Chuvas continuam ameaçando famílias de São Paulo

Atingidos de todo o estado lidam com áreas de risco e descaso do poder público

O crescimento das moradias em áreas de risco no Brasil, somado ao aumento de eventos climáticos extremos e à falta de políticas permanentes de habitação e infraestrutura, tem provocado mais mortes, ampliado a desigualdade social e o aumento de problemas da população atingida.

Em períodos chuvosos, estes espaços se tornam áreas de risco, e casas passam a não ser mais um espaço de conforto e descanso, tornando-se, muitas vezes, um local de medo e perigo.

De acordo com a MapBiomas, nos últimos 40 anos, a urbanização em áreas com risco de deslizamento mais que triplicou, passando de 14 mil hectares em 1985 para 43,4 mil em 2024. Já nas regiões com risco de enchentes e alagamentos, o crescimento foi de 145%, um salto de 493 mil hectares para 1,2 milhão de hectares no mesmo período.

Já dados do IBGE (2010), indicam que 8,27 milhões de pessoas vivem em áreas de risco, em 872 municípios diferentes. No estado de São Paulo, no mesmo ano, eram 1.521.386 pessoas, cerca de 3,6% da população paulista.

Rua do Morro do Algodão em Caraguatatuba. Foto: Arthur Macfadem / MAB

Ano após ano, atingidos paulistas sofrem com problemas de infraestrutura e políticas públicas de Estado em favor da vida da população. Enchentes, deslizamentos, falta de água e energia – além de preços abusivos para o acesso a esses recursos – atingem a população em inúmeras regiões. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, mais de 21 pessoas já perderam suas vidas, vítimas de enchentes e da crise climática no estado. 

Capital e Região Metropolitana

Recentemente, com as fortes chuvas do início de março deste ano, inúmeras famílias tiveram tempos de alerta dentro de suas próprias casas. Segundo o Corpo de Bombeiros, apenas no dia 8 de março –  dia internacional da mulher – entre o 12h e 17h foram registradas 15 chamadas de quedas de árvores, duas chamadas para desabamentos e 180 chamadas para enchentes na capital e na região metropolitana de São Paulo

A região Leste da capital paulista concentra um grande número de atingidos. Bairros como São Miguel Paulista, Guaianases e seus arredores sofrem constantemente com as chuvas, convivendo com constantes alagamentos e, consequentemente, com a perda de móveis, eletrodomésticos e a constante preocupação com a vida da própria família.

Nesta região, grande parte do problema tem origem na barragem da Penha, que somada ao descaso do poder público, faz com que a falta de espaços para escoamento da água da chuva da região, gere frequentes enchentes aos moradores das comunidades próximas.

Os arredores da capital também sofrem com problemas climáticos e falta de atenção do poder público. A cidade de Guarulhos, por exemplo, enfrenta um cenário preocupante de ocupação em áreas de risco. O município possui 697 locais mapeados, com cerca de 72.973 imóveis, sendo 237 áreas classificadas como de risco. Aproximadamente 15 mil casas estão em risco grave, e cerca de 113 mil pessoas vivem nessas áreas expostas a alagamentos, deslizamentos e outros desastres. A situação evidencia problemas estruturais ligados ao déficit habitacional, ocupação irregular e necessidade de políticas públicas de prevenção e reassentamento.

As cidades do ABC Paulista vivenciam cenários semelhantes. Em São Bernardo do Campo, os problemas estão ligados principalmente às áreas próximas a encostas e cursos d’água. O Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), de 2021, identificou 126 setores de risco, envolvendo 2.010 moradias classificadas em risco médio, alto e muito alto. No entanto, há divergência entre os levantamento, pois o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) estima cerca de 87.729 moradias em situação de risco, indicando possível subdimensionamento do problema.

Litoral

Na Baixada Santista e Litoral Norte, são mais de 25 mil famílias vivendo em áreas de risco, casas que podem desmoronar a qualquer momento, expostas ao deslizamento e ao descaso do Estado com a segurança da população. Um exemplo recente foi à tragédia de 2023 ocorrida em São Sebastião, um deslizamento de terra matou 64 pessoas e deixou cerca de 3000 desabrigadas. Hoje, o município ainda possui 5.921 famílias que moram em áreas de risco muito alto.

Jamile Alves, moradora do bairro de Boiçucanga, em São Sebastião, teve sua casa interditada desde o último relatório da Defesa Civil, no início de março. A moradora relata o desespero em dias chuvosos. 

“Tenho um adolescente e três crianças dentro de casa e não posso trabalhar em paz quando falam que vai chover. É sempre ligando para os irmãos, para os parentes, para pedir pra tomar conta deles. É isso… é desespero por causa deles. Aí já peço pro meu patrão. É proibido usar celular também no serviço, mas já peço: vou ligar pra poder alguém olhar as crianças por causa da chuva. Eu entro em desespero, porque pode acontecer alguma coisa e a gente não poder ajudar; porque se tem um adulto em casa, é mais fácil de correr”.

Casa em Ubatuba que sofreu com alagamento de dois metros de altura. Foto: Arthur Macfadem / MAB

A cidade de Ubatuba decretou situação de emergência no dia 23 de fevereiro. O volume de chuva registrado em aproximadamente 12 horas correspondeu à média histórica de todo o mês, somando-se a um acumulado nas 72 horas anteriores equivalentes a cerca de 70% da média mensal. Segundo o relatório da Defesa Civil do município, foram 531 famílias afetadas; 430 famílias prejudicadas diretamente;  1.800 desalojados; 270 desabrigados; e 200 pessoas isoladas. O total estimado foi de 2.270 pessoas impactadas.

Nos próximos dias, famílias das regiões atingidas devem se reunir para retomar a pauta dos perigos das mudanças climáticas e dos direitos a recursos básicos, como segurança, água e energia.