Flotilha internacional desafia bloqueio a Gaza e mobiliza delegações de dezenas de países

Ação civil e não violenta parte de Barcelona com ajuda humanitária e denúncia política; militante do MAB integra delegação

Ato de lançamento reuniu centenas de pessoas em porto de Barcelona. Foto: Global Sumud Flotilla

A missão articulada por uma coalizão internacional de movimentos, ativistas e organizações humanitárias, saiu da Espanha no último domingo (12) como uma ação civil e não violenta para desafiar o bloqueio e guerra israelense e exigir acesso imediato de ajuda humanitária ao território palestino. A dimensão da iniciativa é inédita, com 80 embarcações, mais de mil participantes e delegações de dezenas de países. 

Mais do que uma travessia marítima, a flotilha é uma denúncia política em movimento. A Global Sumud afirma que a missão nasce da constatação de que o custo da inação se tornou insuportável diante do aprofundamento do bloqueio, da destruição da infraestrutura civil e da escalada da crise humanitária em Gaza. No lançamento realizado em Barcelona, a coordenação da missão afirmou que a flotilha não se limita a entregar ajuda, mas “se apresenta como uma intervenção civil direta contra o cerco, a fome forçada, a devastação das condições de vida e a impunidade internacional”. 

Relatório humanitário do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) registrou, no começo de abril, que a população de Gaza segue submetida a grandes restrições de acesso, escassez de insumos, danos à infraestrutura e falta de água potável, inclusive após o comprometimento da linha de energia que abastecia a dessalinização no sul do território, afetando cerca de 500 mil pessoas. O mesmo informe apontou que a falta de gás de cozinha vem comprometendo as cozinhas comunitárias e levando quase metade das famílias a recorrer à queima de lixo para cozinhar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou estar pronta para retomar o apoio às evacuações médicas a partir de 12 de abril, destacando a necessidade de um ambiente seguro, previsível e capaz de permitir assistência humanitária e de saúde em escala, em conformidade com o direito internacional humanitário.

Foi nesse cenário que a flotilha partiu. A saída de Barcelona ocorreu no fim de semana, mas o avanço às águas internacionais foi temporariamente reorganizado por causa das condições do mar. 

A presença do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do Movimiento de Afectados por Represas (MAR) nessa jornada materializa o princípio do internacionalismo popular de que a luta de um povo contra a violência, a expulsão e a desumanização não pode ser tratada como assunto local. A integrante do MAB, Beatriz Moreira de Oliveira, de Belém (PA), compõe a delegação brasileira.

“A gente está acompanhando essa saída da flotilha de Barcelona rumo a Gaza como parte de uma ação de solidariedade internacional diante de uma situação que é inaceitável. Estamos falando de um bloqueio que impede a chegada de ajuda humanitária e afeta diretamente a vida do povo palestino. Por isso, estar aqui não é uma opção individual, é um compromisso coletivo. A solidariedade entre os povos é o que nos move, e a gente segue acreditando e lutando para que a Palestina seja livre”, disse Beatriz na saída da flotilha. 

A inserção do MAB e do MAR na flotilha não é lateral. Ela conecta a defesa da vida em Gaza à luta dos povos atingidos por barragens, crimes socioambientais e pela crise climática em diferentes territórios. A Global Sumud tem insistido que, em Gaza, a destruição não é apenas de casas e hospitais, mas também de sistemas de água, pesca, agricultura e das bases ecológicas que tornam a vida possível. Em um de seus comunicados, a organização afirma que a missão articula ajuda emergencial, reconstrução inicial e pressão jurídica e política internacional. 

A importância da flotilha também está no que ela revela sobre o fracasso das potências e das instituições internacionais. A Anistia Internacional pediu que os Estados garantam a passagem segura da missão, alertando contra a repetição de interceptações ilegais, detenções arbitrárias e abusos contra ativistas civis, como os denunciados após ações anteriores contra embarcações da própria coalizão.