Enquanto propostas da direita focam em austeridade e desregulamentação, economista alerta para os riscos de empobrecimento em um país onde quase 70% dos trabalhadores vivem com até dois salários mínimos

Fila "Mutirão de emprego" com dezenas de pessoas. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil
A disputa eleitoral de 2026 também coloca em jogo o futuro dos trabalhadores. O atual cenário reforça a importância de discutir qual projeto econômico pode garantir mais direitos, renda e dignidade para a população. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

O cenário eleitoral de 2026 vem consolidando um choque direto de visões econômicas. De um lado, as candidaturas da direita e extrema-direita unificam seus discursos em torno de uma agenda de “Estado mínimo”, “privatização de tudo”, pautada pelo ajuste fiscal, desvinculação de despesas obrigatórias, redução de impostos para o setor empresarial e uma forte oposição a mudanças nas leis trabalhistas, como o fim da escala 6×1. 

De outro, especialistas apontam que essas medidas podem representar um risco profundo para a redução da desigualdade social no Brasil, ameaçando garantias básicas das populações trabalhadoras e mais vulneráveis.

A vulnerabilidade econômica da população brasileira é retratada de forma contundente pelos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do segundo trimestre de 2026. Segundo o levantamento, quase 70% (69,1%) dos trabalhadores ocupados no Brasil ganham até dois salários mínimos por mês. 

Além disso, 33,2 milhões de trabalhadores recebem exatamente um salário mínimo mensalmente, enquanto 9,4% ganham entre meio e um salário mínimo. Diante dessa realidade de baixa renda, as políticas de austeridade propostas pela direita acendem um alerta.

Para o economista Fábio Sobral, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o projeto econômico liberal/conservador atinge diretamente os pilares de proteção social. Com base nas explicações do especialista e no cruzamento de dados econômicos, destacamos os cinco pontos centrais que estão em disputa nestas eleições e seus potenciais impactos na desigualdade do país.

1. O desmonte das transferências de renda e o impacto no consumo básico

Imagem do cartão do Bolsa Família com suas mãos segurando: uma de criança e outra de adulto. Ambos de pele negra. Foto: Divulgação
Criado há 22 anos, o Bolsa Família é o principal programa federal de transferência de renda do Brasil. Foto: Divulgação

As propostas de enxugamento da máquina pública podem colocar em xeque a ampliação dos programas de transferência de renda. Para Sobral, esses programas vão muito além da assistência imediata: eles garantem a redução da extrema pobreza, aumentam a frequência escolar e diminuem doenças associadas à má nutrição, permitindo a evolução social futura das famílias. 

Sob o ponto de vista macroeconômico, o economista lembra que mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro depende do consumo das famílias. O enfraquecimento dessas políticas retiraria a estabilidade de pequenos negócios e indústrias, deixando a economia brasileira desprotegida contra crises e quedas bruscas na atividade econômica. 

“Um programa de transferência de renda, além dos impactos imediatos, traz resultados futuros. Os impactos imediatos são a redução da pobreza e da extrema pobreza, a ampliação da frequência escolar, a redução dos índices de gravidez na adolescência e a redução de doenças associadas à má alimentação. Os sistemas de transferência de renda permitem estabilizar a economia, regularizar os mercados, impedir quedas bruscas na atividade econômica e, ao mesmo tempo, proporcionar uma recuperação mais rápida no caso de crises econômicas”, diz Sobral.

2. O risco às aposentadorias

Uma das principais bandeiras da extrema-direita para conter o déficit fiscal é a desvinculação do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e das aposentadorias do INSS da política de valorização do salário mínimo. 

Sobral compara essa medida às políticas adotadas durante a Ditadura Militar, que provocaram empobrecimento em larga escala. O economista ressalta que o aumento real do salário mínimo, estendido aos benefícios previdenciários, é responsável por sustentar a economia de pequenos municípios no interior do país. 

“Isso sempre trouxe empobrecimento e uma piora na distribuição de renda do país. Durante o primeiro governo Lula, foi iniciada a recomposição do salário mínimo acima da inflação. Isso gera um ganho. Como a maior parte da economia brasileira depende do consumo, quando as camadas assalariadas ganham mais, o consumo aumenta, a produção aumenta e o Produto Interno Bruto aumenta, o que representa uma barreira às crises econômicas”, destaca o economista.

Cortar esse ganho real significaria secar a circulação de renda nessas regiões, sufocando o comércio local, inviabilizando prefeituras e podendo gerar um novo ciclo de êxodo rural. Sobral aponta que reduzir a renda dessa população é uma manobra para destinar a arrecadação tributária ao pagamento de juros da dívida pública, transferindo riqueza dos mais pobres para o capital financeiro. 

“Reduzir os ganhos da população que recebe benefícios previdenciários significa levar mais dinheiro para esses setores financeiros. Trata-se de uma oposição clara entre os setores financeiros e a população trabalhadora. Quem ficará com os tributos arrecadados? Esse é o grande dilema”, questiona o especialista.

3. O “equilíbrio fiscal” e as consequências do Estado mínimo

Os candidatos da direita defendem a compressão das despesas públicas e o encolhimento do Estado como o único caminho para a confiança do mercado. No entanto, o professor da UFC classifica esse argumento do equilíbrio fiscal via cortes sociais como uma falácia. 

“A proposta de Estado mínimo é profundamente desequilibradora. Fala-se em equilíbrio fiscal, mas isso é uma mentira. Quando os juros e a dívida interna aumentam, sendo que essa dívida cresce não por causa de gastos sociais, mas principalmente porque a taxa de juros paga pelo governo aumenta ano a ano, não há equilíbrio fiscal possível. Essa é uma bomba-relógio que, por mais que se cortem todos os investimentos sociais, acabará explodindo. Isso levará a um colapso das contas públicas e do Estado brasileiro.”

Ele explica que a dívida interna cresce majoritariamente devido às altas taxas de juros determinadas pelo Banco Central e pagas pelo governo, e não por causa dos investimentos sociais. Uma agenda focada exclusivamente em cortes profundos desorganizaria o Estado brasileiro e levaria ao colapso das contas públicas a longo prazo, inviabilizando o desenvolvimento de uma economia popular forte e impedindo que o Brasil concorra estrategicamente no cenário global.

4. Isenções aos mais ricos versus tributação progressiva

O debate tributário opõe a desoneração do setor empresarial e da alta renda, proposta pela direita para supostamente estimular investimentos, à urgência de taxar grandes fortunas e dividendos. 

Sobral refuta a tese da desoneração, baseada em teorias da década de 1970, afirmando que já está provado que os mais ricos não repassam esses ganhos produtivamente para a sociedade. Em vez disso, aplicam o lucro excedente no mercado financeiro. 

“O Estado abre mão de arrecadar tributos sobre as indústrias, elas aumentam sua lucratividade, mas o Estado fica sem arrecadação suficiente para manter suas atividades e programas de longo prazo. Assim, precisa buscar dinheiro emprestado no mercado financeiro, aumentando sua dívida em uma bola de neve. É preciso tributar os mais ricos e as grandes empresas. Com o aumento da arrecadação, direcionam-se recursos para os setores da população que consomem, promovendo o crescimento econômico. Hoje, existem R$ 800 bilhões por ano em isenções para grandes empresas.”

Segundo o economista, a manutenção dessa política regressiva aprofunda a desigualdade, privando o Estado de recursos que poderiam ser aplicados em ciência, saúde, educação, saneamento e transição ecológica, forçando o governo a se endividar ainda mais.

5. A manutenção da escala 6×1 e o freio na qualidade de vida e no emprego

Ato pelo fim da escala 6x1. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil
Ato pelo fim da escala 6×1. Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

Enquanto a direita, exemplificada por figuras políticas como Flávio Bolsonaro, opõe-se ao fim da escala de trabalho 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso), a mudança para modelos como o 5×2 é vista como fundamental para a dinâmica social e econômica. 

Sobral argumenta que a redução da jornada permitiria a absorção de grande parte dos 20% de jovens brasileiros que hoje não estudam nem trabalham. A entrada dessa juventude no mercado formal afastaria a ameaça do tráfico de drogas e traria estabilidade psicossocial. 

“Permitiria que essa população jovem entrasse no mercado de trabalho, passasse a contribuir com o desenvolvimento do país, melhorasse sua qualidade de vida. Portanto, os benefícios são imensos. Além disso, os salários médios da população brasileira e a renda média se elevariam, o que permitiria uma participação maior do consumo no Produto Interno Bruto, a estabilização da economia e a melhoria em todos os aspectos. Sem contar os outros benefícios, como a presença familiar junto aos filhos e filhas, o acompanhamento mais intenso da vida pessoal e uma capacidade maior para usufruir da própria vida”, concluiu o economista.