres e da soberania

Movimentos populares foram às ruas exigir o fim estrutural da violência de gênero e uma verdadeira independência decidida pelo povo

A Praça da Sé, em São Paulo, foi ocupada para reivindicar temas históricos como moradia, direito à terra, mulheres vivas e soberania. Foto: Tamires Pinheiro / MAB
A Praça da Sé, em São Paulo, foi ocupada para reivindicar temas históricos como moradia, direito à terra, mulheres vivas e soberania. Foto: Tamires Pinheiro / MAB

Nesta segunda-feira (7), as ruas de todo o Brasil foram tomadas por movimentos populares, sindicatos e organizações da sociedade civil para a realização da 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas. Fazendo um contraponto histórico e crítico ao evento oficial do Dia da Independência, a manifestação deste ano manteve o seu tema permanente, “Vida em Primeiro Lugar!”, e ecoou o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. 

A mobilização articulou pautas históricas dos movimentos sociais com as reflexões propostas pela Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), diante de um cenário global e nacional de grande complexidade política e econômica.

 32° Grito dos Excluídos e Excluídas, em Salvador (BA). Foto: Dalila Santos / MAB
 32° Grito dos Excluídos e Excluídas em Salvador (BA). Foto: Dalila Santos / MAB

Para os organizadores, a data foi um momento de ressignificar o patriotismo. Daiane Höhn,  integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ressaltou a importância da mobilização popular na data comemorativa.

“Nós, classe trabalhadora, buscamos construir no dia 7 o verdadeiro sentido da Independência do Brasil. Nesses 32 anos de luta, resistência e teimosia, as atingidas e atingidos se somam para trazer as pautas populares, e nesse ano para mostrar quem são os defensores da nação e os inimigos da pátria”. 

Segundo a ativista, o movimento sempre teve um lado definido na história. “O Grito, desde seu nascimento, levantou a bandeira contra o imperialismo, trazendo o tema da soberania nacional e popular, pautando um projeto onde o povo de fato decida os rumos do país”.

A urgência da proteção à vida das mulheres foi um dos motores centrais da caminhada, impulsionada pela denúncia brutal de que mais de 1.500 mulheres foram assassinadas no país apenas no ano de 2025. 

Presente na mobilização, padre Edson Thomassim – também conhecido como padre Edinho – é membro da Pastoral Carcerária e articulador regional das Pastorais Sociais do Rio Grande do Sul pela CNBB. Ele também é um dos articuladores do Grito dos Excluídos e das Excluídas e enfatizou a gravidade do cenário. “Queremos gritar para que as mulheres estejam vivas e possam viver e superar toda essa onda de violência e de feminicídio”. Oadre Edinho destacou que a violência de gênero tem raízes profundas.

“É uma causa estrutural do machismo, do patriarcado e da misoginia, e exige de nós fraternidade e compromisso, como se diz, a solidariedade entre as mulheres, para que possamos colaborar com a eliminação desta chaga”. 

Em Brasília, o MAB esteve presente no 32º Grito dos Excluídos e Excluídas, fortalecendo a luta por um Brasil onde a vida esteja acima do lucro e da exploração. Foto: Comunicação MAB DF
Em Brasília, o MAB esteve presente no 32º Grito dos Excluídos e Excluídas, fortalecendo a luta por um Brasil onde a vida esteja acima do lucro e da exploração. Foto: Comunicação MAB DF

Ao falar sobre o direito à moradia, Thomassim lembrou que a pauta é a porta de entrada de todos os direitos. “Ter um endereço e ter uma casa digna significa isso, ter também um espaço de vida onde se possa acessar os direitos à cidade”. A busca pela paz, tanto global quanto nas cidades brasileiras, também permeou os discursos durante os atos. 

O padre também lembrou que a insegurança não vem apenas das guerras internacionais, mas do cotidiano nacional. “Há uma chaga na sociedade brasileira, que é a chaga da violência urbana, da violência das cidades, das violências nos lares e na criminalização de movimentos sociais”. Para ele, a ocupação das ruas no feriado representou um grito de sobrevivência e resistência popular.

“No dia sete de setembro, é preciso dar o grito. Não o grito das burguesias e das elites, que vem sendo dado, que reclamam quando as políticas se voltam a favor dos mais pobres. Mas o grito de quem está de fato nas margens, nos escombros das realidades da vida, de quem ainda está nas marchas lutando por direito, por dignidade”, concluiu.

O Grito dos Excluídos

O Grito dos Excluídos nasceu das reflexões promovidas durante a Segunda Semana Social Brasileira, que colocou as diversas formas de exclusão no Brasil como o grande tema central de debate. Esse movimento também ganhou força no esteio da Campanha da Fraternidade de 1992, que abordou a temática dos marginalizados sob o lema “Eras Tu, Senhor”. 

A partir dessa junção de ideias, consolidou-se uma crítica histórica: o Grito de Independência oficial foi dado por um príncipe e serviu aos interesses da nobreza, da burguesia e das elites, não representando uma verdadeira emancipação por ignorar a voz do povo. Em contraponto a essa narrativa, o Grito dos Excluídos surgiu para ser o clamor autêntico das camadas populares do país.