Saúde dos atingidos de Fortaleza é foco de pesquisa em projeto do MAB com a Fiocruz
Estudo analisa como as enchentes crônicas agravam doenças, cortam acessos básicos e aprofundam o abandono histórico do poder público com os atingidos na capital cearense
Publicado 04/02/2026 - Actualizado 04/02/2026

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) do Ceará recebeu, na última semana, pesquisadoras da Fiocruz para o desenvolvimento de um projeto que investiga e denuncia a realidade da saúde das comunidades atingidas pelo agravamento de eventos climáticos em Fortaleza. Na capital cearense, centenas de famílias sofrem há décadas com inundações e alagamentos recorrentes em diversos bairros e, a cada ano, aguardam o período chuvoso com apreensão, sem qualquer ação efetiva do poder público.
Entre os dias 26 e 30 de janeiro, a equipe de pesquisa visitou famílias atingidas no Conjunto Vitória (bairro Parque Santa Maria) e na comunidade Santa Fé (bairro Ancuri), ouvindo relatos para compreender como as inundações agravam as violações de direitos historicamente sofridas por essa população.
Beatriz da Silva Britto, da coordenação estadual do Ceará, avalia que a pesquisa “ajudará a entender como os alagamentos afetam a vida e a saúde das populações atingidas em Fortaleza”. Segundo ela, “durante as visitas, já foi possível identificar que os alagamentos trazem várias problemáticas à vida das famílias, como a falta de acesso à saúde, educação, ao trabalho e à segurança alimentar”. Para o MAB, o projeto com a Fiocruz é uma importante ferramenta de luta e organização das famílias atingidas na luta pelos seus direitos.
“São seis meses com o coração na mão”
Moradora do bairro Ancuri, Ana Rute Silva relata que, a cada janeiro – marco do início da estação chuvosa –, começam seis meses de extrema angústia para os atingidos que vivem próximos a riachos. Ana trabalhava como decoradora de festas, mas, após perder seu material repetidas vezes nas enchentes, não conseguiu repô-lo. Agora, luta por reconhecimento, reparação e proteção por parte do Estado. “Os alagamentos pioram a cada ano. O riacho que era largo foi ficando estreito, e agora, com qualquer chuva, ele transborda e alaga. No inverno, neste tempo de chuva, eu não consigo dormir à noite”, desabafa.




Outra moradora do mesmo bairro, Ana Priscila do Carmo, afirma não lembrar de um único ano sem inundações nos 33 anos em que vive na localidade.
“Todos os anos entra água na nossa casa, alguns anos são piores e já teve anos em que a água subiu na altura do nosso peito. Quando começa o inverno, muitas vezes as ruas alagam duas ou três vezes por semana. Por isso, nós lutamos para que o poder público faça algo em relação ao riacho, que está assoreado e que as fábricas ao redor fizeram vários desvios”, relata Priscila.
A crise climática tem endereço
As mudanças geradas pela crise escancara as faces da desigualdade social. A cada chuva em Fortaleza, são as populações mais vulneráveis que pagam o preço mais alto. O abandono do poder público se materializa na ausência de planos de evacuação, de alerta precoce e de assistência pós-desastre. Na capital, a urbanização excludente empurrou essas comunidades para as margens desses riachos, e agora as deixa cada vez mais desamparadas, à mercê de um clima cada vez mais hostil e de um ciclo histórico de violações. A inundação e o sofrimento destes atingidos em Fortaleza, não é natural; é social e político, e revela quem tem o direito à segurança e quem há anos precisa lutar pelo mínimo de reconhecimento.

A pesquisadora da Fiocruz Minas, Priscila Neves, integra o grupo que esteve na cidade e analisa que “os alagamentos são consequência do racismo ambiental, da urbanização irregular e da ausência de políticas de moradia eficazes”. Durante a semana, ela ouviu o relato dos atingidos e atingidas e acredita que “o contexto de mudança climática, que tem como consequência o aumento das chuvas, descortina as desigualdades sociais e aumenta a situação de vulnerabilidade de grupos sociais que já vivem em situação de extrema pobreza”.
