Celebração ecumênica reforça o internacionalismo e a luta por rios livres

Nona edição reuniu brasileiros e argentinos em Alecrim (RS), às margens do Rio Uruguai, articulando fé, memória e resistência contra barragens

Pastora Eva Ross durante o momento de pregação na IX Celebração Ecumênica Binacional pelos Rios Livres, em Alecrim (RS). Foto: Comunicação MAB RS
Pastora Eva Ross durante o momento de pregação na IX Celebração Ecumênica Binacional pelos Rios Livres, em Alecrim (RS). Foto: Comunicação MAB RS

No marco do 14 de março, Dia Internacional de Luta Contra as Barragens, pelos Rios, pela Água e pela Vida, centenas de pessoas se reuniram às margens do Rio Uruguai em uma manifestação de fé, luta e resistência do povo atingido. Com o tema “Goteje meu ensinamento como a chuva e o orvalho sobre os campos” (Deuteronômio 32:2) e o lema “Por uma América Latina livre como as correntes límpidas dos nossos rios”, a celebração reuniu mais de 300 participantes de diversos municípios do Rio Grande do Sul e da província de Misiones (Argentina).

A atividade ocorreu na comunidade Barra do Santo Cristo, no município de Alecrim, região Noroeste do Rio Grande do Sul, onde o Rio Uruguai marca a fronteira entre Brasil e Argentina, e fortalece a luta conjunta em defesa de rios livres de barragens. Realizada alternadamente entre os dois países, neste ano a celebração chegou à nona edição. Em 2025, a celebração aconteceu em Colônia Aurora (Misiones), na Argentina.

Mais do que um momento de oração, a celebração se consolida como um ato político construído por movimentos populares, sindicatos, comunidades e igrejas dos dois países. No ano em que o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) completa 35 anos, a abertura foi conduzida por mulheres atingidas organizadas no movimento. Elas trouxeram a memória de lutadoras latino-americanas assassinadas na busca por justiça social e reforçaram o chamado à solidariedade internacionalista entre os povos.

O espaço foi marcado por cartazes com os rostos de Nicinha, Dilma Ferreira, Débora Moraes, Flávia Amboss, Marielle Franco e Berta Cáceres. Além de mensagens de solidariedade internacional: ao povo argentino diante dos retrocessos e retirada de direitos trabalhistas e previdenciários; por Cuba livre e soberana e pelo fim do bloqueio norte-americano; contra o genocídio do povo palestino, por vida, terra e liberdade; contra o saque imperialista às riquezas dos povos; e pela soberania da Venezuela e liberdade de Maduro e Cilia Flores.

Ao longo da celebração, também foram feitas intercessões em nome do companheiro Frei Sérgio Antônio Görgen, valoroso lutador da classe trabalhadora falecido no último dia 03 de fevereiro, e de lideranças importantes que forjaram a luta contra as barragens de Garabi e Panambi, ambas projetadas para o Rio Uruguai.

A nona edição foi organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), pelo Movimiento de Afectados por Represas (MAR), pela Igreja Evangélica da Confissão Luterana do Brasil (IECLB) – Sínodo Noroeste Rio-grandense, Diocese de Santo Ângelo, Iglesia Evangélica Luterana Unida – (IELU), Iglesia Evangélica delícia Rio de la Plata (IERP) e pelo Servicio Evangélico de Diaconia – ActAlianza (SEDI), e contou com a participação de representantes da Mesa Provincial “No A Las Represas” de Misiones, de sindicatos urbanos e rurais, de organizações sociais, religiosas e ambientalistas.

Há mais de 40 anos, a ameaça de construção do Complexo Hidrelétrico Binacional Garabi- Panambi une brasileiros e argentinos na defesa do Rio Uruguai. O projeto, concebido na década de 1970, prevê a inundação de mais de 90 mil hectares – área superior à da usina de Belo Monte -, atingindo mais de 12 mil pessoas em 35 municípios do Brasil e da Argentina, entre o estado do Rio Grande do Sul e as províncias de Corrientes e Misiones. Graças à organização e luta do povo atingido, os estudos encontram-se suspensos por decisão judicial, em vista dos impactos sociais e ambientais, incluindo o Parque Estadual do Turvo e o Salto do Yucumã, localizados no último trecho internacional ainda não barrado do Rio Uruguai.

Pescadora do Rio Uruguai e integrante da coordenação estadual do MAB, Tereza Pessoa destaca que a celebração fortalece a fé e a união entre atingidos dos dois países.

“Nesta nona edição superamos a expectativa de público em relação aos anos anteriores, o que nos enche de alegria, de esperança e de vontade de seguir na luta contra Garabi-Panambi, pela regulamentação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), por direitos, soberania e paz”.

Para Tatiane Paulino, da coordenação do MAR, a realização da celebração no Brasil, no dia 14 de março, ganha ainda mais relevância diante do atual contexto de guerras e da crise climática. Ela afirma que o encontro expressa a luta por paz, soberania dos povos e contra o imperialismo, reforçando a unidade popular e o internacionalismo.

“A celebração ecumênica tem esse objetivo, de unificar povos frente ao avanço do fascismo no mundo e dizer que queremos que os rios, a vida e os nossos territórios sejam livres de todas as opressões, inclusive do avanço do capital”.

Eva María Cristina Ross é pastora da Iglesia Evangelica Luterana Unida e conta que, a cada ano, os participantes esperam ansiosos por reencontrar os companheiros e companheiras que estão no mesmo caminho de defesa do Rio Uruguai, dos rios e da vida, e que se colocam em luta para que não haja mais pessoas excluídas por grandes barragens. “Que possamos todos nos comprometer com a defesa da natureza, das mulheres, dos oprimidos e de todos aqueles que representam a vida, que sofrem com desmontes e perda de direitos, como vem ocorrendo em Misiones”.

O pastor Renato Kuntzer, da IECLB, destaca que a celebração representa um compromisso coletivo firmado entre os povos atingidos. “A celebração é o nosso testemunho e compromisso com o Rio Uruguai vivo e livre. Celebramos a diversidade da vida que cercam essas águas. Celebramos os 10 anos de vitória em relação aos projetos da Garabi e Panambi. E isso não é pouca coisa, é a vitória da vida e, no ano que vem, daremos continuidade a essa história”.

Já o padre Carlos Griebler, pároco de Alecrim, ressalta a importância das celebrações para a Igreja Católica, ao manter viva a memória da luta contra as barragens de Garabi e Panambi e reafirmar a defesa da ecologia integral, inspirado pela encíclica Laudato Si, do Papa Francisco. “Tudo está interligado: nós somos parte do ambiente natural, da casa comum e temos a responsabilidade de cuidar desta casa para que a vida possa acontecer”.