MAB realiza ato em Vitória do Xingu (PA) em memória de Edinaldo Palheta
Ação homenageou Edinaldo Palheta da Cunha e denunciou a violência fundiária agravada após Usina Hidrelétrica de Belo Monte, reafirmando o território como base da vida camponesa e da soberania popular
Publicado 13/02/2026

Na manhã da última terça-feira (10), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realizou, em Vitória do Xingu (PA), um ato público em memória de Edinaldo Palheta da Cunha, assassinado em 10 de fevereiro de 2025. A mobilização reuniu agricultores e agricultoras, familiares, moradores da região e organizações populares para reafirmar a luta por justiça e pela defesa do território camponês.
Edinaldo, conhecido como Naldo Bucheiro, tinha 45 anos, era agricultor familiar e presidente da Associação dos Pequenos Agricultores do Km 40, que representa cerca de 228 famílias. Mais que uma liderança formal, Naldo era um organizador do território que articulava a produção coletiva, fortalecia a permanência das famílias na terra e defendia a regularização de uma área pública federal historicamente abandonada pelo Estado.
Para o MAB, território não é apenas um pedaço de chão; é espaço de reprodução da vida: onde se produz alimento, se constroem relações comunitárias, se educam crianças, se preservam saberes e se afirma a soberania popular. Quando uma liderança que defende esse território é assassinada, o ataque não é individual, é contra um projeto coletivo de vida no campo.
Um crime ligado à disputa territorial
O assassinato ocorreu na estrada do Ramal Água Boa, quando Edinaldo retornava para casa após o trabalho. Dois homens em uma motocicleta efetuaram diversos disparos. Ele morreu ainda no local, diante de seu filho de 11 anos.
Desde o início, o MAB denunciou o crime como parte de um contexto mais amplo de disputa por terras públicas e de avanço de interesses privados sobre áreas ocupadas por agricultores familiares. A ausência de regularização fundiária definitiva cria um ambiente de insegurança permanente, favorecendo a especulação e a violência como instrumento de controle territorial.
Vitória do Xingu carrega ainda os impactos estruturais da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. A implantação do empreendimento alterou profundamente a dinâmica territorial da região, intensificando a valorização da terra, ampliando conflitos e pressionando comunidades camponesas, ribeirinhas e populações atingidas. Nesse cenário, defender o território significa enfrentar um modelo que transforma a terra em mercadoria e subordina a vida aos interesses do capital.

Dor que se transforma em luta
Durante o ato, familiares reafirmaram que a memória de Naldo é também compromisso de continuidade da luta.
“Hoje completa um ano do assassinato dele. Eu fico pensando que poderia ser uma data para comemorar uma conquista, um aniversário, mas está sendo ao contrário. É uma data de dor para mim. Mas também nos faz lembrar da luta que ele teve por ele e por nossos companheiros. Nós queremos justiça para descobrir quem matou Naldo”, afirmou Reginaldo Palheta, irmão de Edinaldo.

A coordenação do MAB informou que há avanços nas investigações e indicativos relevantes sobre a autoria do crime, ainda não divulgados oficialmente. Segundo Ricardo Santos, da coordenação do Movimento:
“Sabemos que existem informações importantes já levantadas pelas investigações e que o caso está em fase avançada. Estamos aguardando os procedimentos necessários para que tudo seja oficialmente divulgado. Não vamos parar enquanto não houver responsabilização. A morte do companheiro Naldo não é isolada, faz parte de um sistema de violência contra agricultores e agricultoras.”

Território é soberania popular
A área ocupada pelas famílias foi rebatizada como Ocupação Edinaldo Palheta. O gesto simboliza que o território é também espaço de memória e afirmação política. Permanecer na terra é garantir soberania alimentar, autonomia produtiva e dignidade às famílias.
Para o MAB, a defesa do território camponês está diretamente ligada ao enfrentamento da concentração fundiária e à construção de um projeto popular para o campo. Isso implica regularização das terras públicas, criação de assentamentos, proteção às lideranças e políticas estruturais de reforma agrária.
O ato contou com a presença da coordenadora-geral de Monitoramento de Demandas Agrárias da Secretaria-Geral da Presidência da República, Amanda Acypreste, que reconheceu a legitimidade da comunidade: “Esta comunidade é reconhecida pelo governo. Estaremos juntos. Eu, enquanto trabalhadora da Secretaria, não posso prometer nada, mas posso afirmar que iremos dar andamento às demandas. Vamos registrar e buscar as respostas que vocês precisam até chegarmos a uma conclusão.”

Justiça para que a vida permaneça
Dados recentes apontam que o Pará segue entre os estados com maiores índices de violência no campo. Para o MAB, esse cenário revela que a disputa pelo território continua sendo resolvida, muitas vezes, pela força.
Garantir justiça no caso de Edinaldo é também garantir que as famílias permaneçam em seu território sem medo. É afirmar que produzir alimento e defender a terra não pode ser sentença de morte.
Para o Movimento, manter viva a memória de Naldo é fortalecer a organização popular e reafirmar que o território deve cumprir sua função social: sustentar a vida, e não alimentar a violência e a concentração de poder.
A luta segue. Porque defender o território é defender o futuro.
