Novos temporais voltam a assustar moradores do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul
Falhas na comunicação de alertas, atrasos na reconstrução e desinformação expõem a vulnerabilidade de famílias que ainda tentam se reerguer no Rio Grande do Sul
Publicado 24/07/2026 - Actualizado 25/07/2026

O som do movimento de carros nas ruas e conversas altas sobre a subida do nível do rio interromperam o sono de Terezinha das Graças na última quarta-feira (22). Moradora e integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Lajeado, situado a 113 km de Porto Alegre, ela conta que poucas horas após despertar, por volta das 10h, a água já alcançava a frente de sua residência. A situação exigiu a intervenção de caminhões da prefeitura para a retirada de moradores em bairros como Cantão, Hidráulica e Conserva.
Alojada temporariamente no abrigo municipal montado no Parque do Imigrante, junto a outras cerca de 500 pessoas, ela relata o cenário vivido no local. “Estou aqui no abrigo e não tenho previsão de ir para casa. Porque eles avisaram hoje que, provavelmente, na semana que vem vai estar chovendo de novo e vai dar um repique”.
Terezinha relembra que uma reunião promovida pela Defesa Civil dias antes havia descartado a possibilidade de uma nova inundação. “No dia 15 teve uma reunião da Defesa Civil e eles falaram que não ia ter enchente. Então, quer dizer que ninguém sabe mais nada”.
Apesar de destacar que a assistência básica no abrigo está sendo prestada, ela faz um apelo às autoridades. “Eu peço ao presidente, ao governador, aos deputados, ao governo, que olhem para nós, olhem para a nossa situação. Não é só a situação de Lajeado, Arroio do Meio, Encantado, Roca Sales, Muçum, todo o Vale do Taquari. Olhem por nós com bons olhos, porque a gente precisa, a gente precisa de ajuda”.

Ela aponta ainda barreiras burocráticas no acesso à moradia por sua casa ter permanecido de pé: “Saiu inscrição aqui em Lajeado para as casinhas e eu não pude participar. Por quê? Eu vou dizer agora. Porque a minha casa está de pé, ela não caiu, e eu tenho a escritura da casa e do terreno. Não tenho direito a nada”.
No local, o nível do rio chegou a 24,76 metros na madrugada desta quinta-feira (23). A cota de inundação é de 19m. Após algum tempo, as águas começaram a baixar, chegando a 23,71m às 9h30. Mais de 1,8 mil pessoas precisaram deixar suas residências após os episódios recentes de chuva no Rio Grande do Sul. Segundo os dados mais recentes da Defesa Civil Estadual,1.315 pessoas estão desabrigadas em 16 municípios atingidos pelo aumento do volume dos rios e pela precipitação constante. Outras 565 pessoas permanecem desalojadas, abrigadas na casa de parentes ou amigos.
O monitoramento do Clima RS confirmou a inundação do Rio Caí, em São Sebastião do Caí, no ponto de medição do Passo Montenegro. No município de Feliz, a força da correnteza destruiu e levou parte da estrutura de uma ponte recém-construída após as enchentes de 2024, local que já havia sofrido danos em janeiro do ano anterior pelo mesmo motivo.
Entre os municípios com registros de população fora de casa, Lajeado contabiliza 378 desabrigados, seguido por Muçum (46), Estrela (45), Encantado (40) e Santa Cruz do Sul (33).
Acumulados expressivos foram registrados em Marcelino Ramos, com 138 mm em 12 horas, e em Paraí, onde o volume ultrapassou 200 mm em 24 horas, levando a Defesa Civil a emitir alerta vermelho de risco hidrológico para os vales do Taquari e do Caí.
Em Estrela, a cerca de 110 quilômetros da capital Porto Alegre, a moradora Maria Dolores Camargo relata a rotina na propriedade rural localizada entre a cidade e Bom Retiro, às margens do Rio Taquari. Ela explica que a água não atingiu diretamente a sua residência, mas cobriu áreas de lavoura e pastagem, exigindo o uso de trator ao longo de dois quilômetros alagados para conseguir tratar os animais.
Maria critica a demora nos auxílios estatais pós-desastre. “A situação é precária, porque até hoje nós não ganhamos retorno da enchente de 2023 e 2024 do nosso município. Me prometeram uma casa, já faz um ano e seis meses, e até agora nada”. A moradora contesta também a precisão falha dos avisos meteorológicos recebidos pela população.
“Terça-feira falaram que, se era para ter enchente, ia ter enchente em 72 horas. E ontem de manhã, quarta-feira, o rio já amanheceu inundando tudo. Que previsão é essa que eles dão para o povo e eles dizem que estão equipados para monitorar tudo? Onde está isso?”.
A percepção de falhas no alarme também é destacada por Djeison André Diedrich, advogado e membro da coordenação do MAB. Situado no Vale do Taquari, ele avalia que o estado enfrenta o agravamento de eventos climáticos e aponta falhas na condução dos avisos.
“A gente estava relativamente tranquilo pela própria informação da Defesa Civil estadual. O governador Eduardo Leite lançou um vídeo também reforçando que não tinha risco iminente de inundação no Vale do Taquari. Então, o nosso povo, na terça-feira, foi dormir tranquilo. Por outro lado, já na madrugada começaram a aparecer as informações”.
Djeison descreve a apreensão gerada pela mudança abrupta. “Por volta das sete da manhã, também tocou aquele alerta geral da Defesa Civil, o broadcast, o Cell Broadcast, uma coisa assim, que toca no celular de todo mundo e começa a apitar. Aquilo gerou pânico. O povo que tinha ido dormir tranquilo acordou assustado, revivendo tudo”.
Ele classifica o episódio como um erro grave das instâncias oficiais. “Houve uma falha grotesca, gigantesca do governo na previsão e na avaliação do risco, o que fez as pessoas ficarem em risco. As pessoas poderiam ter saído de casa de maneira mais tranquila se houvesse a informação”.
Ilhado na Travessa Pedro Schweizer, no município de Arroio do Meio, o morador Irineu Freire Santana e militante do MAB descreve o cenário vivenciado por sua vizinhança composta por idosos, pessoas com comorbidades, gestantes e crianças. Ele narra a incerteza vivida durante as primeiras horas da cheia.
“Então, aqui onde eu estou, a gente passou por um sentimento de fragilidade e de tensão também, porque logo no começo a gente não sabia o que estava acontecendo. Começou a encher e vieram os alertas. Então, você acorda com o alerta sem uma previsão e com previsões até positivas. A gente se assusta mesmo”.
Irineu aponta lacunas na divulgação dos planos municipais de prevenção e na acessibilidade das informações. “Tem pessoas que não têm acesso ao celular. Então, não tem um agente aqui; o acesso é insuficiente”.
O morador problematiza ainda as intervenções viárias promovidas na região. “Aqui eu estou alagado porque a prefeitura fez um aterro. O vereador passa aqui e joga pedra de vez em quando, joga cascalho e levanta o aterro. Se não tivesse o aterro, se fosse uma ponte ou galerias grandes em vez de só aterro, iria ajudar a água a subir menos”.