Na comunidade Brasileira, em Porto Velho (RO), a rotina da atingida é marcada pela oscilação do Rio Madeira e do Rio Jamari. Diante de cheias recorrentes e de uma seca que alterou o acesso à água e à pesca, ela atua no MAB em defesa dos direitos territoriais

"Para mim, a pesca simboliza praticamente tudo", relata Simone. Foto: Klézi Martins / MAB
“Para mim, a pesca simboliza praticamente tudo”, relata Simone. Foto: Klézi Martins / MAB

Aos 27 anos, Simone Alves da Lima vive na comunidade Brasileira, localizada nas proximidades do distrito de São Carlos, em Porto Velho (RO). Nascida na região onde as águas do Rio Madeira encontram o Rio Jamari, ela descende de uma família de moradores locais, incluindo pais e avós que também estabeleceram a vida no território. Mãe de dois filhos, Simone é pescadora profissional e tem na pesca e na agricultura de vazante seu meio de sobrevivência. A comunidade em que vive abriga cerca de 100 famílias que compartilham a dependência direta dos ciclos dos rios para o trabalho, a alimentação e o deslocamento.

Sua relação com o território é definida pela proximidade com o leito dos rios, que funcionam como principal via de transporte e fonte de renda. No cotidiano da comunidade, a produção de peixes como pacu, surubim, dourado e jatuarana é comercializada localmente e para compradores que se deslocam da área urbana até a comunidade. Para ela, a pesca representa o eixo central da sobrevivência e da história dos moradores da região.

Simone Alves da Lima com uma de suas filhas, na comunidade Brasileira, localizada nas proximidades do distrito de São Carlos, em Porto Velho, Rondônia. Foto: Bruna Cassila / MAB
Simone Alves da Lima, com uma de suas filhas, na comunidade Brasileira, localizada nas proximidades do distrito de São Carlos, em Porto Velho (RO). Foto: Bruna Cassila / MAB

O impacto das cheias e o abrigo em balsas

Historicamente, a comunidade Brasileira convive com o regime de cheias do Rio Madeira, que possui mais de 3 mil km² de extensão, e do Rio Jamari. Simone relata que, em 2014, a elevação do nível das águas atingiu proporções que obrigaram os moradores a abandonar suas residências. Durante um período de aproximadamente três meses, ela e sua família viveram em uma balsa de madeira, utilizada geralmente para trabalhos no rio, enquanto aguardavam a redução do nível da inundação para retornar e realizar a limpeza das casas.

“A água era pra tudo quanto era lado, então a gente preferiu ficar lá mesmo. A gente ficou na balsinha até a água baixar, com meus dois filhos. Fiquei na balsinha até a água baixar e voltar pra casa para limpar de novo”, afirma.

Balsa em que Simone permaneceu durante três meses com as cheias do Rio Madeira. Foto: Bruna Cassila / MAB
Balsa em que Simone permaneceu durante três meses com as cheias do Rio Madeira. Foto: Bruna Cassila / MAB

Durante esses períodos de isolamento causados pelas cheias, o acesso a serviços básicos como educação, saúde e comércios é interrompido. O deslocamento torna-se restrito e as famílias permanecem em estruturas flutuantes, monitorando a movimentação da água e os riscos associados à fauna local e à segurança das crianças. Registros de cheias significativas também ocorreram em 2018, no início de 2024 e 2025, esta última com duração de cerca de quatro meses.

A seca histórica de 2024 e a crise hídrica

Recentemente, o cenário de inundações transformou-se em períodos de seca extrema. Em 2023 e 2024, a redução do volume do Rio Madeira atingiu níveis ditos pelos moradores como sem precedentes na memória local, sendo uma das mais severas desde 1967. A seca inviabilizou a pesca regular, uma vez que a navegação e a reprodução das espécies foram comprometidas pelo baixo nível das águas. Além do impacto econômico, a comunidade enfrentou dificuldades no abastecimento doméstico, na lavagem de roupas e na higiene básica. 

Já em Porto Velho (RO), a seca extrema fez com que o nível do rio atingisse a marca crítica de apenas 19 centímetros em 11 de outubro de 2024. O cenário alarmante resultou no bloqueio do acesso a comunidades que vivem às margens do rio, além de provocar um forte desabastecimento na região e sérios prejuízos à natureza.

Seca do Rio Madeira em 2024. Foto: Klézi Martins / MAB
Seca do Rio Madeira em 2024. Foto: Klézi Martins / MAB

“A seca deixou sem condições de nada. Foi difícil, a gente que é novo já passou por isso, e as pessoas de mais idade nunca tinham visto. Para nós foi uma surpresa e para eles foi mais ainda. E sobre a água, você ficar ali sem ter um pingo de água para você lavar uma roupa, uma louça. É difícil demais, Deus me livre”, relata.

A ausência de infraestrutura para captação de água, como poços artesianos, aprofundou a crise durante o período em que o rio secou. Em determinados trechos, moradores precisaram atravessar bancos de areia a pé ou carregar embarcações e mantimentos por longas distâncias para viabilizar o trânsito na região. 

Organização comunitária e o papel do MAB

A trajetória de Simone no movimento social teve início por influência de sua sogra, que exercia o papel de liderança na comunidade Brasileira. Após o falecimento dela, Simone passou a atuar na militância local e se integrou ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 

A organização coletiva passou a ser a ferramenta para a busca de recursos emergenciais e para a denúncia da ausência de políticas públicas voltadas aos atingidos pela crise climática e grandes empreendimentos na Bacia do Madeira.

Simone na entrega de cestas básicas promovida pelo MAB em 2024. Foto: Klézi Martins / MAB
Simone na entrega de cestas básicas promovida pelo MAB em 2024. Foto: Klézi Martins / MAB

De acordo com Simone, o apoio do movimento foi fundamental para o fornecimento de água potável e alimentação durante os meses de seca mais severa, suprindo a falta de assistência governamental efetiva. Ela destaca que a participação no MAB proporcionou espaços de formação e diálogo que antes eram inexistentes para os moradores do local.

“Através do MAB, eu já consegui fazer algumas entrevistas, eles nos ensinaram. Eu tinha muita vergonha de falar, e eles me incentivaram, dizendo que eu tenho uma boa liderança. Através deles, hoje a gente tem voz na comunidade”, explica.

Reivindicações e futuro no território

Diante da recorrência de eventos extremos, a comunidade Brasileira luta por medidas preventivas e assistência técnica por parte do poder público, já que o cenário de seca já voltou a se repetir neste ano. 

“O poder público já deveria tentar tomar alguma medida para ajudar. Porque, hoje, lá na comunidade, está secando bastante; onde era para estar cheio, está tudo seco. Pode ser que seja uma seca histórica e pode ser que, no ano que vem, venha cheia em tudo. Então, eu acredito que eles já deveriam estar fazendo isso, prevenindo as comunidades do que pode acontecer.”

Rio Madeira secando em 2026. - Klézi Martins / MAB
Rio Madeira secando em 2026. – Klézi Martins / MAB

Entre as principais demandas da localidade está a transformação do território em uma comunidade flutuante, pois é uma região alagável, já que ter residências altas, ou em palafitas nem sempre resolve. Outra medida importante é ter uma central de monitoramento em tempo real das alterações do Rio Madeira na comunidade, como também inserir a régua no rio, para que os moradores consigam antecipar principalmente as medidas de emergência.

Mesmo diante das transformações ambientais e das dificuldades logísticas impostas pelo isolamento, Simone reafirma o vínculo com o território e a intenção de permanecer na comunidade. Para ela, a continuidade da vida na beira do rio depende da capacidade de organização dos moradores e do reconhecimento de seus direitos como população ribeirinha atingida.

“Sobre o rio, é minha paixão, minha alegria. Se você está estressado, vai para ali e o estresse acaba. É o nosso alívio, graças a Deus. Meus filhos são apaixonados por aquele rio. Quando eu falo que vou pescar, eles dizem que vão comigo. Então, a gente vai, joga uma linha na água, joga um caniço e, ao puxar um peixe, ver a alegria deles me contagia; é muito gratificante. Nós, sem aquele rio, não somos nada. Então, aquilo para nós, para os meus filhos, é o nosso futuro, é a nossa vida, é tudo ali. Dali eu não saio, dali ninguém me tira”, conclui Simone.


*Esta matéria integra a série Atingidos do Brasil, que reúne perfis de pessoas atingidas em diferentes territórios do país. As informações apresentadas nesta reportagem também podem ser ouvidas no episódio abaixo.