Moradores de Itatiaiuçu seguem em manifestação contra danos causados pela Usiminas

Comunidades denunciam o risco ambiental após transbordamento de dique e a perda do direito de ir e vir com o fechamento de estrada usada historicamente pelos moradores

Comunidades atingidas de Samambaia e Curtume, em Itatiaiuçu (MG), mobilizam-se contra interdição de trecho na região. Foto: Guilherme Haruo
Comunidades atingidas de Samambaia e Curtume, em Itatiaiuçu (MG), mobilizam-se contra interdição de trecho na região. Foto: Guilherme Haruo

Após seis dias de acampamento, moradores das comunidades rurais de Samambaia e Curtume, em Itatiaiuçu, continuam a manifestação nesta terça-feira (03), no trecho chamado de Bicão, na rodovia que liga as comunidades e municípios vizinhos.

O acampamento foi organizado como forma de resistência à interdição de um trecho da estrada pela mineradora Usiminas, e em denúncia aos danos ambientais provocados pelas suas estruturas, como o recente transbordamento de um dique que atingiu o córrego Samambaia.

A manifestação, iniciada no último dia 31, ganhou força no dia seguinte, quando os moradores armaram acampamentos no local, onde permaneceram durante o feriado e o final de semana. As pessoas atingidas se unem em solidariedade para garantir cafés da manhã e outras refeições.

Transbordamento de dique e contaminação de córrego

Na segunda-feira (30), a localidade sofreu com mais um transbordamento de um dique da mineradora, que despejou sedimentos no córrego Samambaia, afluente da represa Rio Manso, responsável pelo abastecimento da região metropolitana de Belo Horizonte.

Os moradores denunciam uma série de danos causados pela empresa, que atualmente não oferece nenhuma medida de mitigação para as comunidades. Segundo relatos, essa não foi a primeira vez que sedimentos da mineradora são despejados no córrego.

As comunidades reclamam também que a Usiminas tem gerado diversos impactos, como a poluição visual com placas de evacuação e a instalação de sirenes, que têm provocado desvalorização dos imóveis. Atualmente, os moradores não têm acesso a nenhuma política reparatória custeada pela empresa.

A Secretaria Estadual de Meio Ambiente visitou o local e fez registros da margem da rodovia, que foi invadida pelo transbordamento da estrutura da barragem.

Interdição da estrada e risco de isolamento das comunidades

Outra denúncia dos moradores é a interdição, por parte da mineradora, de um trecho que liga as comunidades rurais a Itatiaiuçu e a outros municípios da região. Com a medida, anunciada para o dia 1º de abril, o trecho passaria a ser privado, pertencente à Usiminas, com proibição do fluxo de pedestres ou veículos.

O anúncio do fechamento da via foi feito sem consulta às comunidades. O local dá acesso a cidades como Itaúna, Serra Azul, Mateus Leme e Juatuba, estratégico para o fluxo de transporte entre as comunidades.

Na manhã desta segunda-feira (06), as pessoas atingidas fecharam a estrada que dá acesso à mina central da Usiminas. Érica Antunes, moradora da comunidade, explica que a manifestação é pelo direito de ir e vir das comunidades, que podem ficar ilhadas com a interdição.

“A estrada é também nossa! Tanto Usiminas quanto as comunidades usam essas estradas, ela é intermunicipal, ela dá acesso a outros municípios e acesso à BR. A venda dessa estrada foi ilegal, não comunicaram às pessoas da região”, denuncia Érica.

A Polícia Militar foi acionada pela empresa e informou que a Usiminas comprou o terreno em negociação com a prefeitura de Itatiaiuçu, e que, desde o dia 20 de março, pertence à mineradora. Os moradores afirmam que não foram consultados e que não houve proposta de via alternativa. Além disso, destacam que já convivem com rotas de fuga de barragens na região e se sentem ainda mais ameaçados com o fechamento de uma estrada essencial.

Comunidades cobram diálogo e reparação

A principal reivindicação dos atingidos e atingidas é que representantes da Usiminas, com poder de negociação, dialoguem diretamente com a comunidade.

“Estamos em busca dos nossos direitos, da nossa reparação. Como atingidos, queremos ser reconhecidos pelos danos ambientais que foram causados desde 2019, sem solução ou resposta da empresa. Hoje, estamos aqui pela estrada, pelo direito de ir e vir de todos os moradores”, afirmou Érica.

Integrantes da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) estiveram na comunidade em apoio à manifestação. Para Joceli Andriolli, membro da coordenação, trata-se de violações que não podem ser aceitas. O mandato da deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) também esteve presente em apoio aos atingidos.

“Aconteceu um crime ambiental, são metais pesados indo em direção à água que Belo Horizonte capta. Mas a comunidade de Curtume e Samambaia vem vivendo esse dilema há muito tempo. Estão isoladas, porque a estrada pública foi vendida para a empresa, em uma política de ampliação da Usiminas. A comunidade está sofrendo danos que não estão sendo reparados, e fez um simples pedido à empresa: que venham diretores com poder de negociação de fato”, afirmou Joceli.

Diante dos consequentes danos às comunidades, os moradores defendem que a Justiça garanta a aplicação da Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB), para que a população e o meio ambiente sejam devidamente reparados pelo histórico de impactos causados pela Usiminas.

Cinema no acampamento

Com apoio do MAB, no domingo de Páscoa (05), durante o acampamento, as pessoas atingidas exibiram o filme Saneamento Básico. A obra de ficção aborda moradores que tentam resolver um antigo problema de saneamento em uma cidade fictícia: a construção de uma fossa para tratar o esgoto. O momento foi um espaço de diálogo entre as pessoas atingidas que juntou cinema e os problemas reais da comunidade