Exposição de Arpilleras no Rio Grande do Sul aponta caminhos de resistência frente à crise climática

Uma exposição fotográfica também compõem a mostra, que fica em cartaz até o dia 26 de junho na reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

A abertura aconteceu no saguão da reitoria da UFRGS, com a participação dos atingidos, de representantes da universidade e outros parceiros. Foto: Jorge Leão / BdF
A abertura aconteceu no saguão da reitoria da UFRGS, com a participação dos atingidos, de representantes da universidade e outros parceiros. Foto: Jorge Leão / BdF

Entre as muitas formas de contar uma história, quem narra as que são escritas nas Arpilleras são as mãos inquietas de mulheres atingidas por barragens e pela crise climática no Brasil. Com os muitos fios de sua realidade – tem aqueles de cor mais vibrante pelas alegrias da vida e outros mais acinzentados pelos sofrimentos – elas bordam na juta a luta que travam a cada dia em seus territórios.

Na exposição Arpilleras: Memória e resistência na crise climática, 20 peças produzidas pelas mulheres de todo o Brasil denunciam as realidades das populações atingidas por enchentes, secas, granizos, fortes ventos e por tantos outros efeitos das mudanças do clima. Enquanto o mundo debate políticas ambientais e busca soluções que não se mostram efetivas, são elas que enfrentam na pele os piores efeitos de um planeta em colapso.

“Se os homens contassem essa história – porque eu não sei se contariam – tenho certeza que não seria de forma tão intensa. As mulheres viveram isso na pele, porque eram elas que estavam na linha de frente da enchente. Elas foram as mais atingidas e elas que sofreram com as suas famílias todas as consequências dessa tragédia”, aponta Suelen Fagundes, integrante da coordenação do MAB na Região Metropolitana de Porto Alegre e uma das curadoras da exposição.

A iniciativa, que marca os dois anos da grande enchente de 2024 no estado, é viabilizada através da parceria entre o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Durante a cerimônia de abertura da exposição, na manhã do último sábado (25), a reitora da UFRGS, professora Marcia Barbosa, destacou que é muito importante que a instituição esteja vinculada com os movimentos sociais e aberta à população:

“A reitoria e a universidade são de toda a comunidade. Não somos mais aquela universidade fechada na academia. A UFRGS se tornou uma universidade que dialoga e trabalha em conjunto com a comunidade e a exposição de Arpilleras é uma forma da comunidade conversar com a universidade. Um espaço democrático para visitação e de memória sobre o que vivemos em 2024”, afirmou a reitora.

A exposição conta com 20 Arpilleras: nove gaúchas, duas do Distrito Federal, duas de São Paulo, duas do Piauí, uma da Bahia, duas do Pará e duas das mulheres atingidas da Amazônia. Já na mostra fotográfica, os 16 registros apresentam os efeitos da crise climática vivenciados nas enchentes no Rio Grande do Sul, nos deslizamentos em São Sebastião (SP) e Petrópolis (RJ) e na seca na Amazônia, com fotos da fumaça e da estiagem do Rio Madeira, em Porto Velho (RO). 

Lembrar para construir outro futuro

O tempo passou rápido, mas não o suficiente para curar as dores das lembranças de quem ainda aguarda por reparação. Foto: Victória Holzbach / MAB
O tempo passou rápido, mas não o suficiente para curar as dores das lembranças de quem ainda aguarda por reparação. Foto: Victória Holzbach / MAB

No Rio Grande do Sul, não é difícil para grande parte da população lembrar onde e como estava em maio de 2024. E o mesmo vale para milhares de atingidos do Brasil e do mundo, que veem suas vidas mudarem completamente em um evento extremo da crise climática.

A recordação não depende de registros físicos, mas a exposição, aponta Alexania Rossatto, da coordenação nacional do MAB, “faz memória dos dois anos que se passaram, da grande enchente de 2024 que assolou de forma muito brutal o Rio Grande do Sul”. Durante a abertura, ela alertou que “este tempo passou rápido, mas nem tanto, porque a gente ainda vive muitas situações de vulnerabilidade e de vida difícil nos nossos territórios; e essas situações estão expressas nestas Arpilleras, ressaltou Rossatto.

Na exposição, o MAB e a UFRGS somam forças em prol de um alerta fundamental: os sinais mais extremos da crise climática ainda estão por vir e precisamos estar preparados. Alexania declarou: “Já passou muito tempo, e a gente corre o risco de, novamente, ter que enfrentar todo aquele terror. Por isso, essa exposição traz a denúncia da reparação que ainda aguardamos e nos provoca a nos mobilizar; a não ficar só esperando, mas se organizar para lutar pelos nossos direitos, por uma condição digna de vida, de trabalho, de moradia”.

Conforme a reitora Marcia Barbosa, a universidade também assume o compromisso de pressionar para que “o Estado do Rio Grande do Sul esteja preparado para o que vem por aí, porque virão, sim, mais chuvas e momentos de seca. Somente se estivermos prontos e prontas para isso, vamos conseguir ter resiliência”, afirmou a professora.

O alerta chega junto com as previsões de um El niño bastante forte, neste ano, na região gaúcha. O fenômeno climático deve chegar ao Sul do Brasil em breve, e trazer chuvas com mais de 100 mm acima da média. O medo é justificado: em 2024, a ausência de um plano de emergência eficaz fez com que centenas de pessoas precisassem ser resgatadas nos telhados de suas casas, diante do colapso total das medidas de evacuação.