Entre casas abandonadas e medo de nova enchente, moradores de Canoas (RS) ainda tentam se reconstruir

Atingidos pelo rompimento dos diques relatam dificuldades para reformar moradias, acesso precário à saúde e insegurança

Em bairros como Mathias Velho, muitas casas seguem abandonadas. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

Moradora do bairro Harmonia, Jurema Gomes da Conceição, com 70 anos, carrega lembranças profundas da enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. “Pra mim, isso não é enchente. Enchente vem devagarinho. Essa veio de uma vez”. Cidade vizinha de Porto Alegre, e uma das mais impactadas pela tragédia, Canoas teve mais de 180 mil moradores – de uma população de cerca de 347 mil habitantes – obrigados a deixar suas casas. 

A reportagem percorreu bairros atingidos, como Harmonia e Mathias Velho, e ouviu moradores que ainda enfrentam dificuldades para reconstruir suas vidas. Nas comunidades, a paisagem segue marcada por imóveis abandonados, placas de venda e famílias que tentam reconstruir, pouco a pouco, aquilo que perderam. Além do lento processo de reconstrução, os moradores também convivem com o agravamento de problemas de saúde.

Conceição foi uma das últimas pessoas a sair da região quando as águas subiram em 2024. “Quando eu saí daqui e cheguei na esquina, eu me travei”. Segundo ela, a neta e o sobrinho precisaram segurá-la para que conseguisse continuar caminhando. “A água vinha com correnteza. Eu queria achar a calçada e não conseguia”.

Também perdeu móveis e pertences. Parte do que possui hoje veio de doações feitas por uma das filhas, que mora em Santa Catarina, e por vizinhos da região. “Essa mesa aí foi doada. A cama um vizinho me deu”. Para reformar a casa, precisou fazer empréstimos. “Eu tive que pegar os troquinhos”. Hoje acumula dívidas. “Já tô no SPC”. Ela critica a falta de apoio público para recuperação das moradias. “O que falta aqui é ajuda pra reforma”.

Conceição conta que muitos moradores deixaram o bairro após a enchente. “A maioria foi embora”. Durante a caminhada pela região, a reportagem encontrou imóveis abandonados e diversas placas de venda. Questionada sobre o que espera do futuro, responde de forma simples: “Melhoras”.

Para o futuro, Conceição diz que espera “melhoras”. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
Para o futuro, Conceição diz que espera “melhoras”. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

O lento processo da reconstrução 

Moradora do bairro Harmonia há cerca de 20 anos, Mairi Inverniz, de 65 anos, afirma que ainda não consegue falar sobre a enchente sem reviver a dor daqueles dias. Ao relembrar daquele maio de 2024, ela conta que decidiu sair de casa ainda na sexta-feira, antes da água invadir completamente a região. “Quando eu saí daqui, era umas três e meia da tarde, e a água já estava ali. Já estava borbulhando para chegar. Mas eu não acreditei que ia encher muito”.

Naquele momento, a atingida estava com o esposo e a neta. A família foi primeiro para a casa da mãe dela, mas precisou deixar o local no dia seguinte após novos alertas. Depois, acabaram em um abrigo improvisado em frente ao Instituto Federal. “Nós ficamos acampados lá na frente. Quando abriram o Instituto Federal, nós fomos os primeiros a entrar (…) Eu não consigo lembrar muito, porque é muito triste. Se tu começa a lembrar, tu enlouquece”.

Maria só conseguiu voltar para casa sete meses depois. Durante esse período, ficou abrigada na casa da nora, no bairro Niterói, e retornava eventualmente para tentar limpar o imóvel junto da neta. “Graças a Deus que a limpeza não precisei fazer sozinha. Foi uma turma de amigos que tirou o grosso”. Depois disso, ela tentou recuperar a casa da forma que conseguiu. “Eu e minha neta tapeamos. Pegamos uma tinta e tapeamos”. As marcas da enchente permanecem visíveis na casa. “Aquela porta ali rachou o pilar. Ela não fechava. Ficou sete meses só encostada”. Segundo Maria, até hoje, partes da residência seguem comprometidas. “Eu não consegui fazer mais nada”.

Além da destruição da casa, a enchente agravou drasticamente a situação de saúde do marido, que hoje está acamado, em decorrência do Alzheimer. Ela relata que precisou correr atrás de cama hospitalar, cadeira de rodas e cadeira de banho. “Graças a Deus que eu consegui. Fui pedindo, pedindo”. Mesmo assim, afirma que o cotidiano segue extremamente difícil. “Ele (marido) toma muita medicação. O valor dos remédios, tu não consegue nada, por conta do valor dos medicamentos (…) Eu não consegui me equilibrar ainda. Vai demorar muito.”

Medo de nova enchente persiste

A possibilidade de novas enchentes também provoca medo constante. A moradora afirma que acompanha com preocupação as notícias sobre chuvas, e critica a situação dos diques e da drenagem na cidade. “Agora mesmo eu tava olhando uma reportagem (de TV) da Rio Branco. O banheiro da mulher tava cheio d’água e nem tava chovendo”.

Segundo Mairi Inverniz, os bueiros seguem entupidos. Ela conta que chegou a limpar sozinha a frente da casa, apesar dos problemas nos joelhos e na coluna. “Eu tava com o mato dessa altura”. Ao mexer no bueiro, encontrou terra acumulada e vegetação crescendo dentro da estrutura. “Quando eu olhei pro bueiro, tava cheinho de terra”. Segundo a atingida, servidores da prefeitura chegaram a passar pelo local, mas disseram que não poderiam resolver o problema.

“Tem dias que eu tenho vontade de largar tudo, sair rua fora”, desabafa Mairi Inverniz. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
“Tem dias que eu tenho vontade de largar tudo, sair rua fora”, desabafa Mairi Inverniz. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

Cuidado com a mente

“A saúde mental é a pior”, afirma a moradora. De acordo com ela, a fila mais longa que enfrentou nesse período de dois anos foi pelo acesso ao acompanhamento psicológico no posto de saúde.  Ela afirma que o sistema de saúde piorou muito depois da enchente. “Não tem agente de saúde nos postos”. Também relata falta de medicamentos e materiais básicos. O marido possui escaras e necessita de cuidados constantes e “não existe material”.

A atingida deixou o emprego para cuidar integralmente do companheiro, que além do Alzheimer, convive com sequelas de AVC. “Eu abandonei tudo. Não faço mais nada (…) Eu tô com a minha mente abalada”. Atualmente faz uso de medicação para depressão. “Tem dias que eu tenho vontade de largar tudo, sair rua fora (…) Não sobrou nada”. Como forma de cuidar um pouco mais de si e garantir uma renda, hoje ela vende roupas no brechó que montou em frente à própria casa.

Casas destruídas e reconstrução lenta

Morador do bairro Harmonia há 42 anos, Tabajara de Camargo Lima, 67 anos, vive hoje apenas com a companheira, Silvia, em uma casa parcialmente reformada. As marcas da enchente seguem espalhadas pelas paredes e também nos fundos do terreno, onde as casas das filhas permanecem destruídas. “As casas lá do fundo estão totalmente destruídas. Ali não tem solução. É até pra desmanchar aquilo ali. Se a gente for arrumar, vai gastar muito dinheiro”, conta.

Ele afirma que a principal dificuldade enfrentada pelas famílias é a falta de apoio público para reformas. “A gente esperava mais dos governos, que ajudassem mais financeiramente para poder fazer as reformas.”

Segundo Lima, a família recebeu apenas o auxílio do governo federal de R$ 5,1 mil. “O resto foi a gente arrumando com os nossos próprios recursos”. Na residência, as obras acontecem lentamente. “A gente mexeu agora na parte elétrica, arrumaram pra mim”. A intenção agora é concluir o interior da casa antes de tentar recuperar a parte externa. “Primeiro arrumar toda a casa por dentro., depois começar a arrumar por fora”.

Mesmo assim, o medo permanece. “A gente tem um certo receio que ocorra de novo”, afirma. Ele também questiona a situação dos diques e das obras de contenção. “Não sei como é que estão esses diques aí também, se realmente fizeram o que tinha que ser feito”. Para Lima, Canoas precisaria de uma estrutura mais ampla de proteção. “Tem que fazer um cinturão de diques, porque essa parte toda aqui é baixa”.

A casa onde moravam as filhas de Tabajara ainda segue com as marcas da enchente. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
A casa onde moravam as filhas de Tabajara ainda segue com as marcas da enchente. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

“O povo não conseguiu voltar”

No bairro Mathias Velho, uma das regiões mais atingidas da cidade, Maria de Lourdes da Silva Afonso, de 67 anos, mora em frente ao dique há 35 anos. Caminhando pelas ruas do bairro, ela aponta sucessivas casas abandonadas. “A cada três casas, tem uma abandonada”, relata. “O povo não conseguiu voltar.”

Segundo ela, muitos moradores com idade avançada seguem sem condições de reconstruir suas residências. “Os idosos que vivem de salário não têm como limpar a casa, como arrumar a casa deles”. Afonso afirma que diversas famílias seguem vivendo de aluguel social ou na casa de parentes. “Hoje aqui, amanhã ali”. Para ela, a situação é “terrível”.

A moradora lembra que, antes do rompimento do dique, os vizinhos ouviam alertas sobre a subida da água, mas ninguém imaginava a dimensão da tragédia. “A gente não acreditava numa água nessa proporção”. Na noite do rompimento do dique, ela havia levado os netos para uma casa de segundo piso na esquina da rua. “Eu vim abrir pra largar os cachorros”. Foi nesse momento que viu o dique romper em frente à própria casa. “Quando eu cheguei, estourou o dique bem na frente da minha casa”.

Maria de Lourdes conta que saiu correndo com três crianças pequenas, uma delas com pouco mais de um ano de idade. Ela não conseguiu salvar nenhum pertence. “A gente saiu com a roupa do corpo. As crianças sem mamadeira, sem nada”. Segundo ela, o resgate aconteceu em caminhões-baú improvisados. Mesmo dois anos depois, a casa segue inacabada. “Até hoje eu não consegui arrumar minhas tomadas, pintar por dentro”. De acordo com ela, os custos dispararam após a tragédia. “A mão de obra ficou muito mais cara”.

A atingida critica ainda a política de compra assistida oferecida para algumas famílias atingidas. Para ela, os valores não correspondem à realidade dos moradores do bairro. “Eles querem dar R$ 180 mil numa terra de 700 metros. Eu não vou dar meus 700 metros por R$ 180 mil”. Ela também questiona a oferta de apartamentos para famílias acostumadas a viver em casas. “Te dão apartamento e depois tu tem condomínio pra pagar”. Segundo ela, alguns moradores aceitaram apartamentos e acabaram retornando para áreas de risco após não conseguirem arcar com os custos. 

Com sentimento de insegurança, Maria de Lourdes, que mora de frente para uma casa de bombas, revela não ter visto mais os trabalhadores que faziam os reparos de ampliação do dique. 

Maria de Lourdes mora em frente ao dique há mais de 30 anos. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
Maria de Lourdes mora em frente ao dique há mais de 30 anos. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

Casas vazias e informações desencontradas

Uma das residências visitadas e abandonada pertence à mãe de Alexandra da Silva Medeiros. A casa de madeira foi interditada após a enchente e permanece vazia. “Ela boiou”, explica Medeiros. “Saiu de cima dos pilares”.

Criada no bairro desde os dois anos de idade, Alexandra conta que saiu de casa ainda na sexta-feira à noite, antes da água subir. Horas depois, recebeu uma ligação da vizinha avisando que a enchente já havia tomado a rua.

Ela afirma que a Defesa Civil classificou a casa como interditada, mas a família nunca recebeu uma solução definitiva de moradia. “O que a gente ganhou foi os R$ 5,1 mil”. Além disso, recebeu um cartão do Devolve ICMS (programa criado no RS, em 2021, para combater a regressividade tributária existente na tributação sobre o consumo, especificadamente em relação ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS) para compra de itens básicos. Pra reconstrução mesmo, nada”. Medeiros vive atualmente de aluguel social e aguarda definição sobre a compra assistida. “Tô na esperança”.

Segundo ela, as informações fornecidas pelos órgãos públicos são desencontradas. “Eles não dizem nada com nada.” A mãe dela chegou a receber aluguel social por um período, mas o benefício foi cortado após viajar temporariamente para ajudar uma amiga em Balneário Pinhal. “Eles entenderam que ela não estava mais morando aqui”. Mesmo apresentando contrato de aluguel, o benefício não foi retomado.

Hoje, Alexandra diz viver em constante insegurança. “Quando acaba o aluguel social, começa toda aquela burocracia de novo”. Caso o contrato de aluguel precise ser alterado, a família corre o risco de perder o benefício temporariamente. “A gente fica meio boiando”, resume.

Alexandra da Silva Medeiros (esquerda), sua irmã e mãe. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB
Alexandra da Silva Medeiros (esquerda), sua irmã e mãe. Foto: Maria Eduarda Leal / MAB

“O MAB dá voz pra esse pessoal que perdeu tudo”

Integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Canoas, Aretuza Moraes Santos também mora em uma das áreas atingidas. Ela conta que entrou para o movimento durante o período de limpeza das casas após a enchente.

“Eu entrei pegando as marmitas que o MAB fornecia pra gente, enquanto a gente limpava e organizava nossas casas”. Depois disso, passou a atuar na cozinha solidária organizada pelo movimento e hoje acompanha cerca de 470 famílias atingidas. “O MAB ajuda, dá voz pra esse pessoal que perdeu tudo.”

Moradora do bairro Harmonia, Aretuza avalia que Canoas foi uma das cidades mais abandonadas no processo de reconstrução. “A gente viu que veio dinheiro de todos os lados, mas Canoas eu acho que não chegou nessa parte ainda”.

Ela perdeu duas casas durante a enchente: a da mãe e a própria residência, onde mantinha um pequeno ateliê de costura. Além das perdas materiais, a enchente interrompeu o tratamento de câncer da mãe, descoberto antes da enchente. Ela conta que, durante a inundação, os tratamentos de quimioterapia e radioterapia precisaram ser suspensos.

Hoje, a atingida avalia que a saúde pública se tornou um dos principais problemas enfrentados pela população atingida. “Canoas foi abandonada”. Ela cita a falta de medicamentos nos postos, rotatividade de profissionais e problemas estruturais no sistema de atendimento. “A cada dois, três meses os médicos vão embora”.

Também critica a situação do Hospital de Pronto Socorro e das bombas de drenagem da cidade. “Segundo informações que a população tem, as bombas estão paradas”. Na avaliação dela, os auxílios pagos após a enchente foram insuficientes para a reconstrução das moradias. “Todo mundo achou que os R$5,1 mil davam pra reformar a casa. Mas não dá”.

Com os recursos recebidos pela mãe e pelo marido, a família conseguiu fazer apenas reparos mínimos em uma das casas. “Hoje eu durmo na minha peça (cômodo) onde era a minha cozinha”. Ela afirma que a prioridade foi recuperar a casa da mãe, uma residência pré-fabricada que segue cedendo. “A Defesa Civil disse que ainda estava habitável. Hoje a gente vê que não”.

Para Santos, Canoas precisaria de uma política específica de reconstrução e reforma das moradias.
“É uma das coisas que eu luto muito com o MAB, porque parte da população ainda não voltou por não ter essa ajuda”.

Hoje, dois anos após a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, famílias atingidas de Canoas ainda convivem diariamente com os impactos da enchente de maio de 2024. Naquele ano, 185 pessoas morreram e outras 23 seguem desaparecidas em todo o estado. Mais de 700 mil pessoas foram atingidas em suas residências, sendo 77.712 resgatadas, 81.170 desabrigadas e 581.638 desalojadas.