MAB fortalece produção sustentável em Rondônia com apoio do Fundo Amazônia/BNDES

Projeto implementado pela Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (ADAI), junto às famílias organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), reafirma a soberania alimentar e a convivência harmônica com a floresta

Equipe técnica, militantes e beneficiários reunidos durante 2º Encontro de Lideranças Locais na comunidade de Maravilha em Porto Velho/RO. Foto: Klézi Martins / MAB
Equipe técnica, militantes e beneficiários reunidos durante 2º Encontro de Lideranças Locais na comunidade de Maravilha em Porto Velho/RO. Foto: Klézi Martins / MAB

A luta organizada das famílias atingidas em Rondônia conquistou um novo e importante capítulo na defesa da floresta e da vida camponesa. Como fruto da mobilização histórica do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o projeto “Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia” retoma e amplia as ações de desenvolvimento popular na região, implementado pela Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (ADAI) e com o apoio do Fundo Amazônia/BNDES.

Essa caminhada não é de hoje. Entre 2017 e 2021, o projeto pioneiro “Uso de Tecnologias Sociais para Redução do Desmatamento” já havia contemplado 30 famílias rondonienses com as unidades de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS). Agora, a iniciativa retorna reformulada e ampliada. Além de dobrar o número de quintais produtivos, o novo projeto potencializa Projetos Complementares e a estruturação de um Viveiro Comunitário, potencializando o impacto na geração de renda e na soberania alimentar.

Diante da urgência em combater a exploração predatória e os efeitos da crise climática, o projeto se consolida como um modelo vivo de sustentabilidade, trabalho associado livre de venenos e convivência harmônica com a Amazônia.

Atualmente em fase final de coleta e organização de documentações, a atuação do projeto no estado abrange os municípios de Porto Velho, Alto Paraíso, Candeias do Jamari e Itapuã do Oeste, beneficiando diretamente 110 famílias atingidas.

A evolução desta nova etapa se traduz em metas mais ambiciosas e completas:

  • 60 Unidades PAIS: Implantação de hortas circulares agroecológicas, equipadas com placas solares e sistemas de captação de água;
  • 30 Projetos Complementares (PCs): Projetos desenhados para fortalecer a agricultura familiar, diversificar a produção local e impulsionar a renda das famílias de acordo com a vocação de cada comunidade;
  • Viveiro Comunitário: Estruturação de um espaço dedicado à produção de mudas de árvores nativas, focado na recuperação ambiental e na valorização da flora amazônica;
  • Capacitações Contínuas: Atividades e formações técnicas voltadas para o estímulo da produção sustentável e gestão solidária.

Tecnologia Social PAIS: o coração da resistência

A Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS) é o pilar central desta transformação. Longe de ser apenas uma técnica, trata-se de uma tecnologia social que reestabelece o metabolismo natural entre o ser humano e a terra. O sistema circular otimiza o uso da água e do solo, integrando a criação de pequenos animais com hortas comunitárias e utilizando a energia solar para a irrigação, o que reduz a dependência de insumos externos.

Em Rondônia, 60 unidades PAIS estão ganhando vida. O município de Candeias do Jamari concentra 35 famílias beneficiárias, distribuídas em territórios de luta e partilha: o Assentamento Flor do Amazonas (17 PAIS), Rancho Alegre (4 PAIS), Pamos (3 PAIS), Distrito de Triunfo (5 PAIS), Linha 45 (4 PAIS) e Linha do Caju (1 PAIS).

Em Porto Velho, 18 famílias constroem essa nova realidade no Setor Chacareiro (5 PAIS), nas comunidades de Betel (4 PAIS), Paulo Leal (2 PAIS), Ramal do Jacu (2 PAIS), Ramal dos Acreanos (3 PAIS) e Ramal do Babaçu (2 PAIS). O projeto estende-se ainda a Itapuã do Oeste (4 unidades) e Alto Paraíso (3 unidades), garantindo que a semente da agroecologia floresça em pontos estratégicos do estado.

Projetos Complementares: Autonomia e Economia Solidária

Fábrica do café Ajurí no Reassentamento Santa Rita em Porto Velho (RO). Foto: Klézi Martins / MAB
Fábrica do café Ajurí no Reassentamento Santa Rita em Porto Velho (RO). Foto: Klézi Martins / MAB

Para que as famílias alcancem autonomia real, o projeto investe no que já vem sendo feito nas comunidades. O objetivo é fortalecer a infraestrutura coletiva e o beneficiamento dos produtos comercializados, tirando dos atravessadores o controle sobre o fruto do trabalho camponês. Ao todo, 30 Projetos Complementares estão em curso na região de Porto Velho e Candeias do Jamari, atuando para impulsionar e dar mais fôlego a cinco frentes principais: agroindústrias, criação de animais, hortas, sistemas agroflorestais (SAFs) e feiras populares.

Em Porto Velho, são 26 iniciativas que ganham um novo impulso:

  • Fábrica de Farinha: Estruturação e compra de equipamentos da produção comunitária na comunidade de Aliança, valorizando a tradição e o sustento de 10 famílias;
  • Cadeia do Café: Ampliação do trabalho na Fábrica de Café Ajurí, no Reassentamento Santa Rita, além de apoio à criação de galinhas e o cuidado com as plantações de café (SAFs), integrando o sustento à preservação da floresta;
  • Beneficiamento de Frutas: Otimização do trabalho das mulheres e dos jovens nas comunidades de Betel, Terra Firme e no Distrito de São Carlos com a chegada das novas despolpadeiras, potencializando a colheita das frutas e a produção de polpas, dando mais vida ao que a terra já produz;
  • Mel e Coletividade: Apoio direto à produção de mel no Distrito de Calama e entrega de novos maquinários para o processamento de macaxeira e banana na comunidade de Brasileira, garantindo mais agilidade ao trabalho dos produtores.

Ao mesmo tempo, em Candeias do Jamari, os quatro projetos complementares chegam para fortalecer as feiras locais e fornecer insumos e mudas para as agroflorestas. O foco é garantir que o trabalhador e a trabalhadora rurais tenham espaços para vender seus produtos diretamente para quem mora na cidade, fortalecendo a economia solidária e a troca justa entre o campo e a cidade.

Viveiro: Cultivando o Amanhã

A cura e a recuperação da biodiversidade amazônica ganham um reforço fundamental no Assentamento Flor do Amazonas, onde 20 companheiras e companheiros dedicam-se mutuamente à estruturação de um viveiro comunitário. Este espaço é a base para a produção de mudas de espécies nativas, que irão alimentar os Sistemas Agroflorestais da região, curando a terra outrora degradada pela lógica do latifúndio.

Princípios Emancipatórios e Horizonte de Lutas

O projeto vai muito além de cumprir metas no papel ou apenas produzir comida. As ideias que guiam a ação apontam para uma transformação profunda na realidade local, buscando construir um modo de vida que não coloque o lucro acima da vida e que respeite a natureza.

Na prática, isso se traduz no fortalecimento do trabalho coletivo em mutirões, na erradicação dos agrotóxicos na mesa dos trabalhadores e na superação do modelo de monocultura, historicamente responsável pela expulsão das pessoas do campo. O horizonte defendido pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) envolve a transição para o uso de tecnologias limpas, como a energia solar, direcionadas para o bem comum.

Com a consolidação dessas ações no dia a dia, as comunidades que no passado sofreram com os impactos das grandes obras transformam-se em territórios de liberdade, união e fartura.

As famílias atingidas provam que o respeito à natureza caminha de mãos dadas com a dignidade do povo e que a verdadeira proteção da Amazônia só acontece com as pessoas firmes e seguras na sua terra, mantendo a floresta de pé, o fruto do trabalho repartido e as trabalhadoras e trabalhadores livres.

Sobre o Projeto

O projeto “Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia” é realizado pela Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (ADAI), em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e outras organizações populares, com financiamento do Fundo Amazônia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

As principais ações do projeto incluem:

  • Implantação de 300 unidades de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), com geração de energia solar e captação de água;
  • Implementação de 200 projetos complementares, orientados sob cinco eixos: agroindústrias comunitárias, produção de hortaliças, criação de pequenos animais, agroflorestas e feiras comunitárias;
  • Implantação de cinco viveiros de mudas de árvores nativas;
  • Plantio de 200 mil árvores nativas da região;
  • Capacitação das famílias atingidas para produção de mudas de árvores nativas, verduras, legumes e criação de animais para venda ou fabricação de produtos derivados desses plantios e;
  • Realização de atividades para estimular a produção sustentável, alimentação saudável e a preservação das florestas nas escolas localizadas nas regiões atendidas, beneficiando mais 600 famílias de 32 comunidades atingidas dos estados do Amapá, Pará, Tocantins, Rondônia e Mato Grosso.

O projeto é mais uma conquista fruto da luta e organização do Movimento dos Atingidos por Barragens em toda região da Amazônia.

Defender a Amazônia é defender a Vida!