Nascida e criada na região das ilhas, em Porto Alegre (RS), Keise vivenciou a intensificação das enchentes que culminaram na saída forçada de seu território em 2024
Publicado 12/08/2026

Nascida e criada na Ilha Grande dos Marinheiros, Keise Lopes tem 29 anos e vive hoje na região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foi no arquipélago da Ilha Grande dos Marinheiros, localizado na parte noroeste do Lago Guaíba, que ela viveu durante a infância e a juventude, onde também nasceram seus três filhos, atualmente com 10, 8 e 6 anos.
A trajetória de sua família na região é marcada pelo trabalho do pai, que atuou como zelador de uma sede campestre na ilha por quase duas décadas. Trabalhadora, Keise atuou em diversas funções na Ilha: auxiliar de serviços gerais, manicure, cabeleireira. A partir de 2019 se tornou vendedora de açaí, ocupação que mantinha até ser atingida pela enchente de 2024.
A rotina na Ilha Grande dos Marinheiros era pautada pela proximidade com o rio, o uso das áreas de banho e a convivência entre vizinhos em um ambiente arborizado.
“A gente tinha acesso a áreas de banho. Então, o nosso lazer era muito esse contato no rio. Enfim, a gente não sentia tanto calor porque era um lugar que tinha muita árvore. Tu tinha ali uma infância de diversas brincadeiras na rua; tinha uma certa segurança porque toda a vizinhança se conhecia”, relembra.
Segundo Keise, esse modo de vida passou a sofrer alterações a partir de 2008, com o avanço de construções voltadas a pessoas de maior poder aquisitivo e a progressiva degradação de serviços públicos, como postos de saúde e creches.
O ciclo das enchentes e o trauma de 2024
A experiência com as cheias do Rio Guaíba se intensificou na última década. Keise aponta o ano de 2015 como o marco da primeira inundação que atingiu as residências de sua família de forma atípica. O cenário agravou-se com novas ocorrências em 2019 e 2023, até a cheia histórica de maio de 2024. Naquela ocasião, a elevação do nível da água ocorreu durante a madrugada, impedindo a retirada de pertences e cobrindo, inclusive, casas de dois pavimentos.
“A casa estava toda submersa. A gente saiu e foi uma para cada canto. Está sendo muito difícil ter perdido todos esses vínculos e estar num ambiente onde a gente paga inúmeras contas que a gente não estava acostumada”, afirma.


Após a enchente, ela permaneceu deslocada por seis meses na casa de parentes. O retorno à ilha foi marcado pela constatação de danos estruturais, sua residência foi condenada pela Defesa Civil devido a fissuras, o que a impossibilitou de retomar a moradia no local.
A compra assistida e a fragmentação do território
Diante da inviabilidade de permanência na ilha, Keise ingressou no programa Compra Assistida, vinculado ao Minha Casa, Minha Vida Reconstrução. O processo de transição durou cerca de dois anos, entre o cadastramento e a mudança definitiva para o bairro Floresta, em janeiro de 2026. Para ela, embora o programa tenha oferecido uma solução de moradia, o processo resultou na demolição das casas antigas e na desarticulação dos laços comunitários.
“A gente sente que está perdendo uma parte da nossa identidade, porque ela está sendo destruída. Fica um bairro que parece que não é o teu bairro”, relata.
Além da perda territorial, a militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) destaca o impacto na educação e no desenvolvimento de seus filhos. As constantes interrupções nas aulas devido às cheias geraram déficits de aprendizagem e sofrimento emocional nas crianças, que hoje recebem acompanhamento especializado para lidar com os traumas associados aos eventos climáticos.
“Como lá é uma região que sempre tem muita enchente, a escola sempre é o ponto que acolhe as famílias. A gente fica muito tempo sem aula. O meu filho sofreu bastante para começar a ler, para escrever. A minha filha de oito anos passou por tratamento com a psicopedagoga para investigar se era uma dislexia, mas na verdade era mais o emocional por tudo o que ela tinha passado. Chega na escola e todas as outras crianças estão lendo e eles não. Isso é geral com as crianças daquela região.”
Dois anos depois, pouco mudou, diz ela. “Não teve nada que foi feito, nem apresentado para a população. Na verdade, não existe uma comunicação com a população.” A falta de transparência e participação social nos processos de construção de políticas públicas de prevenção a novos desastres é um ponto levantado por Keise. “Ninguém chega e pergunta o que seria melhor ou de que forma as pessoas podem se abrigar, se acolher”.
A Defesa Civil, segundo ela, colocou um totem emitindo alertas, o que é insuficiente. “Mas a ilha é muito extensa. A gente fica imaginando um idoso que ainda está lá: ele não vai ouvir o totem, ele não vai ver uma mensagem de telefone”.
Já os moradores em situação de vulnerabilidade social que permaneceram nas ilhas não têm acesso a melhores habitações. “Você resolveu ficar, então você arque com as consequências disso. Quem está lá é pobre mesmo, é nascido e criado lá, não tem recurso, não tem escolha. E as demais obras do Rio Grande do Sul não avançam”, critica.
Organização coletiva e a atuação no MAB

A aproximação com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ocorreu no período pós-enchente de 2024, durante as ações de limpeza e assistência emergencial na ilha. O Movimento forneceu alimentação e apoio logístico quando os serviços públicos estavam praticamente ausentes no território. A partir dessa interação, ela passou a integrar os grupos de atingidos e a participar de processos de formação sobre direitos e estratégias de denúncia.
Para Keise, a organização coletiva permitiu que os moradores das ilhas tivessem maior clareza sobre como cobrar ações do Estado e como articular suas reivindicações. Ela define o movimento como um espaço de escuta e fortalecimento para as famílias que enfrentam violações de direitos.
“O MAB é muito importante para nós das ilhas, porque nós já lutávamos contra várias situações, fazíamos protestos, mas não era algo que nos dava uma luta efetiva. A gente começou a ter voz e a ser ouvido depois que começou a se organizar no MAB”, explica.
Vínculo e resistência nas ilhas
Mesmo residindo em outro bairro, Keise mantém a frequência de visitas à Ilha Grande dos Marinheiros, onde ainda possui familiares e atua na organização dos moradores que optaram por permanecer ou que ainda aguardam soluções habitacionais. Ela critica a falta de transparência e de medidas preventivas eficazes por parte do poder público, como a paralisação de obras em diques e a insuficiência dos sistemas de alerta.

A atuação de Keise hoje concentra-se na defesa dos direitos das populações atingidas e na manutenção da memória do território. Para ela, a luta organizada é o caminho para enfrentar a insegurança climática e garantir que as famílias das ilhas não sejam invisibilizadas nos processos de reconstrução da cidade.
“Hoje a gente já sabe na porta de quem bater, de quem cobrar, como cobrar, onde procurar as informações. Tornou-se de extrema importância, uma forte família que faz a gente cruzar uma barreira que era invisível antes”, conclui.
*Esta matéria integra a série Atingidos do Brasil, que reúne perfis de pessoas atingidas em diferentes territórios do país. As informações apresentadas nesta reportagem também podem ser ouvidas no episódio abaixo, em que Keise Lopes compartilha reflexões e denúncias sobre a sua experiência e de sua comunidade diante das enchentes.