MAB e ADAI realizam oficinas de manejo de sementes e produção de bioinsumos em Rondônia
Projeto “Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia” promove oficinas em cinco estados com apoio do Fundo Amazônia/BNDES
Publicado 12/06/2026 - Actualizado 12/06/2026

Entre os dias 26 e 30 de maio de 2026, a capital rondoniense sediou o 2º Encontro de Capacitação Técnica do projeto ‘Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia’. Implementada pela Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (ADAI) em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a atividade reuniu equipes técnicas, militantes e beneficiários de cinco estados (Mato Grosso, Pará, Tocantins, Rondônia e Amapá) para um momento de formação, avaliação e organização do projeto.
Nos dias 26 e 27 de maio, o foco esteve na capacitação de manejo de sementes nativas da Amazônia. A atividade foi ministrada pela Gerente de Sementes, Aline Smychniuk, e pela Analista Socioambiental, Joana Gomes, ambas da Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé) — ONG rondoniense que integra a Rede de Sementes da Bioeconomia Amazônica (RESEBA), composta por mais de 888 coletores indígenas, quilombolas, extrativistas e produtores rurais.
A formação foi dividida em duas etapas essenciais. A primeira, de cunho teórico, abordou a importância das sementes, as formas de dispersão, a escolha de matrizes, o armazenamento, a catalogação, o planejamento sazonal e o mapeamento, visando garantir o rastreamento florestal. Já a segunda etapa consistiu em uma atividade prática de campo realizada na Reserva Ambiental do Reassentamento Santa Rita, território conquistado pela luta do MAB dos atingidos pela UHE de Santo Antônio, onde atualmente é produzido o café Ajuri. No local, os participantes realizaram a coleta e o beneficiamento de sementes de cumaru, angelim-pedra, mulungu-vermelho, copaíba, jatobazinho, babaçu, uxi-coroa e paxiubinha.


Essa prática materializa uma pauta defendida pelo MAB: a urgência de manter a floresta em pé por meio da geração de renda baseada na sociobiodiversidade, contrapondo-se ao avanço do desmatamento causado pelo agronegócio e por grandes projetos de infraestrutura.
Bioinsumos e Soberania Alimentar: rompendo a dependência química
Sob a metodologia do “aprender fazendo”, o educador popular Givanildo Santos (Tatu) coordenou a oficina de produção de bioinsumos. A atividade demonstrou que a produção de alimentos saudáveis não precisa ficar refém dos pacotes químicos e agrotóxicos das multinacionais.
Utilizando recursos disponíveis nos próprios quintais das famílias, como a serrapilheira (folhas e terra em decomposição), microrganismos eficientes (EM) e restos de peixe, os participantes aprenderam a formular: biofertilizantes, fosfito, biopeixe entre outros.



Para o MAB, a massificação dos bioinsumos cumpre um papel político central: garante a autonomia econômica e a soberania alimentar das famílias camponesas, provando ser possível elevar a produtividade sem envenenar a terra ou o prato do povo trabalhador.
Metas e Impacto na Amazônia Legal
O projeto “Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia” é fruto da luta organizada popular e visa beneficiar diretamente mais de 600 famílias em 32 comunidades da Amazônia Legal. Entre suas metas estruturais e resultados previstos estão a implantação de 300 unidades de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), equipadas com sistemas de energia solar e captação de água; o desenvolvimento de 200 projetos complementares voltados ao fortalecimento de agroindústrias comunitárias, hortas, criação de pequenos animais, sistemas agroflorestais e feiras locais; a consolidação de cinco viveiros e o plantio de 200 mil árvores nativas para a restauração florestal. Além da realização de atividades de educação do campo em escolas locais, com foco na conscientização sobre alimentação saudável e defesa ambiental.
Para além das oficinas práticas e do planejamento de metas, o encontro reservou um espaço central e estratégico para debates de conjuntura sobre a crise climática global e o atual modelo econômico. O grupo debateu como os impactos extremos sentidos na Amazônia são reflexos diretos de um sistema capitalista predatório, baseado na privatização da água, no avanço desenfreado do desmatamento e na exploração mercantilista dos bens comuns.
Em 2026, esse cenário ganha contornos ainda mais graves e urgentes com a chegada do fenômeno El Niño. A intensificação das anomalias climáticas têm provocado secas severas e calor extremo na região Norte do Brasil, gerando profundas incertezas sobre o futuro da produção de alimentos e a preservação do bioma.


No entanto, as discussões apontaram que a organização popular se faz ainda mais necessária diante desse cenário de crise. O MAB reforça que, mesmo enfrentando as incertezas impostas pela crise climática e pelas amarras do capitalismo, o povo organizado não recua. O projeto e as formações técnicas demonstram que a saída é continuar lutando, ocupando os territórios com agroecologia e construindo possibilidades reais de seguir vivendo com a natureza, em profunda harmonia e respeito.