Moçambique e Brasil fortalecem intercâmbio entre comunidades atingidas por barragens

Durante visita, Latifo Patreque Frichote percorreu territórios do Pará e de Minas Gerais e trocou experiências com comunidades e militantes do MAB sobre as consequências das barragens e a luta por direitos

Latifo durante visita à Minas Gerais. Foto: Comunicação MAB MG

Durante o mês de setembro, o líder comunitário moçambicano Latifo Patreque Frichote esteve no Brasil para conhecer a realidade das populações atingidas por barragens e trocar experiências com comunidades e militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O intercâmbio teve como objetivo aproximar as experiências de organização dos atingidos no Brasil e em Moçambique, fortalecer a solidariedade entre os povos e contribuir para a construção de estratégias comuns de defesa dos direitos das comunidades atingidas por grandes empreendimentos e por desastres climáticos. A agenda incluiu visitas a territórios do Pará e de Minas Gerais, atividades comunitárias e conversas com moradores e lideranças sobre os processos de organização e resistência em diferentes territórios.

Visita ao Pará

Entre os dias 18 e 24 de setembro, o MAB recebeu, no Pará, o companheiro Latifo Patreque Frichote, liderança comunitária de Moçambique atingida pela Barragem de Mphanda Nkuwa, localizada no Rio Zambeze. Latifo realizou uma intensa agenda de intercâmbio político, cultural e de base na Amazônia. A imersão conectou as lutas socioambientais do continente africano com a realidade amazônica, fortalecendo a solidariedade internacionalista em torno da defesa dos bens comuns, da floresta em pé e dos direitos das populações tradicionais e atingidas por grandes projetos.

A programação aliou mobilização política, formação de base e denúncia na Região Metropolitana de Belém e no Baixo Tocantins. Na capital paraense, as agendas incluíram vivências culturais e territoriais na Ilha do Combu, onde a comitiva conheceu a produção local da fábrica Filha do Combu. O espaço, também muito conhecido como a Casa do Chocolate da Dona Nena, produz chocolates artesanais e orgânicos, utilizando o cacau nativo cultivado nos quintais agroflorestais da própria ilha. Ainda em Belém, Latifo visitou o Mercado Ver-o-Peso, a maior feira a céu aberto da América Latina, e a Estação das Docas, um dos principais complexos turísticos da cidade.

Latifo Patreque Frichote (centro), atingido pela Barragem de Mphanda Nkuwa (Moçambique), acompanhado por militantes do MAB durante visita à área de produção agrícola no Quilombo São José de Icatu, em Mocajuba (PA). Foto: Divulgação

No interior do estado, a comitiva percorreu territórios historicamente atingidos por grandes empreendimentos. No município de Mocajuba, o líder moçambicano visitou a Comunidade Quilombola São José de Icatu, um símbolo de ancestralidade, território e resistência negra na Amazônia paraense. Situada na divisa entre Mocajuba e Baião, a comunidade abriga hoje 170 famílias que mantêm vivas as tradições e a defesa da floresta.

Já em Cametá, a comitiva visitou a comunidade Cupuaçu e a Ilha de Mapiraí de Baixo, áreas atingidas de forma contínua pelos impactos ambientais e sociais da Hidrelétrica de Tucuruí. O intercâmbio encerrou-se com visitas às comunidades do Aripijó, onde Latifo pôde vivenciar de perto o cultivo familiar da mandioca para a farinha, a colheita do açaí e as práticas tradicionais de pesca artesanal, reafirmando que a verdadeira justiça climática passa, necessariamente, pela soberania e permanência dos povos em seus territórios.

Troca de experiências com lideranças em Minas Gerais 

Em Minas Gerais, Latifo conheceu de perto territórios marcados pelo rompimento de barragens e pela resistência das populações atingidas. A visita começou no sábado (26) em Barra Longa, onde acompanhou o Primeiro Encontro dos Grupos de Cultura Popular, evento realizado pela Escola Família Agrícola Paulo Freire (EFA) de Acaiaca. Depois, seguiu ao lado de militantes do MAB até Gesteira, território quilombola atingido pelo rompimento da barragem de Fundão, onde conversou com moradores e conheceu a realidade da comunidade.

Para ele, a experiência permitiu conhecer, na prática, uma realidade que até então conhecia apenas por meio dos relatos. Durante as caminhadas, Stephanne Biondo, militante do MAB, também explicou como o movimento se organiza e as atividades realizadas junto às comunidades atingidas.

No domingo (27), a programação começou em Mariana, onde Latifo visitou o museu e conheceu parte da história do município. Na sequência, esteve em Bento Rodrigues Origem, onde conversou com um morador e percorreu a área atingida pelo rompimento da barragem. Durante a caminhada, as placas que sinalizam as rotas de fuga impressionaram Latifo. Stephanne explicou que a sinalização orienta os moradores sobre os caminhos a seguir em caso de uma eventual emergência. Por fim, Latifo conheceu o reassentamento de Bento Rodrigues, também conhecido como Novo Bento Rodrigues.

Em Brumadinho, Latifo esteve no Córrego do Feijão, local do rompimento da barragem que matou 272 pessoas em janeiro de 2019. O Memorial de Brumadinho estava fechado no dia da visita, mas ele percorreu a comunidade e foi até o mirante do bairro, de onde foi possível visualizar três barragens. Acompanhado por Tatiane Rodrigues, integrante da coordenação do MAB em São Joaquim de Bicas, ouviu relatos sobre as buscas pelos corpos e sobre as dificuldades enfrentadas desde o crime.

À noite, em Citrolândia, no município de Betim, Latifo se reuniu com seis lideranças atingidas para uma roda de conversa e troca de experiências. Ele compartilhou aspectos de sua cultura e da realidade vivida em Moçambique. As lideranças, por sua vez, relataram suas experiências de organização e mobilização em busca de direitos e reparação. A conversa evidenciou que, embora os impactos dos grandes empreendimentos apresentem semelhanças, as condições de organização e resistência são diferentes em cada território e que a organização do MAB serve de exemplo para outras realidades.

Para Latifo, a visita aos territórios mineiros também trouxe elementos para compreender os caminhos percorridos pelos atingidos no Brasil.

“O que constatei é uma coisa muito semelhante ao que acontece em Moçambique: as pessoas foram retiradas, receberam promessas, mas nem tudo foi cumprido”, relatou.

A experiência, segundo ele, reforça a necessidade de aproximar as comunidades atingidas de diferentes países e fortalecer uma rede de solidariedade entre povos que enfrentam os impactos das grandes barragens.

“O que posso acrescentar é um pedido para fortalecermos a relação entre o MAB e a Justiça Ambiental, para tentarmos travar este tipo de problema. O que vi aqui no Brasil – em Minas Gerais, em Brumadinho e Bento Rodrigues – mostra que os problemas são exatamente os mesmos de Moçambique, não há diferença. Esta forma de trabalhar do MAB é o que vou tentar implementar na minha comunidade: sensibilizar as pessoas para que tomem a iniciativa e defendam os seus direitos nesta luta”.