Solidariedade, internacionalismo e legado de Flávia Amboss marcam a 6ª Turma do curso de Energia
Em uma construção conjunta entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Plataforma Operária e Camponesa da Água e Energia, o encontro aprofundou o debate sobre o papel do Estado e a solidariedade internacionalista
Publicado 11/05/2026 - Actualizado 11/05/2026

A terceira etapa do curso “Energia e Sociedade no Capitalismo Contemporâneo”, realizada no Rio de Janeiro, de 15 e 26 de março, reuniu 35 militantes, de sete países, entre eles: Moçambique, Espanha, Cuba, Guatemala, Costa Rica, Chile e Brasil; do Brasil, participaram militantes de 13 estados das quatro regiões do país.
Ao todo, 12 organizações estiveram presentes para refletir a necessidade da articulação internacional da classe trabalhadora, a importância da formação política e o valor da mística latino-americana frente às crises e a ofensiva do capital, no atual momento histórico.
A grade formativa mergulhou em temas centrais da geopolítica e da história das lutas sociais por meio de cinco disciplinas estruturantes: Geopolítica da energia no mundo contemporâneo, com Gilberto Cervinski (MAB); Social democracia e o “Estado de Bem-Estar”, com Javier Ghibaudi (UFF); Lutas sociais e justiça ambiental, com Flávia Vieira (UFRRJ) e o módulo Estado e Revoluções II, dividido entre as experiências da China, com Pedro Campos (UFRRJ), e da América Latina, com Mariana Bruce (UFF) e Luiz Candido (UFF).





A convite da Coordenação Político-Pedagógica (CPP), a professora da UFRJ e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA/RJ), Leile Teixeira, mediou um espaço formativo sobre o combate às violências sexuais. A atividade enfatizou como tais violências são estruturadas pelo sistema capitalista, patriarcal, racista e misógino. Além de apontar os desafios políticos e organizativos para enfrentar estas opressões no cotidiano das mulheres da classe trabalhadora, do campo e da cidade. Destacou-se ainda a necessidade da luta feminista popular e da construção de novos princípios e valores da prática militante, transformando também as relações internas nos espaços de organização.
Em complemento à base teórica, a programação incluiu, no dia 18 de março, o Seminário Nacional “Compromissos com o povo brasileiro para a Soberania Energética”, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. O espaço articulou 55 representantes de diversas organizações em um momento de síntese política, projetando os rumos do setor com foco na retomada popular e proletária.
Esse espírito de convergência seguiu vivo na plenária “Sobre Nós”, iniciada na etapa anterior, e que neste terceiro encontro contou com as contribuições da Justiça Ambiental de Moçambique, do Centro Memorial Martin Luther King (CMLK) de Cuba, do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas de Rondônia (SINDUR) e da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM). Ao socializarem as trajetórias históricas, as organizações reforçaram a importância da unidade e da resistência organizada em seus respectivos territórios.
Solidariedade sem Fronteiras

Um dos momentos mais simbólicos desta etapa foi a mobilização, organizada pela turma Flávia Amboss, em apoio à ilha caribenha. O gesto buscou fortalecer aqueles que, há mais de seis décadas, resistem em defesa da soberania e enfrentam o endurecimento do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Na prática, a ação resultou na coleta de medicamentos e no levantamento de uma quantia em dinheiro integralmente revertida na aquisição de insumos de saúde complementares.
Luís Raúl, militante do CMLK, ressaltou a relevância ética e política da iniciativa. “Apostamos na solidariedade como princípio de vida. Países amigos, governos, movimentos sociais e sindicatos têm contribuído com o envio de suprimentos necessários como alimentos, medicamentos e tecnologias fotovoltaicas para revitalizar os processos, além de promoverem campanhas midiáticas que desmentem a [falsa] realidade projetada sobre o povo cubano”, defendeu Luís.
A campanha viabilizou que famílias da Rede de Educadoras e Educadores Populares Luz de Guayacán, em Guantánamo, tivessem acesso a remédios de uso contínuo – para o controle de doenças como hipertensão e diabetes -, bem como itens de primeira necessidade para o público infantil e adulto. Mais do que a luta pela garantia de direitos fundamentais, o ato materializa a fraternidade internacionalista como ferramenta insurgente frente ao imperialismo.
Horizonte de lutas
Para os discentes, a jornada formativa tem sido um divisor de águas. Conforme pontua Matheus Bragança, militante do Movimento Camponês Popular (MCP): “Essa experiência tem sido fundamental para aprofundarmos a compreensão sobre as disputas energéticas que marcam o mundo de hoje, especialmente neste momento em que vemos uma intensificação do imperialismo, na tentativa de controlar reservas estratégicas como petróleo, gás e minerais críticos, além de outras riquezas naturais”.
Para além de uma formação teórica formal, o curso tem promovido um intercâmbio valioso entre a análise da realidade global e a construção de alternativas com participação popular. As reflexões evidenciam que a matriz energética não é um tema puramente técnico, mas uma questão profundamente política, econômica e social que atravessa a defesa dos territórios e o horizonte de lutas dos povos.
Este acúmulo é estratégico para a atuação militante. Ao desvendar os interesses em jogo, amplia-se a capacidade de elevar a consciência popular e articular, na prática, um projeto de país soberano no qual as riquezas naturais sejam tratadas como bens comuns para as necessidades do povo, e não meras mercadorias submetidas à lógica do lucro externo.
Sobre o curso
A quarta e última etapa da 6ª turma do curso de Energia está programada para ocorrer em novembro. Este período marcará o encerramento do ciclo acadêmico com a conclusão das disciplinas e a defesa dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs). As pesquisas abordam temas cruciais para a transformação social, divididos nos eixos temáticos de Questão Agrária, Transição Energética e Comunicação Popular. A formatura celebrará a conclusão deste ciclo e o vigor das articulações internacionalistas, reafirmando a potência de um projeto que forma para transformar e projeta novas sementes de luta.
Espera-se que as publicações derivadas dos TCCs deem visibilidade à realidade dos territórios e inspirem novos militantes a se somarem nesta construção histórica de quase duas décadas, fruto da parceria sólida entre o MAB, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) e a Plataforma Operária e Camponesa da Água e Energia.
Homenagem e Memória

No encerramento desta etapa, a turma eternizou sua identidade ao carregar o nome de Flávia Amboss Merçon Leonardo. A homenagem à professora de Sociologia e militante capixaba do MAB simboliza o compromisso inabalável do coletivo na luta contra o patriarcado e o fascismo.
Segundo Ester Avancini, militante do MAB no Espírito Santo: “Flávia dedicou a vida à defesa dos direitos das comunidades atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão, na bacia do Rio Doce. Era uma intelectual orgânica do movimento, e alinhava sua formação acadêmica à atuação política. Em sua tese de doutorado Imprensados no tempo da crise: a gestão das afetações no desastre da Samarco (Vale e BHP Billiton), ela mergulhou na realidade dos atingidos e devolveu esse conhecimento ao movimento. Flávia acreditava que o conhecimento liberta e que a ciência popular poderia contribuir para a reparação dos danos causados pelo rompimento no Espírito Santo”.
Sua trajetória no MAB foi marcada por contribuições fundamentais, especialmente na organização das mulheres. Uma das fundadoras do coletivo estadual, Flávia coordenava o trabalho com as Arpilleras, técnica de bordado utilizada pelas militantes como forma de resistência e denúncia contra violações de direitos. Antes de mudar-se para Aracruz, residia em Regência (ES), distrito de Linhares, na foz do Rio Doce, uma das regiões mais castigadas pela lama de rejeitos de minério do rompimento da barragem de Mariana (MG) em 2015.
Flávia foi assassinada aos 36 anos, vítima do Massacre de Aracruz, ocorrido em 25 de novembro de 2022, na Escola Estadual Primo Bitti, no Espírito Santo. Na ocasião, um adolescente de 16 anos, filho de um policial militar, invadiu duas instituições de ensino e efetuou disparos contra professores e alunos. O ataque resultou em quatro mortes, entre elas a de Flávia, e deixou 13 feridos. O caso permanece em investigação e a polícia apurou a ligação do atirador com grupos extremistas, pelo uso de uma suástica, símbolo nazista, durante o atentado. Passados quase quatro anos do crime, a família e o MAB seguem em marcha, exigindo que a justiça seja plena e a memória, preservada.
O grito de ordem que sintetiza o espírito desta turma e mantém viva a presença de nossa companheira ecoa: Bordando a resistência, Renasce! Formando para transformar, Renasce! Contra o patriarcado e o fascismo, Flávia Amboss Renasce!