10 anos de luta, rebeldia e justiça por Berta Cáceres

A luta por justiça avança sobre executores e intermediários, mas ainda enfrenta a impunidade dos mandantes e a estrutura empresarial que sustentou o assassinato de Berta e o crime contra o povo Lenca e o Rio Gualcarque

Berta Cáceres às margens do Rio Gualcarque, símbolo da resistência do povo Lenca. Foto: Goldman Environmental Prizevo
Berta Cáceres às margens do Rio Gualcarque, símbolo da resistência do povo Lenca. Foto: Goldman Environmental Prizevo

Dez anos depois do assassinato de Berta Cáceres, liderança indígena do povo Lenca – em Honduras – e cofundadora do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), a luta por justiça segue como um termômetro do que acontece quando a defesa dos bens comuns como água, rios, territórios e modos de vida enfrenta interesses empresariais e a cumplicidade do Estado. Berta se tornou símbolo global por liderar a resistência contra o projeto hidrelétrico Agua Zarca, que ameaçava o Rio Gualcarque, considerado sagrado pelo povo Lenca, e por denunciar reiteradamente as ameaças que sofria.

Nos últimos anos, parte da engrenagem do crime foi judicializada: executores materiais e integrantes da estrutura empresarial ligada ao projeto foram condenados. Em balanço publicado em abril de 2025, o COPINH detalha três camadas de responsabilidade já identificadas: a estrutura armada que executou o crime, a estrutura empresarial da Desarrollos Energéticos (DESA) e a responsabilidade do Estado hondurenho. Ainda assim, a organização afirma que a justiça segue incompleta, pois falta alcançar plenamente a cadeia de mando superior.

O posicionamento público do COPINH ganha força neste março de 2026. No comunicado que marca os “10 anos de luz, rebeldia e justiça”, a organização afirma que já não há dúvidas sobre quem ordenou o crime e aponta diretamente o poder econômico da família Atala, além da cumplicidade do Estado de Honduras e do financiamento internacional vinculado ao projeto.

A coordenadora geral do COPINH e filha de Berta, Bertha Zúñiga Cáceres, é enfática ao dizer que não resta dúvida do assassinato: “O crime contra Berta foi cometido sob as ordens do poder econômico de Jacobo Atala, José Eduardo Atala, Pedro Atala, Daniela Atala Midence, com a cumplicidade do Estado de Honduras e com o financiamento dos bancos FMO da Holanda e do Banco Centro-Americano de Integração Econômica. A verdade foi esclarecida por um grupo de especialistas internacionais”, disse. 

A declaração reforça que investigações independentes já reconstruíram a cadeia de responsabilidades. O que está em disputa agora é a responsabilização integral dos mandantes. No marco dos 10 anos, o COPINH organiza sua mensagem em quatro palavras que sintetizam o legado político de Berta:

Esperança: Em tempos de crise e guerra, Berta demonstra que é possível enfrentar a opressão e seguir adiante. Sua trajetória reafirma que os povos podem vencer projetos impostos e defender a vida;

Justiça: Especialistas internacionais esclareceram o crime. Agora, a exigência é que o Estado de Honduras deve capturar e julgar os responsáveis intelectuais, especialmente integrantes da família Atala;

Memória: “Berta nos ensinou a não ser um povo submisso, mas um povo que luta por seus direitos”, divulgou a filha, conhecida como Bertita, nas redes do COPHIN. A memória, neste caso, é a continuidade da luta. É manter viva a defesa do Rio Gualcarque e do território Lenca;

Organização: A mensagem dos integrantes do povo Lenca é a de que se “não defendermos nossos direitos e territórios, ninguém o fará por nós. É tempo de nos organizarmos e agir”. A trajetória de Berta é lembrada como parte de uma luta continental das mulheres na defesa de seus territórios e culturas. Sua história ecoa entre comunidades atingidas por barragens no Brasil e em toda a América Latina, onde defensoras e defensores seguem ameaçados por denunciar a lógica predatória de grandes empreendimentos.

Quem ainda falta no banco dos réus?

Para o  Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), a resposta passa por alcançar toda a estrutura de poder que tornou possível o crime. A memória de Berta não é apenas homenagem, é método de luta. É luz e rebeldia organizadas, para que justiça signifique também garantias de não repetição para quem defende rios, florestas e territórios em todo o continente.

Bertha Zúñiga em mobilização do COPINH por justiça e defesa do território. Foto: Divulgação
Bertha Zúñiga em mobilização do COPINH por justiça e defesa do território. Foto: Divulgação

O comunicado do COPINH por ocasião dos 10 anos não apenas reafirma a responsabilidade direta da família Atala Zablah e dos poderes econômicos por trás do assassinato de Berta, mas também convoca os povos mobilizados ao redor do mundo a não permitir que a busca por justiça seja interrompida. O Conselho destaca que a verdade já foi “esclarecida por especialistas internacionais”, e que agora só resta seguir pelo “inexorável caminho da justiça”, exigindo a “captura e julgamento daqueles que, além de ordenar o crime, mantiveram-se impunes e protegidos pelo Estado hondurenho e por instituições financeiras que financiaram o projeto Agua Zarca”.

Mais do que um marco da vida e da luta de Berta, estes 10 anos são também um chamado à unidade e à ação contínua. O legado de Berta não é apenas lembrança, mas estímulo político contra as desigualdades estruturais que alimentam a violência contra defensoras e defensores de direitos territoriais. Como observa a própria Bertita, carregando no seu trabalho a memória e ética de sua mãe, a luta por justiça e reparação transcende fronteiras e precisa seguir ativa em fóruns internacionais, articulando movimentos e denunciando os mecanismos do capital que ainda perpetuam violências semelhantes em outros territórios.