“Cada chuvinha a gente já fica aflito”: o pós-enchente permanente em Eldorado do Sul

Dois anos após a maior tragédia climática do RS, moradores afirmam viver entre traumas, moradias precárias e medo constante de novas enchentes

Cidade de Eldorado teve quase 100% do seu território atingido pela enchente. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
Cidade de Eldorado teve quase 100% do seu território atingido pela enchente. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

“Eu era boa da cabeça. Depois da enchente, eu fiquei acelerada (…) Todo ano eu perco tudo. A água dá em cima da janela”. A realidade de Débora Luciane de Azevedo Cruz atravessa a rotina de milhares de moradores de Eldorado do Sul, um dos municípios mais devastados pela enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Hoje, as famílias atingidas que retornaram para seus bairros, ainda sentem a necessidade de políticas públicas, em especial o concerto dos diques e um auxílio para reforma das moradias que foram abaladas pela cheia. Do total de 39.556 habitantes, cerca de 32 mil precisaram deixar suas casas às pressas durante a enchente.  

Moradora de Eldorado do Sul há sete anos, Débora afirma que convive com enchentes desde 2015. Segundo ela, a cheia de novembro de 2023 já havia destruído praticamente tudo o que possuía. Meses depois, a água voltou ainda mais forte. “Aí veio a de 2024 e levou o resto que eu tinha reconseguido”, relata. “Todo ano, aqui eu perco, porque a água dá em cima da janela”. 

Ela vive com o marido, os dois filhos e o irmão em uma residência considerada inabitável por avaliação técnica pela Defesa Civil. Mesmo assim, ficou de fora do Compra Assistida, programa voltado à aquisição de moradias para famílias atingidas. “Casas que não tiveram uma rachadura ganharam. A minha foi dada como inabitável. Eu tenho os papéis”.

Segundo Débora, a prefeitura realizou corretamente o cadastro e a família chegou a acessar o aluguel social. O problema, afirma a moradora, é que faltam imóveis disponíveis para locação em Eldorado do Sul e os pagamentos do aluguel social frequentemente atrasam.

Solidariedade na reconstrução

Ao lembrar da enchente de 2024, Débora descreve cenas marcadas pelo desespero. Quando saiu de casa a água cobria apenas metade da roda do carro. Pouco tempo depois, já não era mais possível circular pela rua. “Eu tirei minha TV, meus cachorros, as crianças e voltei pra pegar mais algumas coisas que tive que carregar no colo até a entrada da rua.” Ela relata que o marido precisou resgatar um vizinho com deficiência porque os agentes consideravam perigoso entrar na residência. 

Primeiro, a família tentou se abrigar em um posto de gasolina onde Débora trabalhava. “Nós estávamos em 14 pessoas abrigadas lá no posto, mas a água nos alcançou. Subimos a BR, o viaduto caiu e ficamos sem poder ir pra Porto Alegre”. A única saída da atingida veio de um colega de trabalho que morava em Guaíba. “Ele falou: “se tiver 30 pessoas tu vai também”. E nós fomos”. A família ficou 31 dias fora de casa.

As perdas materiais foram totais. Entre os objetos destruídos pela enchente, estava uma televisão de 55 polegadas que, segundo ela, representava um sonho antigo. Apesar de ter recebido o auxílio emergencial, considera os valores insuficientes diante do tamanho das perdas.

A sensação de abandono aparece repetidamente nas falas dos moradores. Débora afirma que, enquanto a população se mobilizava para salvar vidas, o poder público falhava em responder à dimensão da tragédia. “Aqui em Eldorado foi povo pelo povo. Se não fosse o povo, muita gente tava morta.”

No aguardo pela atuação do Estado

A implantação de um sistema de contenção de cheias em Eldorado do Sul é debatida há mais de 20 anos, devido à vulnerabilidade da cidade, localizada praticamente ao nível das águas do Jacuí. Além da destruição causada pela enchente, moradores criticam a lentidão das obras de prevenção, discussão que se arrasta há mais de duas décadas na região. Segundo reportagens da imprensa, o projeto do dique Eldorado do Sul–Delta do Jacuí teve orçamento inicialmente estimado em R$ 531 milhões, com recursos federais previstos por meio do Novo PAC.

A Defesa Civil afirma que o projeto foi recalculado após a enchente de 2024, para suportar volumes extremos de chuva semelhantes aos registrados no desastre climático. Atualmente, o sistema está em fase de anteprojeto. 

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur), o projeto inclui duas casas de bombas de drenagem, redes de macrodrenagem, canais de descarga, drenos coletores e um dique de 8,6 quilômetros de extensão, que poderá atingir até seis metros de altura em determinados trechos. A estimativa do governo é que as obras sejam iniciadas em 2027. O sistema deverá abranger a região norte de Eldorado do Sul, com início e término nas rodovias que cercam o município.

Durante reunião com representantes do governo federal, realizada em 07 de maio, o governador Eduardo Leite formalizou o pedido para que a União autorize a complementação dos recursos destinados ao Sistema de Proteção contra Cheias (SPCC) de Eldorado do Sul. Conforme revisão técnica concluída em abril deste ano, o valor atualizado do projeto passou para R$ 1,148 bilhão.

Inicialmente calculada em cerca de R$ 531 milhões no âmbito do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs/Firece), a obra teve aumento de custos após alterações técnicas consideradas necessárias para ampliar a segurança do sistema diante de eventos climáticos extremos. Entre as mudanças estão a elevação da cota dos diques, a inclusão de novas estruturas e adequações no sistema de drenagem.

Possibilidade de novas enchentes também impede muitas famílias de reconstruírem completamente suas casas ou comprar novos móveis. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
Possibilidade de novas enchentes também impede muitas famílias de reconstruírem completamente suas casas ou comprar novos móveis. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

Segundo o governador, a complementação solicitada seria possível porque os rendimentos financeiros dos R$ 6,5 bilhões, originalmente destinados ao fundo, elevaram o montante disponível para mais de R$ 7,6 bilhões, valor que, conforme o Estado, seria suficiente para cobrir a diferença sem comprometer o planejamento geral das demais obras previstas.

Débora diz não acreditar que os diques resolvam definitivamente o problema. “Eu sou leiga no assunto, mas eu acho que o dique não é a solução”, afirma. “Se botarem um dique aqui, vai acontecer que nem na Mathias Velho, vai estourar e vai matar meio mundo”.

Segundo ela, a própria configuração do município torna a situação mais complexa. “Eldorado é toda água”, diz. “A água vai vir de tudo que é lado”. Ela também critica a limpeza seletiva de bueiros em alguns bairros da cidade. De acordo com a moradora, equipes realizavam hidrojateamento em determinadas ruas, enquanto outras regiões permaneciam sem manutenção. “Nós somos esquecidos. Pra pagar IPTU, luz e água nós servimos. Quando a gente precisa, a gente tá esquecido”.

Outra preocupação é o acúmulo de entulhos deixados por conta das casas demolidas após a enchente. Débora teme que madeiras e restos de construções sejam carregados pela água em futuras cheias.

Enquanto moradores aguardam há décadas pela obra do dique, Eldorado do Sul também passou a ser alvo de megaprojetos privados voltados à área de tecnologia, como a instalação de datacenters da Scala Data Centers, anunciado pelo governador Eduardo Leite, em novembro de 2024. Durante os debates sobre o empreendimento, a advogada Marina Dermann, da Consultoria do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e integrante da Comissão de Terra e Água, chamou atenção para o contexto climático do município, um dos mais atingidos pelas enchentes de 2024. “O projeto avança sem estabelecer uma relação clara com a reconstrução da cidade, com a adaptação climática e com a proteção dos direitos da população atingida”, afirmou.

A empresa anunciou a criação da “Scala AI City”, um campus de datacenters voltado à inteligência artificial em Eldorado do Sul. Segundo a companhia, o investimento inicial previsto é de R$ 3 bilhões, com capacidade projetada de 1.800 MW, podendo chegar a 5.000 MW até 2033. O projeto prevê uso de energia renovável e sistemas de resfriamento considerados sustentáveis. A iniciativa de instalação de datacenters motivou a criação de uma subcomissão na Assembleia Legislativa para discutir os impactos econômicos, ambientais e tecnológicos da iniciativa. O colegiado é conduzido pelo deputado estadual Matheus Gomes (PSOL).

Gabriela e Cristiane, militantes do MAB, tem auxiliado atingidos e atingidas pela enchente. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

Integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Eldorado do Sul, Cristiane Fernandes Chagas e Gabriela Silva da Cruz afirmam que o medo faz parte da rotina. “Qualquer chuvinha as ruas ficam alagadas”, diz Cristiane, moradora do bairro Cidade Verde desde 2004. “A gente vive na aflição”. Segundo a atingida, bairros inteiros foram destruídos pela força da água, especialmente áreas com moradias de madeira. “Teve casas que foram parar no meio da rua. Casas viraram de cabeça pra baixo”.

Gabriela, mora há pouco tempo em Eldorado do Sul. Antes, vivia na região das ilhas, em Porto Alegre. Durante a enchente, precisou retirar a mãe cadeirante de casa em meio à correria. “Eu pedia ajuda e ninguém ajudava a tirar minha mãe da casa”.

As duas também criticam os critérios utilizados na compra assistida. Segundo elas, muitas famílias com imóveis severamente comprometidos ficaram de fora do programa.

Cristiane explica que cerca de 2,5 mil pessoas se inscreveram no programa em Eldorado do Sul, mas aproximadamente mil seguem sem solução definitiva. Parte delas deverá ser encaminhada para pequenas moradias construídas pela prefeitura. “Tem gente que precisa e não sai. E tem gente que não precisa e tá saindo”.

Casas abandonadas convivem com moradias habitadas. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
Casas abandonadas convivem com moradias habitadas. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

“Cada chuvinha a gente já fica aflito”

Além das dificuldades habitacionais, moradores denunciam problemas na drenagem urbana, acúmulo de areia no rio e limpeza insuficiente de bueiros. Segundo eles, a cidade permanece vulnerável. “Agora, no 1º de maio, a água já tava quase no degrau da casa da minha mãe”, relata Gabriela. “Qualquer chuvinha a gente já fica aflito”.

Cristiane enfatiza que o medo permanente passou a fazer parte da vida cotidiana dos moradores. “A gente pira. Qualquer chuvinha, qualquer coisa, a gente já fica tudo em alerta”. Ela conta que a reconstrução da vida após a enchente aconteceu quase exclusivamente com esforço próprio. “Eu só ganhei os benefícios do governo, que foi os R$ 5.100 mil e os R$ 2.500. Tudo fui eu que conquistei de novo; o pouco que eu conquistei”.

Segundo ela, a insegurança diante da possibilidade de novas enchentes também impede muitas famílias de reconstruírem completamente suas casas ou comprar novos móveis. “Foi um guarda-roupa, uma cozinha e deu. Porque eu não consigo comprar mais nada. E nem me animo a comprar, porque se vier previsão de nova enchente, eu vou comprar pra quê? Botar fora?”.

O receio de novas enchentes mudou o cenário. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
O receio de novas enchentes mudou o cenário. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

Moradora da região das Ilhas dos Marinheiros antes da enchente, Noêmia Rodrigues da Cruz também carrega as marcas deixadas pelo desastre climático. Na época da enchente, ela vivia com outras duas pessoas, entre elas uma neta recém-nascida. A imagem da água subindo, enquanto carregava a criança no colo, permanece viva na memória. “Eu tinha uma netinha recém-nascida no colo. A água batendo até aqui”, relata, apontando para a altura do peito. “Eu botando ela em cima da minha cabeça pra não pegar água suja”.

Noêmia afirma que a enchente agravou problemas de saúde e deixou marcas emocionais profundas. “Eu tenho diabetes e fiquei em trauma por causa da enchente”, conta. “Estou fazendo tratamento médico”.

A atingida enfrenta dificuldades para conseguir trabalho e manter o aluguel da casa onde vive atualmente. “Serviço tá complicado. A gente nunca consegue serviço, nunca consegue nada”. Ela conta que para garantir sua renda trabalha com reciclagem. “Eu junto latinha da rua, cato pet na rua. Não tenho vergonha de dizer. Minha vida é assim”. Apesar das dificuldades, Noêmia afirma que segue buscando respostas do poder público. Segundo ela, o diálogo com os órgãos responsáveis se resume à orientação para continuar esperando. De acordo com Noêmia, o medo constante de novas cheias passou a fazer parte da rotina.

Hoje, morando de aluguel próximo ao bairro Centro Novo, ela afirma que tenta reconstruir a vida enquanto aguarda uma moradia definitiva, por meio dos programas habitacionais voltados às famílias atingidas. “Eu tô esperando minha casinha”, diz.

Mesmo diante das perdas e da insegurança, Noêmia diz continuar desejando um futuro mais digno para as famílias atingidas. “Uma vida boa pra todo mundo. Uma casa melhor, colégio pros filhos da gente”, afirma. “A gente precisa de uma vida melhor pra todo mundo”.

Ações do estado na região 

Segundo o governo do Estado, Eldorado do Sul deverá receber 464 moradias definitivas destinadas às famílias atingidas pela enchente histórica de 2024. As obras começaram este ano e o município também recebeu 105 moradias provisórias. A ordem de serviço para o início das novas unidades habitacionais foi assinada no dia 27 de abril pelo governador Eduardo Leite, no mesmo loteamento onde outras 64 casas estão em construção. Durante a agenda, a comitiva estadual vistoriou o andamento das obras.

De acordo com o Executivo estadual, foram investidos R$ 47,6 milhões na aquisição da área, já urbanizada, e outros R$ 65,8 milhões serão destinados à construção das moradias. A previsão do governo é concluir todo o loteamento até o final de outubro deste ano.

Além desse empreendimento, o Estado afirma que também prepara outros dois terrenos para fins habitacionais em Eldorado do Sul. Um deles, pertencente ao município, deverá receber investimento de R$ 20,1 milhões em infraestrutura. Outro, localizado no bairro Progresso e de propriedade estadual, contará com aporte de R$ 30 milhões. Somadas, as iniciativas elevam para R$ 166 milhões o total de investimentos previstos em políticas habitacionais no município.