Mulheres atingidas reafirmam a luta por direitos, soberania e paz

Em plenária virtual realizada nesta manhã, atingidas de todo o Brasil lançaram a Jornada de Lutas para denunciar o avanço do fascismo e exigir a regulamentação imediata da PNAB

Plenária nacional reuniu mais de 70 mulheres de 14 estados.
Plenária virtual reuniu mais de 70 mulheres de 14 estados.

As lutas de março iniciam o ano de mobilizações em todo o Brasil. E para as mulheres atingidas o mês é de luta por direitos, soberania e paz, em um cenário em que as ameaças chegam de muitos lados e afetam de forma desigual as mulheres em todo o mundo e, de forma especial, as mulheres brasileiras atingidas por barragens e pela crise climática.

Reunidas em plenária na manhã desta terça-feira (24), cerca de 70 mulheres de todo o Brasil deram início à Jornada de Lutas do Movimento dos Atingidos por Barragens, que acontecerá de 08 a 22 de março em todo o país.

Tatiane Paulino, da coordenação nacional do MAB, abriu a plenária com uma análise de conjuntura, pontuando como a realidade atual de disputa por hegemonia, a crise climática e a opressão do capital chega na vida das mulheres. “A crise que vivemos é uma crise de época e histórica, que ressoa em todo o mundo, mas de formas diferentes”, alertou Tatiane. A profunda crise do capitalismo – que busca quaisquer meios de se reinventar – atinge de forma direta e desigual as mulheres.

“Vemos o avanço da extrema direita no mundo, que traz consigo o fascismo e a face do ódio às mulheres”, afirmou Tatiane, lembrando que o Rio Grande do Sul, onde já foram registrados 17 feminicídios em 2026, é também um dos estados do Brasil onde há mais candidatos que assumem publicamente o fascismo como projeto político. “Em um ano eleitoral, essas violências se acirram ainda mais e nossas mulheres estão expostas a isso. Precisamos fortalecer nossas lutas, avançar na nossa organização coletiva. Sem luta não há emancipação!”, finalizou Tatiane Paulino.

Da guerra à solidariedade

“Por causa da indústria automóvel, o filho de Berta ainda não anda.
Por causa de um offshore no Panamá a batata foi exterminada.
Por causa dos estaleiros de Viana o Joaquim não dorme.
Por causa de uma hidroelétrica ou de uma construtora tínhamos sede,
e Berta Cáceres foi assassinada na sua casa,
ainda março mal começava.

Assim iniciou Ana Priscila Alves, da direção nacional da Marcha Mundial de Mulheres. Com a poesia “Síntese II”, de Judite Canha Fernandes, Ana introduziu sua contribuição na plenária, analisando como o neoliberalismo se materializa na vida das mulheres e de que forma a exploração delas pelo capital gera um esgotamento de seus corpos e suas vidas.

“É necessário que os estados sustentem o capital, o que gera um desmonte da organização do trabalho, afrouxando direitos e relações de trabalho. Isso influencia no trabalho pago, mas também reflete diretamente na vida das mulheres com a precarização da saúde pública, educação, restaurantes populares, cuidado com os idosos. Quando o estado não assegura isso, é o trabalho das mulheres que passa a garantir”, analisou Ana Priscila.

Para ilustrar esse desgaste, Ana citou um dado alarmante: uma pesquisa da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos da América concluiu que 63% das mulheres que passam a vida cuidando de outras pessoas – idosos ou pessoas com deficiência – morrem, pelo menos, quatro antes das pessoas que elas cuidam. Ana também explicou que o avanço da lógica da guerra no mundo todo – e também no Brasil, pelo tarifaço imposto pelos EUA – demanda dos estados o desvio de recursos essenciais de políticas públicas que favorecem o povo, para investir em armamento e segurança.

A companheira citou ainda como a exploração da natureza garante ao capital o lucro extraordinário, e que, em uma ofensiva que avança cada vez mais sobre os territórios, são as mulheres que assumem a defesa e a luta contra a exploração dos bens naturais.

“Precisamos transformar essa realidade pela nossa organização e pela nossa solidariedade, com Cuba, com a Venezuela, com a Palestina, mas também com as outras mulheres. É a força das mulheres que pode ser capaz de garantir essa virada, da lógica de guerra para uma lógica de solidariedade”, concluiu Ana Priscila.

Por direitos, soberania e paz

Em todo o Brasil, as mulheres do MAB se somarão aos atos do 8 de Março, levando a mensagem “Atingidas em luta por direitos, soberania e paz” e intensificando a luta pela regulamentação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB).

Para o mês de março, as mulheres atingidas assinam um Manifesto, juntamente com centenas de movimentos e organizações sociais, com o mote: “Pela vida das mulheres! Contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1”. O documento foi debatido na plenária desta manhã e convoca as mulheres para a luta e os atos em todo Brasil. 

Além disso, os estados presentes na plenária apresentaram o calendário de ações referente ao mês de março, que também é voltado para a luta contra as barragens, pelos rios, pela água e pela vida. Criada em 14 de março, a data foi instituída em 1997 durante o 1º Encontro Internacional dos Atingidos por Barragens, realizado em Curitiba (PR). Este ano, o Movimento dos Atingidos por Barragens tem como pauta principal a regulamentação da PNAB.

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