Com a entrega de mais de 60 mil mudas, animais e maquinário no Vale da Ribeira (SP), ação do MAB promove agroecologia e fortalece a autonomia financeira das mulheres no campo
Publicado 02/09/2026 - Actualizado 02/09/2026

Em uma iniciativa que une preservação ambiental, segurança alimentar e desenvolvimento social, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) iniciou a entrega de itens de estruturação produtiva para famílias quilombolas no Vale do Ribeira, em São Paulo. A ação, viabilizada pela Associação Nacional dos Atingidos por Barragens (ANAB), faz parte do projeto “SAFs Biodiversos: Germinando Práticas Ecológicas em Quintais Produtivos”.
A parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) visa implantar 75 hectares de Sistemas Agroflorestais (SAFs), beneficiando ao todo 500 famílias agricultoras espalhadas por São Paulo, Paraná e Goiás. “Todas as famílias estão tendo algum tipo de acompanhamento. São famílias da base, uma turma com a qual o movimento faz trabalho e organiza”, contextualiza o engenheiro agrônomo Felipe Teixeira Chinen, responsável por parte do acompanhamento técnico da iniciativa.
O projeto chega para fortalecer vocações já existentes no território.
“Nós somos comunidades quilombolas aqui do Vale e também atingidas, e esse projeto veio se somar para que nós produzamos mais. Nós já somos tradicionais que vivemos da agricultura, e é um projeto voltado à realidade do que nós já produzimos aqui”, explica Débora Silva, integrante da coordenação do MAB na região e quilombola do Quilombo São Pedro, localizado nos municípios de Iporanga e Eldorado.
Há décadas a região enfrenta projetos de barragens, como a mobilização contra a hidrelétrica de Tijuco Alto e outras ameaças aos rios locais. Hoje em dia, cresce o avanço de mineradoras e de projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) na bacia do Rio Ribeira. Somente na região do Alto Vale, onde ficam as nascentes, há mais de 30 propostas. Além de inundar matas e devastar habitats ecológicos, essas obras colocam em risco o modo de vida das comunidades tradicionais, agravando a situação de uma área que já sofre com a falta de regularização fundiária.
Estruturação completa dos quintais produtivos

Para dar início à implantação dos SAFs nas Unidades Familiares de Produção Agrária (UFPAs), as entregas foram desenhadas para fortalecer todo o ciclo produtivo das comunidades. Foram distribuídas mudas de alto valor ecológico e econômico já reconhecidas pelas famílias, como cacau, frutíferas variadas, banana e palmito pupunha.
Além disso, os agricultores receberam kits de avicultura compostos por galinhas caipiras, galos, ração inicial, telas e telhas para a construção de galinheiros. Para otimizar o tempo de trabalho e reduzir o esforço físico no campo, a estruturação incluiu também a entrega de adubo e maquinários, como roçadeiras profissionais.
O foco espacial do projeto tem raízes profundas na tradição camponesa. Chinen explica que a prática dos quintais produtivos remonta à origem da agricultura, utilizando o espaço próximo das casas para o cultivo de uma grande diversidade de alimentos. “É um espaço que tem muito a ver com autoconsumo, mas que também é de experimentação, com possibilidade de teste, de aprendizado. Não é necessariamente o lugar da mega produção, o lugar onde está o retorno mais financeiro da família”, detalha o engenheiro, ressaltando que o conceito tem ganhado visibilidade nas recentes políticas públicas estatais.
O sistema foi pensado de forma circular. Enquanto a banana, o cacau e a pupunha centralizam a geração de renda, a criação de aves integra o quintal garantindo proteína para as famílias e devolvendo adubo natural ao solo. Nesse modelo de quintal, o sistema opera de forma circular.
“O projeto trouxe a capacidade de incluirmos famílias que não teriam condições de comprar uma muda de pupunha, uma muda de banana ou ter um kit frango. Com ele, o atingido conseguiu entrar como produtor e ter a sua produção”, ressalta Débora, destacando a democratização do acesso aos meios de produção.
Construindo um projeto popular e agroecológico
O projeto possui diretrizes claras de inclusão, exigindo a participação mínima de 50% de mulheres e 20% de jovens. No Vale do Ribeira, onde 200 famílias estão sendo atendidas, o impacto feminino é evidente e transformador.
“A maioria das famílias que entraram no projeto é de mulheres. Isso é muito importante para elas terem a sua renda e do trabalho tirarem o seu sustento. Eu, como quilombola, atingida, produtora e mãe solo, considero gratificante receber um projeto de tamanha importância, que nos dá a oportunidade de ter uma renda maior. Estou radiante!”, afirma Débora Silva.
Atuando em seis comunidades diferentes no Vale do Ribeira, o MAB enxerga cada ferramenta e cada muda plantada como um passo rumo à garantia de direitos e à construção de uma agricultura agroecológica robusta. Para quem está na linha de frente das entregas, o impacto já é visível na comunidade.
Atuando em seis comunidades diferentes no Vale do Ribeira, o projeto busca consolidar uma agricultura agroecológica robusta, em forte contraste com as práticas convencionais que dominam o mercado. O objetivo é utilizar as agroflorestas para permitir que as famílias construam formas de produção diferentes do monocultivo. “A ideia é que seja um sistema de produção, uma forma de produzir que melhore o solo e as condições, não um sistema que degrada”, argumenta Chinen.
Segundo o engenheiro agrônomo, o modelo convencional do agronegócio já demonstrou globalmente e no Brasil que seu resultado é problemático. “Cada vez mais impacto, cada vez mais problema, com uma terra cada vez pior”. Em contrapartida, os sistemas agroflorestais integram as árvores à produção de alimentos. Chinen pontua que essa técnica leva em conta tanto a questão social quanto a ambiental, compondo a cara que a agroecologia tem. “Foi uma construção muito forte da América Latina”.

A atual etapa de entrega de maquinários, animais e mudas é apenas o pontapé inicial de um cronograma que deve se estender pelo menos até meados do próximo ano. “A gente ainda vai ter mais momentos no projeto de acompanhamento técnico, de conversas e de formações dentro desse tema da agrofloresta”, adianta Chinen.
Para quem está na linha de frente, a transformação já começou a dar frutos. “Acompanhar desde o começo e agora chegar na parte da entrega dos kits, ver o brilho no olhar, o sorriso e o agradecimento deles é muito gratificante. Faltam palavras para descrever a felicidade de todos pela oportunidade e pela qualidade de vida trazida para as famílias atingidas do Vale”, conclui Débora Silva.