Jaru (RO) sedia encontro territorial da Missão Josué de Castro

Atividade reuniu movimentos sociais e organizações de Rondônia e Mato Grosso com debate sobre a transição ecológica dos sistemas alimentares e troca de experiências de produção agroecológica

Representantes e lideranças de movimentos e organizações sociais reunidas durante encontro em Jaru/RO
Representantes e lideranças de movimentos e organizações sociais reunidas durante encontro da Missão Josué de Castro em Jaru (RO). Foto: Klézi Martins / MAB

Nos dias 31 de julho e 1º de agosto, Jaru (RO) foi o ponto de encontro de quem planta e de quem luta por uma alimentação de verdade. A cidade sediou a 1ª Etapa Regional da Missão Josué de Castro, um espaço que uniu os estados de Rondônia e Mato Grosso (Território 1), com um propósito urgente: construir formas justas e sustentáveis de produzir e distribuir alimentos.

O encontro contou com uma ampla força de articulação, reunindo representações do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA/RO), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB/RO), Via Campesina (RO), FASE MT, Rota Caminhos da Agroecologia, ARPEP/MT, AMAFAP/MT, Muxirum Jovem, ARPA/MT, COOPERVALES/MT, CTA/MT e COOPERMAF/MT.

De acordo com Maria Rita, agente territorial da Missão Josué de Castro, o momento presencial foi fundamental para que o projeto começasse, de fato, a “pisar no chão do território”, integrando na base os sujeitos que constroem o dia a dia dessas organizações.

Nenhuma luta avança sem olhar para o passado e entender o presente. Por isso, o encontro começou resgatando a própria história da Missão Josué de Castro, em um momento conduzido por José Josivaldo, da coordenação nacional do MAB. A ideia central da Missão é clara: enfrentar a crise da fome e da má alimentação no Brasil fortalecendo quem produz com diversidade, cuidando da natureza e agregando valor ao que é da nossa terra.

Para entender os próximos passos, os participantes mergulharam na “Análise de Conjuntura Política e Território”, um debate essencial para a leitura da realidade local e nacional, que contou com as contribuições de Leila Denise (MPA/MT), Laércio Cavalcante (MAB/RO) e Leonel Wolfhart (FASE/MT).

No período da tarde, a teoria ganhou rostos e resultados com o Painel de Experiências “Produção Agroecológica e Abastecimento Popular”. Saguio Moreira destacou o trabalho da Coopervales e da Rota Caminhos da Agroecologia na garantia de uma comercialização justa e em rede. Em seguida, Sebastiana Gomes (MPA/RO) compartilhou os desafios e as conquistas das feiras agroecológicas rondonienses do MPA, evidenciando as experiências já consolidadas em Ouro Preto do Oeste e no distrito de Tarilândia.

O diálogo não ficou restrito à plenária. O grupo foi a campo em um intercâmbio prático na Feira Agroecológica do MPA em Tarilândia, distrito de Jaru. Sair do auditório evidenciou na prática como a agricultura familiar impacta a vida das pessoas e se firma como a maior força motriz de transformação da realidade local.

Um dos momentos mais importantes da atividade foi a apresentação dos Diagnósticos Territoriais (Projeto Sementes – Fase 1). Muito além de um simples levantamento de dados, o mapeamento ilustrou como vivem e as necessidades das famílias camponesas, embasando o planejamento coletivo. Os números mostram a capilaridade do trabalho de base:

  • Em Mato Grosso, a FASE mapeou a realidade de 500 famílias na Baixada Cuiabana e Grande Cáceres;
  • Em Rondônia, o MPA ouviu e sistematizou a vivência de 700 famílias espalhadas por 19 municípios;
  • Também em Rondônia, o MAB levantou a situação expressiva de 2.000 famílias nas regiões de Candeias do Jamari e Porto Velho.

Com essas informações em mãos, o desafio agora é identificar onde estão os núcleos de técnicos, agricultores e militantes para somar forças rumo aos próximos objetivos: desbravar os chamados “desertos alimentares”, áreas onde a comida de verdade não chega, e aprofundar as estratégias de distribuição popular através de novos encontros estaduais.

A atividade foi encerrada de forma simbólica com uma tradicional troca de sementes, um gesto que reafirma o compromisso camponês com a biodiversidade. Mais do que compartilhar saberes, a Missão Josué de Castro se consolida como um projeto de transformação estrutural.

O papel estratégico do MAB na articulação

Por compreender o peso dessa transição que o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) tem se inserido de forma decisiva nessa articulação. Avaliando os saldos do encontro para a organização popular, José Josivaldo, da coordenação nacional do Movimento, explica a centralidade de aliar a luta camponesa às necessidades da classe trabalhadora urbana.

“Para nós, é uma iniciativa certeira, acertada, e que a gente quer construir, junto com os demais e o MPA, combinando uma estratégia de caráter de transformação”, aponta o dirigente. Ele ressalta que essa construção coletiva incide na produção e na criação de autonomia alimentar para a população da cidade, “que não produz alimento e, muitas vezes, não tem dinheiro suficiente para comprar”.

Para além do combate imediato à fome, a inserção do MAB na Missão fortalece uma disputa histórica de modelo de sociedade. “Trata-se também de luta política e de pensar num processo de transformação da realidade, da economia e da filosofia capitalista para uma outra natureza de sociedade, que a gente almeja ela ser uma sociedade a longo prazo chamada de sociedade socialista”, conclui Josivaldo.