Atingidos do Rio Grande do Sul conquistam tecnologias sociais para produção de alimentos e energia

A parceria com a Fundação Banco do Brasil e a Associação Nacional dos Atingidos por Barragens (ANAB) beneficia 600 famílias com placas fotovoltaicas, sistemas termossolares e quintais produtivos

Atingidos acompanham e celebram as instalações das placas fotovoltaicas. Foto: Victória Holzbach / MAB
Atingidos acompanham e celebram as instalações das placas fotovoltaicas. Foto: Victória Holzbach / MAB

Patrícia Dias, atingida pela enchente em Canoas (RS), em maio de 2024, aguarda um alívio no orçamento – cada vez mais apertado – para readequar a casa que ficou totalmente debaixo da água. No bairro vizinho, Daiana Cassia de Almeida relata: “Até 10 ou 20 reais fazem diferença no nosso orçamento. Então, qualquer valor que economizamos ajuda muito. O que sobra a gente pode melhorar a alimentação, as roupas, os cuidados com as crianças e mesmo com a nossa saúde”.

As moradoras de Canoas integram as 600 famílias gaúchas que serão beneficiadas pelo projeto firmado com a Fundação Banco do Brasil, em favor das populações atingidas pelas mudanças climáticas no Estado. A iniciativa prevê a instalação de tecnologias sociais que garantam uma reconstrução adaptada à nova realidade climática: sistemas termossolares, para aquecimento da água; painéis fotovoltaicos, para produção de energia; e quintais produtivos, para o cultivo de alimentos.

Um ato dos atingidos em Canoas (RS) marcou o início das instalações das placas na Região Metropolitana. Foto: Victória Holzbach / MAB
Um ato dos atingidos em Canoas (RS) marcou o início das instalações das placas na Região Metropolitana. Foto: Victória Holzbach / MAB

As primeiras nove placas fotovoltaicas foram instaladas nesta semana, em Canoas e Porto Alegre, inclusive nas casas de Patrícia e Daiana. Segundo elas, esses sistemas devem ajudar a economizar nas despesas mensais da casa e possibilitar que esse dinheiro seja redirecionado a outras necessidades básicas. “Agora eu vou conseguir rebocar a minha casa, colocar a cerâmica, trocar as janelas”, conta Patrícia, que acredita que a economia na conta de luz vai possibilitar o investimento na residência, que ainda aguarda reparos depois dos danos causados pela enchente.

Ainda na região metropolitana, mais 36 placas fotovoltaicas serão instaladas, além de 200 termossolares. Já na região do Alto Uruguai, a previsão é de 45 quintais produtivos, 49 termossolares e mais 30 fotovoltaicas. Na Fronteira Noroeste do RS, serão implantados 130 quintais, 31 termossolares e 20 fotovoltaicas. Por fim, os atingidos do Vale do Taquari terão 25 quintais produtivos, 20 sistemas termossolares – para aquecimento de água – e 5 placas fotovoltaicas.

Os painéis fotovoltaicos transformam a luz do sol diretamente em energia elétrica, que é lançada na rede e gera o abatimento no consumo doméstico da família. Cada sistema produz, em média, 300 kWh/mês, com vida útil estimada de 20 anos. As placas são soluções simples e de baixo custo, que promovem a transição energética, geram redução da conta de luz, proporcionam maior autonomia energética e melhor conforto às famílias beneficiadas, especialmente depois de quase dois anos da enchente que não sai da memória do povo gaúcho:

“A enchente foi um marco histórico negativo nas nossas vidas. Trouxe muitas dores, prejuízos financeiros e ninguém conseguiu se recuperar até agora. A conta da luz, e também as outras, são muito caras, e agora é muito difícil pra gente conseguir se manter. As placas solares são uma grande conquista. Era um sonho que está se transformando em realidade com a nossa luta. Com as coisas cada vez mais caras, a energia fica pesada. Todo final de mês é um peso extra, e por mais que tu te controle, sempre falta dinheiro. Então, com as placas, vai ser uma despesa a menos e vai sobrar para comprar alimentos de melhor qualidade ou medicamentos”, analisa Marli Francisco Kuhn, beneficiada com a placa no bairro Rio Branco, em Canoas.

Mutirão da reconstrução e da transição

Quase dois anos depois da grande enchente que devastou o Rio Grande do Sul e atingiu mais de 700 mil pessoas em suas residências, as famílias gaúchas ainda lutam por reparação. Neste processo, os atingidos organizados se empenham na luta pela garantia de direitos e na busca de uma reconstrução que vá além do que havia antes da enchente.

Leonardo Maggi, da Coordenação Nacional do MAB explica: “Nós queremos reconstruir algo melhor, mais produtivo, mais organizado, mais barato e mais eficiente. E o esforço dessas placas solares, seja fotovoltaica, seja termossolar, representa isso. Por isso, olhamos para este momento como um mutirão para reconstrução e para a transição; não só do ponto de vista energético, mas também uma transição da forma de viver na nossa comunidade, na nossa cidade e com a nossa vizinhança. Uma forma mais organizada, mais cooperada e mais solidária”.

Só a luta garante conquistas, e a articulação dos atingidos pela enchente no Rio Grande do Sul, por meio do MAB, permite, através deste projeto, avançar concretamente rumo à soberania popular energética e alimentar, além de dar mais um passo rumo à reparação pela qual lutamos. Não se trata apenas de reconstruir o que foi perdido, mas de garantir direitos e transformar a injustiça em força coletiva para erguer comunidades preparadas para os desafios climáticos que estão por vir.