Artigo | Ser lésbica, ser atingida, ser militante: nossa luta também é por existir
Em artigo pelo Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, Joice Lani reflete sobre as violências que atravessam mulheres lésbicas e a importância da organização coletiva para garantir o direito de existir, amar e lutar
Publicado 29/08/2026 - Actualizado 29/08/2026
Neste 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, quero começar lembrando das que vieram antes de nós. Das mulheres que tiveram suas vidas interrompidas pela violência, pelo racismo, pela misoginia e pela lesbofobia. Mulheres que, simplesmente por existirem e amarem outras mulheres, tiveram suas vidas marcadas pela violência.
Lembro de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra, lésbica, mãe e periférica, que morreu em 2016, após ser brutalmente agredida por policiais militares durante uma abordagem em Ribeirão Preto (SP). Seu nome se tornou símbolo da luta contra o racismo, a violência policial e a lesbofobia.
Lembro também de Ieda Aparecida Simplício e Fabiana de Fátima Nogueira, um casal de mulheres lésbicas encontrado morto e enterrado em uma área de mata em São Vicente, no litoral de São Paulo, em julho deste ano.
Lembro de Ana Caroline Sousa Campelo, jovem lésbica assassinada no Maranhão, em dezembro de 2023, em um crime marcado por extrema crueldade e que também mobilizou organizações de defesa dos direitos humanos e da população LGBTQIA+.
Lembrar dessas mulheres não é apenas falar sobre morte. É falar sobre vidas que existiram, sobre sonhos interrompidos e sobre uma sociedade que ainda permite que mulheres lésbicas sejam violentadas por serem quem são.
Essa memória é também uma forma de luta

Ser militante me faz sentir viva. Mas ser lésbica, muitas vezes, me faz andar com medo da morte.
Acho que muitas pessoas que militam conhecem o medo. O medo de perder direitos, de sofrer violência, de enfrentar o Estado, de estar na linha de frente de uma luta. Mas, quando você é LGBT+, existe uma dimensão ainda mais cotidiana: às vezes, parece que o simples ato de respirar, andar pela rua, demonstrar afeto ou dizer quem você ama já pode ser entendido como uma provocação.
Foi por isso que, em 1996, mulheres lésbicas se organizaram nacionalmente. Em 29 de agosto daquele ano, aconteceu o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), marco importante para a organização política das lésbicas no Brasil. A data passou a representar um momento de visibilidade, organização e reivindicação de direitos.
E é justamente a organização coletiva que me faz pensar na minha própria trajetória.
Eu nasci e cresci em Porto Velho, Rondônia. Sou filha do Madeira. Como a gente costuma dizer por aqui: “bebi da água do Madeira”. Minha história, porém, também é profundamente urbana. Ser lésbica na Amazônia, em um estado do Norte marcado por estruturas conservadoras, não é simples. Ser uma mulher negra atravessada pelo racismo torna essa experiência ainda mais complexa.
Hoje sou casada com Natalia, uma mulher linda, inteligente e trans. Viver esse relacionamento também me ensinou que gênero e orientação sexual não são a mesma coisa, e que compreender essa diferença fortalece a nossa luta. A transfobia, a misoginia e a lesbofobia não existem isoladamente. Muitas vezes caminham juntas, sustentadas pelas mesmas estruturas de poder.
Foi no MAB que aprendi ainda mais profundamente o significado da palavra coletividade.
Antes de ser militante, eu nem sabia que era uma atingida. Foi através da militância que comecei a compreender que ser atingida não é apenas morar em determinado território ou passar por uma situação específica de violação. É compreender como grandes projetos, barragens, crises ambientais e desigualdades atingem corpos e territórios de maneiras diferentes. E, dentro dessa realidade, as mulheres enfrentam violências específicas.
Em situações de desastres e crises climáticas, mulheres também ficam mais expostas a diferentes formas de violência, insegurança e exploração. Para uma mulher lésbica, existe ainda o medo de que a própria orientação sexual seja utilizada como justificativa para uma violência, inclusive sexual, apresentada como uma suposta “correção”.
Por isso, falar sobre a luta das mulheres lésbicas também é falar sobre território, classe, raça, gênero e poder.
Não existe luta de classe sem a luta contra as opressões que atravessam a classe trabalhadora. Não existe enfrentamento ao capitalismo sem enfrentar as estruturas patriarcais e racistas que sustentam desigualdades. E não existe uma luta verdadeiramente popular sem reconhecer a existência e a resistência das mulheres lésbicas.
Aprendi no MAB que ninguém luta sozinho. E acredito que precisamos levar esse aprendizado para a luta contra a LGBTfobia.
Precisamos construir espaços onde mulheres lésbicas possam existir sem medo; onde possam amar sem esconder seus afetos. Onde possam participar da política, dos movimentos sociais, das associações, dos sindicatos, das comunidades e dos espaços de decisão sem precisar escolher entre a própria segurança e a própria identidade.
Neste 29 de agosto, quero lembrar das que vieram antes, mas também quero afirmar que nós estamos aqui.
Estamos vivas. Estamos organizadas. Estamos lutando.
Ser atingida e ser lésbica é, muitas vezes, enfrentar uma luta constante contra estruturas que tentam nos silenciar. Mas também é construir resistência, afeto, solidariedade e organização.
Nossa luta é coletiva
E é através da empatia, da organização e da união entre diferentes lutas que podemos conquistar direitos, como mulheres, como lésbicas, como pessoas LGBTQIA+ e como atingidas.
Neste Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, que a memória das que partiram nos fortaleça. Que suas histórias não sejam esquecidas. E que nenhuma de nós precise morrer para que o direito de existir seja reconhecido.
* Por Joice Lani de Araújo Montenegro, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Rondônia e coordenadora do Coletivo LGBTQIA+ Somar, de Porto Velho (RO)