No Reassentamento Santa Rita, em Porto Velho (RO), a produção do grão fortalece a organização popular e a soberania alimentar das famílias deslocadas pela UHE Santo Antônio
Publicado 15/07/2026 - Actualizado 15/07/2026

A história das famílias do Reassentamento Santa Rita, em Porto Velho (RO), foi escrita pelo trauma do deslocamento forçado e pela força da reconstrução popular. Hoje, o Café Ajurí, além de um convite ao paladar, é um manifesto de resistência e a materialização das ações concretas do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que transforma a violação de direitos em produção soberana e organização coletiva.
Expulsas de seus lotes no Projeto de Assentamento Joana D’Arc I, II e III, devido ao alagamento provocado pela Usina Hidrelétrica (UHE) Santo Antônio, centenas de pessoas viram seus modos de vida tradicionais, baseados na pesca e no extrativismo, serem submersos pelo modelo energético privatista. Ao serem realocadas no Reassentamento Santa Rita, essas famílias mostraram que não há obstáculo insuperável quando o povo se organiza.




A conquista do Reassentamento Santa Rita não foi uma concessão espontânea do Estado ou da empresa privada, mas o resultado de um intenso processo de mobilização popular. A organização coletiva no MAB foi decisiva para que as famílias acumulassem a força necessária para enfrentar o consórcio de energia e garantir o direito ao reassentamento.
Ainda assim, o desafio após a transferência foi imenso: a nova terra, onde antes funcionava uma fazenda de gado, era considerada improdutiva pelo mercado e necessitava de regularização documental. Essa negligência e a morosidade burocrática institucional do setor elétrico bloquearam o acesso a financiamentos públicos, deixando os agricultores inicialmente desamparados pelo Estado.
“O MAB foi o único meio pelo qual conseguimos apoio. Na política institucional é difícil; nos órgãos públicos havia muitas restrições devido à falta de regularização da terra”, relata Artur Raposo, atingido pela usina e liderança histórica do MAB em Rondônia. Se no Joana D’Arc o Estado falhou em consolidar o assentamento ao longo de três décadas, no Santa Rita os atingidos decidiram que sua identidade não seria definida pela condição de vítimas, mas pela capacidade de se tornarem sujeitos da própria história.
O café como instrumento de reterritorialização e soberania
Enquanto o consórcio privado e o capital enxergavam o reassentamento apenas como uma condicionante ambiental a ser cumprida formalmente, as famílias organizadas no MAB compreenderam o espaço como uma trincheira de luta pela soberania alimentar e territorial.
Como os agricultores não trabalhavam com essa cultura no antigo território, o plantio do café em Santa Rita nasceu como uma estratégia deliberada de reterritorialização e reconstrução produtiva. O projeto foi estruturado a partir da escuta ativa da comunidade: após a chegada ao reassentamento, algumas famílias começaram a produzir o grão de forma isolada, mas pela falta de estrutura para o beneficiamento, ficavam dependentes da exploração de atravessadores.

Com o MAB, o processo passou a ser planejado de forma coletiva, com captação de recursos para a estruturação e a implementação de uma fábrica para beneficiamento do café, com o apoio da ONG austríaca Horizont 3000 e fundos procedentes de Sei So Frei Salzburg, DKA e BMK.
Viabilizar a produção e controlar a cadeia do café na terra reassentada tornou-se uma forma de afirmar que o território pertence, de fato, ao povo, contrapondo o modelo excludente das grandes corporações ao projeto de agricultura camponesa e popular defendido pelo MAB.
Ajurí: a força do mutirão em cada grão
O Café Ajurí é do tipo Robusta Amazônico de excelência, que une as características do solo de Rondônia ao rigor técnico do campesinato organizado. O café encontra-se em processo de transição para a agroecologia. Essa escolha política reafirma o compromisso dos atingidos com a construção de um modelo agrícola que respeite a vida, preserve a Amazônia e enfrente a lógica predatória do agronegócio na região da BR-364.
O nome “Ajurí” vem do tupi Aiu’ri, que significa trabalho coletivo, mutirão. A escolha foi realizada de forma coletiva pelos produtores, com identidade visual desenvolvida pela designer e militante do MAB, Gabrielle Sodré.

O lançamento oficial do Café Ajurí ocorreu em novembro durante a Cúpula dos Povos, em Belém (PA. Desde então, já foram vendidos mais de 300 quilos de café, com retorno direto de mais de R$19.500,00 para as famílias produtoras, o que demonstra a viabilidade econômica da organização popular. Esse resultado conecta o consumidor urbano diretamente com a geopolítica da luta amazônica. Consumir o café produzido pelas famílias do Reassentamento Santa Rita significa apoiar um modelo de desenvolvimento alternativo, que prioriza a vida e a soberania alimentar.