Ativistas brasileiros da flotilha retornam e reafirmam solidariedade ao povo palestino
Integrantes da Global Sumud Flotilla chegaram ao Brasil; MAB reafirma a solidariedade entre povos atingidos pela violência do capital
Publicado 25/05/2026 - Actualizado 25/05/2026

“Não podemos naturalizar que a ajuda humanitária seja crime”. Essa é a ideia que resume o espírito da recepção realizada neste domingo (24), para os ativistas brasileiros da Global Sumud Flotilla, que retornaram ao Brasil após participarem da missão humanitária rumo à Faixa de Gaza. Entre os integrantes recebidos estava a militante do Beatriz Moreira, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do Movimiento de Afectados por Represas (MAR), que desembarcou reafirmando a continuidade da luta em defesa do povo palestino e denunciando as violências vividas durante a missão.
A chegada dos ativistas foi marcada pelo carinho, solidariedade e reafirmação do internacionalismo popular, construído historicamente pelo MAB e pelo Movimento Internacional dos Atingidos por Barragens, Crimes Socioambientais e Crise Climática. A missão humanitária expressa um compromisso ético e político construído ao longo de décadas de organização popular.

Para o MAB, a solidariedade internacionalista não é um gesto abstrato, mas um princípio construído nas próprias experiências de sofrimento e resistência dos povos atingidos. A integrante da coordenação nacional do MAB, Soniamara Maranho, afirmou que os atingidos por barragens convivem historicamente com cenários de devastação semelhantes aos impostos hoje ao povo palestino
“O MAB e o MAR construíram, durante suas lutas, um dos princípios mais importantes, que é o princípio da solidariedade internacionalista. Nós defendemos e construímos a paz, a democracia e a soberania. Cada povo tem o direito de decidir sobre a construção do seu país e nós precisamos ser solidários a isso”, afirmou.
A palavra Sumud, que dá nome à flotilha, carrega um significado histórico profundamente enraizado na resistência palestina. Mais do que resistência armada, Sumud significa permanecer, continuar vivo. Sustentar a dignidade coletiva, mesmo diante do cerco, da ocupação e do extermínio. É uma ética da permanência e da recusa ao desaparecimento.
Quando a guerra transforma povos inteiros em populações descartáveis
É na dimensão concreta da violência que o MAB estabelece a conexão entre Gaza e os territórios atingidos por barragens, mineração predatória e grandes projetos energéticos no Brasil. Em diferentes regiões do país, famílias inteiras convivem com remoções forçadas, militarização dos territórios, destruição ambiental e ruptura completa de seus modos de vida.
Em Mariana e Brumadinho (MG), comunidades foram soterradas pela lama da mineração. Em Altamira (PA), após Belo Monte, bairros inteiros desapareceram sob a pressão imobiliária, a violência urbana e a expulsão das populações ribeirinhas. Em diversos territórios atingidos por barragens, a promessa de desenvolvimento chegou acompanhada de perseguição política, destruição dos rios, insegurança alimentar e desagregação social. “Os nossos territórios são todos destruídos. As empresas chegam com violência e destroem tudo. Esse é nosso cenário de guerra”, afirma Soniamara.
Na Palestina, essa lógica de devastação assume hoje uma dimensão extrema. Gaza tornou-se um território submetido a bombardeios permanentes, deslocamentos forçados, fome em massa e colapso completo da infraestrutura civil. Hospitais foram destruídos ou cercados. Escolas transformadas em abrigos improvisados passaram a ser alvo de ataques. Famílias vivem entre escombros, sem acesso regular à água potável, medicamentos ou energia elétrica.
Dados compartilhados pelos integrantes da Global Sumud Flotilla apontam que mais de 17 mil crianças palestinas foram mortas desde o início da ofensiva israelense sobre Gaza. Outras 12 mil enfrentam fome severa. Há milhares de crianças amputadas, muitas sem acesso a anestesia ou tratamento adequado, em um território onde o sistema de saúde opera em colapso quase absoluto.
As marcas da guerra ultrapassam os números da morte. Segundo os relatos dos ativistas da flotilha, envolvidos na causa palestina, crianças palestinas estão perdendo a capacidade de falar. O trauma permanente, o medo dos drones e dos bombardeios e a convivência cotidiana com cadáveres, mutilações e deslocamentos forçados produziram um fenômeno descrito por profissionais de saúde como “silêncio traumático”. Meninos e meninas passam dias inteiros sem conseguir se comunicar, transformando o silêncio em mecanismo de autopreservação diante da violência contínua.
As denúncias também incluem execuções de civis, violência sexual contra mulheres palestinas, desaparecimentos forçados e detenções sem informação às famílias. Dados mencionados pelos ativistas apontam que mais de 4 mil palestinos desapareceram após serem presos por Israel.

Enquanto isso, a ajuda humanitária continua sendo bloqueada ou atacada. Comboios com alimentos e medicamentos são impedidos de entrar em Gaza, aprofundando uma crise que organismos internacionais já classificam como catástrofe humanitária. Foi justamente contra essa naturalização da fome e da morte que a Global Sumud Flotilla se organizou.
Essa dimensão ética e política da resistência aparece também nas reflexões do filósofo palestino Rodrigo Karmy, que identifica a Palestina como uma espécie de laboratório extremo das formas contemporâneas de dominação. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, Karmy afirma que o mundo vive um processo de palestinização das formas de violência política e econômica, em que populações inteiras passam a ser tratadas como descartáveis em nome da disputa por territórios, recursos naturais e controle geopolítico.
Para o MAB, essa reflexão ajuda a compreender por que a luta internacionalista não é secundária, mas parte da própria defesa da vida. Os mesmos interesses econômicos que avançam sobre rios, territórios indígenas, comunidades camponesas e periferias urbanas são também aqueles que sustentam guerras, bloqueios e regimes de exceção ao redor do mundo. Água, energia, petróleo, mineração e controle territorial aparecem no centro dessas disputas.
Foi por isso que a militante Beatriz e os demais integrantes brasileiros embarcaram na flotilha humanitária. E retornaram ao Brasil reafirmando que a solidariedade entre os povos seguirá sendo uma tarefa urgente diante de um mundo que tenta naturalizar o massacre, a fome e a destruição como parte inevitável da política internacional. “A Bia chegou bem e continua muito convicta de que precisamos seguir a luta em defesa do povo palestino”, conta Soniamara.
Diante de um contexto em que guerras, cercos, fome e deslocamentos forçados voltam a marcar a realidade de milhões de pessoas, o movimento reafirma que a solidariedade internacionalista permanece como uma escolha política e ética fundamental. Não apenas para denunciar a barbárie, mas para afirmar que nenhum povo deve lutar sozinho.