No Paraná, famílias atingidas celebram conquistas que fortalecem a vida no campo
Ato em Chopinzinho reuniu cerca de 600 pessoas para a entrega de projetos do Ministério do Desenvolvimento Agrário voltados às famílias atingidas por barragens e à agricultura familiar
Publicado 04/07/2026 - Actualizado 04/07/2026

“A minha grande preocupação é o desânimo da nossa juventude na pequena agricultura”. A frase de Hélio Meca, atingido do reassentamento Santa Inês, resume um dos maiores desafios vividos hoje pelas comunidades rurais brasileiras. Para ele, garantir condições dignas de produção é também garantir que os jovens permaneçam no campo produzindo alimentos, preservando a natureza e dando continuidade às lutas construídas pelas gerações anteriores.
“Não tem dinheiro que pague ver a juventude alegre, consciente do que está fazendo. O movimento continua em boas mãos. Eles continuam defendendo a vida das pessoas, dos animais, da natureza e produzindo comida”, afirmou o agricultor atingido por barragens durante o Ato Unificado de Entregas realizado nesta quarta-feira (2), no Reassentamento Santa Inês, em Chopinzinho (PR).
Cerca de 600 pessoas participaram da atividade, que reuniu famílias atingidas, cooperativas, movimentos populares, universidades, representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), parlamentares e autoridades locais para celebrar a entrega de equipamentos, mudas, sistemas de irrigação, assistência técnica e novos projetos voltados à agricultura familiar.
Entre as iniciativas estão os programas Da Terra à Mesa – SAFs Biodiversos, Cultivar em Rede, o projeto de transição agroecológica para produção de feijão desenvolvido em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e o anúncio do programa Quintais Produtivos, voltado às mulheres atingidas por barragens. Os projetos contemplam centenas de famílias em diferentes regiões do Paraná com equipamentos, assistência técnica e incentivo à produção agroecológica.




Na prática, o programa Da Terra à Mesa – SAFs Biodiversos fortalece a produção de alimentos por meio da entrega de mudas frutíferas, equipamentos e insumos para implantação de sistemas agroflorestais. O Cultivar em Rede amplia esse apoio com kits de irrigação, motocultivadores e outras ferramentas para diversificar a produção das famílias. Já o projeto de transição agroecológica para produção de feijão, desenvolvido com a UFFS, oferece sementes, insumos e assistência técnica para estimular o cultivo orgânico, enquanto o Quintais Produtivos apoiará mulheres atingidas na implantação de espaços destinados à produção de alimentos, geração de renda e fortalecimento da autonomia econômica.
Para a agricultora Karine Beloni de Oliveira, de 30 anos, moradora da comunidade Cristo Rei, em Porto Barreiro, os equipamentos recebidos representam muito mais do que apoio à produção. Ela e a família vivem da produção de leite e receberam mudas frutíferas e um microtrator que irá facilitar o trabalho diário, mas o maior sonho de Karine não é aumentar a produção a qualquer custo.
“Eu gosto do campo. Já tentei morar na cidade quando fui fazer faculdade, mas não me adaptei. Quero continuar trabalhando na terra e passar essa experiência para minha filha de três anos”, conta. Para ela, acessar políticas públicas significa melhorar a qualidade de vida da família e produzir com mais dignidade. “É uma oportunidade de facilitar o nosso trabalho e viver melhor dentro da agricultura familiar”.

Robson Formica, integrante da coordenação nacional do MAB, lembrou que a luta dos atingidos nunca foi apenas por infraestrutura, mas pelo direito de viver bem. “Construímos esse processo para conquistar uma vida melhor, uma vida com mais dignidade, uma vida em que possamos viver com felicidade. E a luta também é celebração. Celebrar as conquistas faz parte da nossa caminhada”, afirmou.
Robson destacou ainda que o reassentamento e toda a estrutura construída na comunidade são frutos da organização coletiva das famílias atingidas.
“Esse espaço não foi dado. Foi conquistado com muita luta. As melhores experiências do MAB sempre tiveram o protagonismo dos atingidos. Tudo isso foi construído pela capacidade de organização, de reivindicação e de materializar os nossos sonhos”.
Outro momento importante do ato foi o reconhecimento, por parte do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), dos atingidos por barragens como público prioritário das políticas voltadas à agricultura familiar.

Representando o MDA, o secretário de Agricultura Familiar e Agroecologia, Vanderley Ziger, ressaltou que iniciativas como as entregues em Chopinzinho só existem porque foram construídas em diálogo permanente com os movimentos populares.
“Nada disso estaria acontecendo se não fosse a organização dos movimentos sociais. As políticas públicas não nascem sozinhas. Elas são fruto da luta, da organização e da capacidade do povo de apresentar seus projetos e disputar o orçamento público”, afirmou.
Ziger também destacou que os projetos entregues vão além dos equipamentos. “As organizações apresentam aquilo que as famílias realmente precisam. Aqui não estamos entregando apenas máquinas ou mudas. Estamos criando condições para produzir alimentos, fortalecer a agricultura familiar, garantir assistência técnica e melhorar a vida das pessoas”, disse.
Já a representante da Unicafes, Aline Espada, reforçou que cada equipamento entregue representa uma cadeia inteira de transformação. “Uma muda sozinha é apenas uma muda, mas nas mãos de uma família agricultora, com assistência técnica e cooperativismo, ela passa a representar produção de alimentos e chega à mesa do povo brasileiro”, afirmou.
Garantir condições para produzir também é garantir futuro. Um futuro em que mais jovens possam permanecer no campo, produzir alimentos saudáveis e seguir fortalecendo a organização popular construída pelos atingidos por barragens.