Em Piauí Poço Dantas, comunidade de Itinga (MG), a vida de Paloma é atravessada pela mineração da Sigma, que trouxe violações, danos ambientais e isolamento ao território. Ainda assim, ela segue firme na luta por direitos e liberdade.
Publicado 10/06/2026

Paloma Pessoa Souza é uma mulher de 30 anos, de sorriso leve e uma força que aprendeu no cotidiano com a terra. Casada e mãe de um menino de 13 anos, ela nasceu e cresceu na comunidade de Piauí Poço Dantas, zona rural do município de Itinga, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Desde muito jovem, aprendeu com a mãe o cuidado com a terra e cresceu entre hortas de milho, feijão e hortaliças, que garantiam o sustento da família e lhe davam também certa independência. A comunidade era marcada por uma rotina tranquila, onde as crianças brincavam livremente e famílias circulavam entre os espaços sem restrições.
Essa forma de vida começou a se alterar há cerca de quatro anos, quando a mineradora Sigma Lithium se instalou na região com a promessa de empregos, desenvolvimento e renda. Para Paloma, no entanto, o que chegou realmente não foi o progresso anunciado, mas a poeira que passou a se espalhar pelas casas, quintais e plantações, alterando lentamente a relação das famílias com o território.
A chegada da mineradora Sigma
Com a chegada da mineradora, essa relação com a terra começou a se desfazer aos poucos, até se tornar inviável. Segundo Paloma, a poeira da mineração inviabilizou o plantio e as plantas começaram a morrer.
“Eu trabalhava aqui na terra nossa, cultivava, plantava… mas hoje a gente não tá fazendo isso mais por conta da poeira. Essa poeira é muito tóxica, é química. As coisas não vão pra frente. O nosso cultivo ficou meio morto aqui”, afirma.
Sem a produção agrícola, Paloma também perdeu a base econômica que sustentava sua autonomia. O trabalho na terra deixou de ser possibilidade, e a vida passou a ser reorganizada em meio à insegurança e à dependência.


A limitação do direito de ir e vir
Mas a mudança mais profunda, segundo ela, não está apenas na produção agrícola, e sim na forma como o território passou a ser controlado. A mineradora se instalou na única estrada de acesso à sua região e desde então, cerca de quatro famílias precisam passar dentro da mina para se deslocar para outras regiões e para a cidade mais próxima, Araçuaí, a cerca de 30km de distância. Assim, para sair de casa, é preciso atravessar a área do empreendimento, esperar a circulação de caminhões e máquinas pesadas e se adaptar ao ritmo imposto pela operação. É por esse mesmo caminho que passa o transporte escolar do filho, transformando o deslocamento diário em uma experiência de risco e tensão constante.
“Eu tô presa. Eu passo dentro da mina. O transporte escolar passa lá com meu menino. Isso me deixa preocupada, é uma sensação de medo e pânico o tempo inteiro”, conta.
O deslocamento diário passou a depender do ritmo da empresa, tornando a rotina imprevisível e, muitas vezes, demorada. Em alguns momentos, moradores precisam aguardar longos períodos até conseguir atravessar o trecho.
Soma-se a isso o barulho constante de máquinas, caminhões e explosões, que se tornaram parte do cotidiano. Para Paloma, o impacto mais profundo não é apenas o que se vê ou se escuta, mas aquilo que se perde: o descanso. “Você não tem aquele sono profundo que descansa”, resume.
Além do isolamento físico, há também um controle sobre a circulação de pessoas. Visitas precisam ser autorizadas e, em alguns casos, moradores precisam buscar convidados na portaria da mineradora. Organizações e autoridades também já enfrentaram dificuldades de acesso ao território, segundo relata. Esse controle cotidiano, para Paloma, se traduz em uma forma de isolamento social que atravessa a vida da comunidade e reorganiza suas relações mais básicas.
Infância e medos cotidianos
O impacto da mineração também atravessa a infância do filho. Além da poeira e do barulho, há o medo constante do deslocamento dentro da área da empresa, onde caminhões e máquinas dividem espaço com o transporte escolar.
“A qualidade de vida nem se compara. Eles não têm um bom sono, não têm liberdade. Saúde nem se fala, porque conviver com uma poeira química dessas…” diz.
Paloma relembra ainda um episódio que marcou profundamente sua família, quando o filho tinha cerca de 11 anos. Em um dia em que marido e filho precisavam atravessar a estrada, um funcionário da empresa fez um gesto de ameaça, simulando estar armado. A cena deixou a criança em estado de choque. “Meu filho ficou uma semana em choque. Ele não queria passar lá de jeito nenhum”, conta. O episódio se tornou um marco da sensação de insegurança vivida pela família. “Ele tentou intimidar e conseguiu, porque meu filho ficou assustado”, afirma.
Também relata episódios de abordagens policiais usadas para constranger moradores durante a circulação na estrada. Ainda assim, reforça que a comunidade não busca confronto. “A gente não tá aqui pra brigar com ninguém. A gente só quer ser respeitado”, afirma.
Progresso para quem?
Ao longo da conversa, Paloma também questiona o discurso de “progresso” associado à mineração no Vale do Jequitinhonha. Para ela, a promessa de desenvolvimento não se confirma na vida de quem vive no território. Ela observa que os benefícios econômicos não chegam às famílias atingidas, enquanto os impactos permanecem concentrados na comunidade. “Se fosse progresso, os primeiros beneficiados seriam os que moram aqui”, diz.
“Progresso a que custo? A custa de quem? Porque olha o tanto de vida que está sendo prejudicada. Você vê uma comunidade inteira sofrer e ainda falam em progresso?”, questiona.
Apesar das perdas e das mudanças profundas em sua vida, ela afirma que a comunidade segue buscando força na organização coletiva. A aproximação com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) foi fundamental nesse processo.
“Graças a Deus o pessoal se uniu. As vozes agora estão sendo ouvidas e o MAB é peça chave disso”, afirma.
A audiência pública realizada na Câmara Municipal de Araçuaí, no dia 13 de maio, voltada à análise dos impactos da mineração, foi um dos momentos mais significativos para ela, por possibilitar que sua experiência fosse levada a um espaço público de escuta. “Foi muito importante, porque eu pude ser ouvida. Minha comunidade pôde ser ouvida”, relata.
Mesmo com todas as dificuldades, Paloma reafirma a vontade de seguir na luta. Para ela, a organização coletiva e o apoio do MAB têm sido fundamentais para enfrentar as dificuldades e manter viva a esperança de que o território possa voltar a ser um lugar de tranquilidade e liberdade.
*Esta matéria integra a série Atingidos do Brasil, que reúne perfis de pessoas atingidas em diferentes territórios do país. As informações apresentadas nesta reportagem também podem ser ouvidas no episódio abaixo, em que Paloma Pessoa compartilha reflexões e denúncias sobre a sua experiência e de sua comunidade diante da mineração.