Políticas de habitação são insuficientes para reconstrução de famílias atingidas no RS
Conheça a família de Keise, que cresceu na Ilha Grande dos Marinheiros e precisou ser deslocada de casa após ter o bairro submerso durante as enchentes
Publicado 04/09/2026 - Actualizado 04/09/2026

Após a enchente de 2024, Keise Lopes e a família se viram em um beco sem saída: sair da Ilha – para moradias menores e mais distantes – ou continuar no território com a aflição persistente de um possível novo desastre climático. A Ilha Grande já havia sido atingida pela enchente do Rio Taquari em 2023 e os moradores estavam em processo de reconstrução.
“Eu me sinto mais protegida por ter saído das Ilhas, mas me entristece. Porque eu perdi os vínculos com a minha comunidade. Fiquei distante da minha mãe, que é a minha principal rede de apoio. Sempre foi. A gente morava no mesmo pátio e tem um vínculo muito grande entre ela e as crianças”, conta Keise, que cresceu na Ilha Grande dos Marinheiros, em Porto Alegre.
Keise explica que ela, o marido e os filhos mudaram-se há 6 meses da antiga casa para um apartamento na cidade de Porto Alegre, e seus pais, Giane Maria e Luís Carlos Lopes também estão saindo do território. Enquanto caminha e apresenta a Ilha, Giane relata que muitos moradores ainda resistem em meio ao corte de serviços públicos e a entraves burocráticos para o reassentamento dos atingidos. Ela cita como exemplo o posto de saúde que frequenta, que foi destruído pela força das chuvas de 2024. Mesmo após dois anos e meio do desastre, o local não foi reconstruído pela prefeitura e continua funcionando numa tenda emergencial.
“Desde sempre” no território, Giane teve um comércio com o marido no primeiro andar de casa, criou dois filhos, esteve presente na sua comunidade religiosa, e no dia a dia de seus vizinhos. Alguns já se retiraram, outros não tem intenção de sair ou ainda não foram contemplados por programas de reassentamento, ou seja, realocação de atingidos para áreas com menor risco de inundação.
Ao contrário de 2023, em 2024, o bairro Arquipélago de Porto Alegre – composto por 16 ilhas, com cinco delas habitadas – foi inundado por completo. O desastre foi brutal, mesmo para um povo ribeirinho já acostumado com cheias. Com alto risco de inundação, a região está sendo desocupada através do Programa federal Compra Assistida: a casa atingida é trocada por outra de até R$ 200 mil em outra área, e a antiga é derrubada.
No entanto, a realocação de moradias não considera a realidade dos moradores: em uma casa podem morar famílias grandes ou até mais de um núcleo familiar. O que não se comporta no valor dos imóveis oferecidos e esbarra na realidade financeira da população. De acordo com Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, cerca de 6,4 mil pessoas foram atingidas nas lhas, e destas, 1,7 mil eram famílias inscritas no CADÚnico, com renda média de meio salário mínimo por pessoa.
Na Ilha Grande, boa parte dos moradores tira o sustento do próprio território: pescadores, catadores, pequenos comerciantes e empreendedores que mantêm e dependem de seus laços comunitários. Nenhuma das opções oferecidas aos moradores foi de reassentamento coletivo, com a transferência planejada de uma comunidade inteira para um novo local. Segundo Alexania Rossato, da coordenação nacional do do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), essa seria a opção prioritária de realocação de uma comunidade atingida, pois busca manter a cultura e a organização social pré-existentes.
A conta que não fecha
Os dois núcleos da família Lopes foram contemplados pela compra assistida, oferecida aos atingidos pela enchente que tiveram as casas condenadas. Ainda assim, Giane relata a insegurança sentida por quem está nesse processo. “Eu e meu esposo já somos aposentados, mas um condomínio não é fácil. Se não pagar, em no máximo três meses, tu tem que sair. E tu vai pra onde?”, desabafa.
Giane foi contemplada com um apartamento que demanda novos gastos, como o custo mensal de um condomínio, desafiador para quem já vive com a renda mínima. A aposentada conta as angústias de ter novos problemas na terceira idade: um período da vida em que, com a casa própria e os filhos criados, ela acreditava que teria mais descanso. “Quer dizer que uma coisa que foi tua a vida toda, agora tu tem, mas não é tua”, diz.
De acordo com o balanço de dois anos das enchentes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), os planos habitacionais propostos pelos governos estão, em geral, sendo projetados em áreas afastadas dos territórios originais das comunidades. Na prática, essa política pode acelerar ainda mais um processo de exclusão social de populações já vulnerabilizadas.
Alguns vizinhos de Giane permanecem no local e não aceitam a Compra Assistida por medo dos novos encargos como condomínio, IPTU, mudança, além da realidade de desemprego e pouca escolaridade de muitos. “É por isso que o pessoal quer que o governo dê um auxílio para quem saiu, para pagar o condomínio, se manter”, explica.
O relatório da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS), realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relata que entre os cerca de 2,3 milhões de domicílios estimados nas áreas pesquisadas, 53,2% sofreram algum dano estrutural. Isso foi mais frequente em moradias de baixa renda: 31,4% das casas danificadas eram de famílias com faixa de renda de até R$ 2.000,00.

Um apartamento de 40m², que mal comporta dois quartos para uma família, facilmente ultrapassa o valor garantido pelo programa federal no centro da capital. Assim, ou os moradores das ilhas se deslocam para cidades metropolitanas e/ou áreas periféricas, ou se apertam em pequenos apartamentos na região central. Porém, muitos moradores questionam se os novos locais em que irão viver não poderão também estar sob risco.
“Eles dizem que a reconstrução vai levar ainda uns 10 anos. O maior fator pra mim é que eu tenho 30 (anos), mas ela tem 68. Ela vai correr atrás de mais o quê, por mais quantos anos?”, desabafa Keise sobre a mudança da mãe, que precisará reconstruir a vida longe do território em que cresceu e da comunidade da qual construiu por quase sete décadas.
Durante a reportagem, a data de demolição do imóvel estava riscada no muro da casa de Luís e Giane. Hoje, parte da casa já foi parcialmente derrubada, mas o casal ainda não conseguiu completar a mudança por falta de recursos.
Marcas invisíveis
“Minha irmã fica preocupada com a vó, porque a casa dela é de madeira”, diz Diogo Lopes, filho de Keise, de 10 anos de idade. “Quando chove, eu fico com medo de estourar uma barragem [dique] e a água subir muito”.
Ele conta que se sente mais seguro na nova casa, mas que ele e as irmãs, de 8 e 6 anos, ainda se sentem angustiados quando há tempestades. Diogo diz saber que o bairro Farrapos, para onde se mudaram, também ficou submerso em 2024.
“Na época eu fiquei triste, porque a gente levantou os móveis e achou que a água não ia subir muito. A nova casa é bem legal, tem um parquinho que eu gosto, mas preferia que fosse uma ‘casa’. Eu gostava do quintal, de brincar de futebol, e a gente tinha muito bichinho. Galinha… eu tinha cachorro também, mas ele faleceu de leptospirose, por causa da água, sabe?”
Segundo o relatório PEERS (IBGE), em 67,5% dos lares, a saúde mental dos moradores ficou abalada. Mais de 4 milhões de pessoas convivem com ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Para Keise, o governo deveria oferecer ajuda psicológica aos atingidos, entre eles, crianças como seus filhos, que lidam com os traumas de terem perdido a casa, os pertences e saído às pressas de onde viviam. “Para eles foi horrível. Horrível. O Diogo agora está muito mais ansioso, até começou a tomar um remédio novo”, conta a mãe.

Quem perde tudo não recupera a sua estrutura econômica e social da noite pro dia. Segundo Keise, a perda do bairro e até do posto de saúde são entraves para a adaptação da família no pós-desastre. “Foram muitos anos consultando com uma mesma equipe. E pro meu filho, que é autista, isso faz muita diferença. Ele se sentia seguro, as meninas sabiam conversar e acalmá-lo com mais facilidade do que os novos lugares em que consultamos agora”.
Keise havia recém aberto uma loja de açaí fora das Ilhas e conquistado uma clientela, quando a enchente que levou a sua casa, destruiu também o seu local de trabalho. “Não consegui voltar a vender, pelo psicológico e pelo financeiro. Porque toda a reserva que eu tinha, foi o que me manteve com três crianças no período em que eu não tinha pra onde ir”, diz.
De acordo com Alexania, os dados do balanço do MAB também reafirmam a posição do movimento: a adaptação das famílias vai muito além de uma nova casa, porque deve ter participação ativa dos atingidos desde o planejamento até a execução do reassentamento da comunidade. “Muitos daqueles que saíram estão em estado profundo de depressão. Até porque, em uma casa moravam muitas pessoas e agora elas foram para apartamentos em que não cabe nada, longe da sua terra e alguns não têm mais renda. As pessoas estão endividadas”, acrescenta Keise.
Para o tratamento digno dos atingidos pelos extremos da crise climática, a participação popular é um direito a ser respeitado. No entanto, os moradores se sentem abandonados pelas políticas de reconstrução do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre. Na tentativa de serem ouvidos, a família de Keise, junto a vizinhos da Ilha Grande, se organizaram como um grupo de atingidos do MAB. “Antes a gente fazia muito protesto colocando fogo na BR, a gente era taxado e sofria muita violência e opressão da polícia. E aí mudou, né? Hoje a gente já consegue formular um documento e mandar pro prefeito. Nos deu muita voz”, relata a atingida.
A política de moradia, sendo feita sem um olhar sensível sobre a população, apenas perpetua desigualdades. A realidade da família de Keise, Giane e Diogo escancara que a realidade dos atingidos exige respostas do poder público que compreendam as suas necessidades além do momento da crise. Entre a premissa de uma reconstrução excludente e o abandono sentido pelos atingidos, os moradores das Ilhas continuam a cobrar o direito à moradia digna e o respeito a sua história na própria terra.