Daniela Constanzo, pesquisadora do Cebrap, aponta desafios da esquerda na disputa presidencial de 2026, que será marcada por alta abstenção
Publicado 19/08/2026

Divulgada no última quinta-feira (13), a pesquisa PoderData/Aya mostra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 41% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 35%. O levantamento ouviu 2.400 pessoas, entre 26 e 29 de julho, e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Para Daniela Constanzo, cientista política e pesquisadora plena do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), o cenário favorece Lula neste momento, mas a vantagem pode mudar até a eleição. “Mesmo com tudo isso, o Flávio mantém uma intenção de voto muito alta”, alerta.
A entrevistada defende a necessidade de mobilização social e conscientização para levar eleitores às urnas, diante do aumento da abstenção a cada pleito. Daniela afirma que “a mobilização é essencial para convencer as pessoas a irem votar”. Segundo a pesquisadora, o voto é obrigatório, mas o custo de não votar no Brasil é muito baixo. “Basta fazer uma justificativa simples pela internet ou pagar uma taxa muito baixa”.
De acordo com Daniela, a disputa presidencial ocorre ao lado de uma eleição para o Congresso, em que o bolsonarismo mantém uma forma de organização distribuída por diferentes partidos e concentra esforços nas cadeiras do Senado. Ela afirma que o campo progressista precisa disputar esse espaço, depois de perder prefeituras e de não formar bases municipais para a eleição de deputados.
“Acho que essa construção municipal é fundamental, pois acaba gerando um ciclo. Se você não tem prefeito, é difícil ter mais deputados. Claro que o PT tem a segunda bancada, ainda é uma bancada muito forte e possui lideranças muito importantes, mas seria essencial construirmos essa política municipal”, afirma Daniela.
Ela adverte que a esquerda pode vencer o Executivo e continuar sem condições de conduzir sua agenda no Legislativo. A avaliação se soma à falta de uma liderança com a capacidade de articulação de Lula e aos efeitos da inteligência artificial, da abstenção e da disputa por temas como economia, corrupção e violência contra as mulheres. “Essa é a grande questão do campo progressista”.
Polarização, abstenção e sucessão
Daniela Constanzo afirma que o eleitorado apresenta sinais de cansaço, depois de sucessivas eleições com candidaturas semelhantes e com a disputa entre PT e bolsonarismo. Ela prevê que a polarização permaneça e que a pulverização das candidaturas de direita não altere, de forma significativa, a divisão entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Nesse sentido, uma parcela de cerca de 3% dos eleitores poderá decidir a eleição. “É uma faixa muito pequena, formada majoritariamente por mulheres e concentrada nas regiões metropolitanas, o que mostra uma tendência para o Lula. Esse público está bem cansado dessas disputas e da polarização, mas, por ser composto majoritariamente por mulheres, há uma tendência positiva para o Lula. 3% é muito pouco, então vai ser de novo uma eleição muito disputada”.
Pauta das mulheres e o voto feminino
A violência contra as mulheres aparece para a pesquisadora como tema de disputa entre os campos políticos. Daniela afirma que houve aumento de feminicídios e de agressões dentro de casa e por familiares. Ela relaciona esse quadro a mudanças nas políticas públicas depois do impeachment de Dilma Rousseff, e diz que a pauta será explorada por Michelle Bolsonaro, Damares Alves, Lula e candidatas e candidatos de diferentes partidos.
“A pauta da mulher vai estar muito em disputa por Michelle Bolsonaro e Damares Alves, e até mesmo pelos homens”. Para a cientista política, o tema deve permanecer presente nas campanhas para governador e senador e ocupar espaço nos debates sobre segurança, família e políticas públicas.

Para além das pautas que tratam dos direitos das mulheres, Cleidiane Barreto, integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) na Bahia, relembra que o voto feminino é uma conquista histórica das mulheres. “É fruto da luta feminista, e no Brasil é muito recente a participação das mulheres em decidir politicamente através do voto”. Ela também enfatiza que, quando se é mulher, tudo é político.
“A nossa vida, o cuidado, a educação e a saúde afetam todo mundo, mas principalmente a vida das mulheres. Somos nós que historicamente somos responsáveis por essas áreas e também que pensamos a vida da comunidade, os territórios e as nossas famílias, mas historicamente fomos negadas de estar nesse processo da participação política”, afirma.
Nesse sentido, ela reitera a importância do voto feminino para que os direitos das mulheres sejam garantidos em um Congresso formado majoritariamente por homens brancos, heteronormativos e que tem, nos últimos períodos, construído agendas que vão contra os direitos das mulheres, que afetam e questionam a autonomia feminina.
“Quando a gente fala dessa relativização dos direitos, sejam direitos à saúde reprodutiva, direito à moradia digna ou à educação, relativiza-se também o direito do voto feminino. Por isso, a importância de votar em quem defende a pauta das mulheres, a importância de derrotar esse conservadorismo, o fascismo patriarcal que está instalado no Congresso, e votar cada vez mais em quem assume as pautas feministas”.
Narrativas e inteligência artificial
Em um cenário marcado pela intensificação do uso da inteligência artificial, há uma tendência em utilizar essa ferramenta de forma indiscriminada nas campanhas, o que deve trazer dificuldades para identificar o que é conteúdo verdadeiro do que é conteúdo falso. Além disso, Daniela Constanzo indica que a presidência de Nunes Marques no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve dificultar a punição em casos de violação das novas regras para uso de IA. “Uma das dificuldades é que desta vez não teremos um ministro no comando do TSE preocupado com isso”. A entrevistada atribui parte da normalidade das eleições anteriores à atuação de Alexandre de Moraes no TSE.
No debate entre Lula e Flávio, a cientista política prevê que o governo apresentará resultados econômicos, enquanto a oposição concentrará ataques em denúncias de corrupção. Ela diz que a percepção dos eleitores sobre a melhora econômica será decisiva, e que a chegada do El Niño, com possível impacto sobre os preços dos alimentos, pode alterar o cenário.
Base municipal e Congresso
A pesquisadora relaciona o resultado das eleições municipais à composição da Câmara dos Deputados. Segundo Daniela, o PT perdeu prefeituras e os demais partidos da esquerda têm uma situação semelhante ou inferior. A ausência de prefeitos reduz a formação de candidaturas para o Legislativo e transfere espaço para o centrão. “Quando não construímos essa política municipal no campo progressista, ela fica com o centrão, e quando o centrão chega com tanta força no Congresso, ele acaba rendendo o governo”. Diante disso, o governo passa a depender de negociações com partidos que, na sua definição, ocupam o centro posicional e podem apoiar diferentes administrações.
A perda de capacidade do Executivo diante do Congresso, na avaliação da cientista política, envolve o orçamento, a tramitação de medidas provisórias, a aprovação de projetos enviados pelo governo e os pedidos de urgência. Ela relaciona esse processo a episódios da história recente da política brasileira, e afirma que a dificuldade de governar aparece depois da eleição presidencial, quando o Executivo precisa construir maioria no Legislativo. “O campo progressista ganha o Executivo, mas não consegue governar passando pelo Legislativo”.
Para Daniela, o problema tem duas dimensões: a falta de formação de deputados, a partir das bases municipais, e o aumento da influência do Congresso sobre o orçamento e a agenda do governo.
Governos estaduais e palanques
Nas eleições para governador, Daniela afirma que Lula pode contar com mais palanques estaduais, porque partidos do centrão trabalham candidaturas em diferentes regiões e alguns apoiam o governo. Ela cita o apoio declarado por Hugo Motta. A vantagem presidencial, porém, não representa uma ampliação do campo progressista, pois os governadores apoiados por essas alianças permanecem à direita no eixo ideológico.
“Então, acho que é um cenário mais favorável ao Lula, mas não ao campo progressista, porque são governadores de direita se formos falar ideologicamente. Quando falamos do centrão, para mim, são partidos conservadores, mas que estão no centro posicional, como chamamos na ciência política. Ou seja, eles não defendem um projeto para o país; estão sempre entre dois projetos, e por isso apoiam qualquer governo que esteja no poder”, analisa.
Sobre o período posterior a Lula, Daniela Constanzo afirma que a esquerda precisa construir mais de uma liderança. Ela cita Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Marina Silva e João Campos, e defende uma articulação entre partidos, em vez de uma estratégia restrita às estruturas partidárias.
“Vai ser cada vez mais importante que o PT e os outros partidos se abram para lançar candidaturas do campo e não apenas do próprio partido”. A entrevistada também menciona a cláusula de barreira e a necessidade de coalizões entre partidos menores, além da disputa interna no PT depois de Lula.