Resiliência revolucionária e solidariedade internacional mantém Cuba de pé
Com apagões, escassez de combustíveis, medicamentos e alimentos, Cuba enfrenta um dos momentos mais duros dos últimos anos; resposta passa por não ceder ao fascismo imperialista
Publicado 01/04/2026 - Actualizado 01/04/2026

A crise que atravessa Cuba voltou a se agravar nas últimas semanas. Sob o endurecimento da pressão dos Estados Unidos, a ilha vive um estrangulamento energético que tem repercutido em cadeia sobre o transporte, a distribuição de alimentos, o funcionamento de hospitais e a vida cotidiana dos cubanos. Ao mesmo tempo, o cenário internacional se tornou ainda mais tenso e bélico com falas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugerindo que “Cuba é a próxima” e que teria a “honra” de “tomar Cuba de alguma forma”, declarações que, em Havana, foram recebidas como ameaça de intervenção direta.
Mesmo com esse quadro, Cuba segue resistindo. E essa resistência – dizem cubanos e autoridades cubanas ouvidos pelo MAB – não nasce apenas da capacidade de suportar privações, mas de uma longa tradição de organização popular, defesa da soberania e solidariedade entre os povos. É essa combinação que ajuda a explicar por que, mesmo diante de um novo cerco, a ilha segue de pé.
Benigno Pérez Fernández, cônsul de Cuba em São Paulo, afirma que o momento é de “uma escalada muito perigosa da política dos Estados Unidos”, com efeitos concretos sobre a vida do povo cubano.
“No caso de Cuba, essa política se expressa através do bloqueio econômico, comercial e financeiro, que já dura mais de 60 anos, mas que foi intensificado nos últimos anos. Trata-se de uma política deliberada para asfixiar a economia cubana e provocar dificuldades ao povo”, afirma o cônsul.
Segundo ele, uma das medidas mais graves é a manutenção de Cuba em listas e mecanismos de sanção que ampliam o isolamento financeiro. “Muitos bancos se recusam a realizar transações com Cuba por medo de sanções dos Estados Unidos. Isso dificulta, por exemplo, o pagamento de importações, a compra de alimentos, medicamentos e combustível. É um bloqueio que não é apenas comercial, ele afeta diretamente o dia a dia das pessoas”.
A gravidade da situação aparece também nos dados mais recentes. Na última terça-feira (31), um navio russo começou a descarregar cerca de 700 mil barris de petróleo em Matanzas, no primeiro grande envio de combustível para Cuba em meses. A carga foi autorizada pelos Estados Unidos por razões humanitárias, mas a própria Casa Branca disse que isso não representa mudança de política, apenas uma exceção analisada caso a caso. O alívio, portanto, é temporário e insuficiente diante de uma crise prolongada.

Um bloqueio que atinge a tomada, a panela e o hospital
A crise energética é hoje uma das expressões mais duras do bloqueio. Nas últimas semanas, Cuba voltou a enfrentar apagões prolongados e colapsos do sistema elétrico nacional, em meio à redução drástica de suprimentos externos de petróleo e ao desgaste da infraestrutura de geração. Em março, a Reuters relatou blecautes nacionais e um colapso de 29 horas, com serviços essenciais pressionados em várias regiões do país.
Para Soniamara Maranho, da coordenação nacional do MAB, o ataque ao setor energético não é um detalhe da conjuntura, mas parte central da ofensiva contra Cuba. Ela afirma que há “uma tentativa muito grande de acabar com um sistema”, e que o bloqueio do petróleo atinge diretamente toda a população, fundamental para sustentar hospitais, serviços públicos e a vida nas comunidades.
Esse impacto aparece com clareza no relato de Luiz Raul López Ibañez, cubano integrante do Centro Memorial Martin Luther King Jr. (CMMLK) e integrante do Movimento Internacional dos Atingidos por Barragens, Crimes Socioambientais e Crise Climática (MAR). Morador de Guantánamo e professor universitário, ele descreve uma vida cotidiana reorganizada em função da falta de combustível e da instabilidade elétrica. Em sua comunidade, cozinhar se tornou mais difícil, porque boa parte das famílias depende de meios elétricos; o transporte foi afetado, e boa parte dos cubanos não conseguem chegar aos seus locais de trabalho; e até atendimentos de urgência na saúde passaram a depender da sorte de haver energia no momento certo.

Luiz Raul resume a percepção local afirmando que o atual contexto é mais duro que no período da pandemia de Covid-19. Segundo ele, durante a pandemia, embora houvesse enorme pressão, o Estado ainda conseguiu mobilizar recursos para proteger a população e manter serviços. Agora, com cortes prolongados de energia, escassez de medicamentos e deterioração do abastecimento, o cotidiano se tornou mais duro. Entre suas maiores preocupações, ele cita três frentes: a crise do sistema elétrico, a falta de medicamentos e o acesso aos alimentos básicos.
As preocupações relatadas por ele dialogam com alertas internacionais. Em fevereiro, especialistas da ONU condenaram a ordem executiva dos EUA, de 29 de janeiro de 2026, classificando o bloqueio de combustíveis como grave violação do direito internacional. Em março, a organização afirmou que a escassez de combustível empurrou Cuba para uma crise humanitária, com hospitais afetados por cortes de energia, falta de medicamentos essenciais e dificuldade para manter serviços como oncologia, diálise, urgência, atenção materno-infantil e cadeia de frio.
A própria crise sanitária ganhou contornos dramáticos. Reportagem recente da Reuters mostrou que o sistema de saúde cubano enfrenta escassez de insumos, exaustão de profissionais e filas enormes para cirurgias e tratamentos, inclusive entre crianças. A ilha já foi referência internacional em medicina preventiva e cooperação em saúde. Hoje, contudo, o aprofundamento da crise econômica e energética pesa diretamente sobre essa estrutura.
As ameaças de Trump e o risco de uma escalada maior
Além do impacto econômico, o momento também é atravessado por um salto no tom político e militar vindo de Washington. Em 16 de março, Trump declarou que achava que teria a “honra de tomar Cuba de alguma forma”, e afirmou que poderia fazer “qualquer coisa que eu quiser” com o país. Dias depois, voltou a subir a temperatura e disse, em Miami, que “Cuba é a próxima”, em referência à política externa agressiva que passou a adotar na região.
Havana respondeu dizendo que seria ingênuo não se preparar para a possibilidade de uma agressão. Em 22 de março, o vice-chanceler cubano, Carlos Fernández de Cossío, afirmou à Reuters que Cuba está pronta para qualquer ataque eventual, ainda que não considere uma invasão o cenário mais provável no momento. No mesmo período, o chefe do Comando Sul dos EUA declarou ao Congresso que os militares norte-americanos não estão ensaiando uma invasão da ilha, mas admitiu preparação para responder a cenários envolvendo a embaixada dos EUA, Guantánamo ou um fluxo migratório em massa.
Para o Movimento dos Atingidos por Barragens, essa ameaça é levada a sério. Soniamara Maranho afirmou que há preocupação com “a última hipótese, que é a opção militar”. O movimento vê como tarefa política denunciar esse risco e fortalecer a solidariedade internacionalista diante de uma possível escalada.
O cônsul Benigno Pérez Fernández vai na mesma direção. Para ele, Trump “representa um perigo não apenas para Cuba, mas para a humanidade”, e suas decisões “ignoram o direito internacional e reforçam práticas de coerção e violência no cenário global”. Na avaliação do diplomata, o mundo precisa compreender que o bloqueio contra Cuba “não é apenas uma questão bilateral, mas uma violação do direito internacional e dos direitos humanos do povo cubano”.
A solidariedade como resposta política
Se a agressão se internacionaliza, a resposta solidária também. Nas últimas semanas, multiplicaram-se sinais de apoio externo. O México defendeu publicamente seu direito soberano de fornecer petróleo a Cuba, inclusive por razões humanitárias. Barcos de ajuda humanitária chegaram a Havana no fim de março carregando medicamentos, alimentos e outros insumos. Nesta quarta-feira (01), a Comissão Europeia anunciou mais 2 milhões de euros em ajuda humanitária adicional para Cuba, voltada à distribuição de água potável, alimentos e apoio logístico em meio à crise energética.
No interior dessa rede de apoio, o MAB prepara uma nova campanha de solidariedade. Está em curso uma campanha interna no movimento e com parceiros nos estados – sindicatos, parlamentares e outras organizações – para levantar fundos de ajuda humanitária, especialmente voltados à compra de medicamentos e outros itens que possam ser enviados à ilha. A orientação é manter o movimento em alerta máximo e ampliar o debate com a militância, a base e aliados estratégicos.

A articulação do MAB não se limita à arrecadação. O movimento discute brigadas de solidariedade, intercâmbio político e ações conjuntas com aliados de outros países, em diálogo com o MAR e com organizações cubanas ligadas à formação popular e à soberania energética. Para Soniamara, é preciso fazer da solidariedade internacionalista um princípio vivo, não apenas uma resposta emergencial. Ela também afirma que a solidariedade do MAB é também uma forma de retribuição histórica.
“Nós apenas estamos seguindo o exemplo de Cuba”, afirma, lembrando a tradição internacionalista da ilha no envio de médicos, no apoio a países em guerra, no atendimento oftalmológico e, mais recentemente, no desenvolvimento de vacinas e ações de cooperação em saúde. Para ela, o mais importante é reconhecer que, mesmo com poucos recursos naturais, Cuba sempre colocou seus “seres humanos” a serviço da vida, da soberania e da paz.
Luiz Raul, de Cuba, recebeu essa mobilização como algo concreto. “Estamos falando de salvar vidas”, afirmou, associando a solidariedade ao enfrentamento prático do bloqueio e à demonstração de que “não há governo dos Estados Unidos que possa limitar a ajuda” entre os povos.
Resiliência revolucionária
Mas Cuba não aparece nesta história apenas como país sitiado. Aparece também como um país que, apesar do cerco, segue oferecendo ao mundo uma experiência política de resistência.
Luiz Raul situa a resistência cubana numa duração mais longa. Ele fala de uma construção histórica que atravessa gerações, desde o triunfo da Revolução, passando pela campanha de alfabetização, pelas sucessivas crises provocadas pela pressão dos Estados Unidos e pela necessidade permanente de defender a soberania. Em sua leitura, o principal ensinamento de Cuba para os povos do Sul Global é a necessidade de reconhecer o inimigo, unir os povos e sustentar processos de mobilização capazes de enfrentar o imperialismo e sua busca de hegemonia.
Há, portanto, duas dimensões que caminham juntas. De um lado, as privações reais: combustível escasso, medicamentos em falta, alimentação pressionada, apagões, insegurança cotidiana. De outro, uma capacidade social e política de não se render. É justamente essa combinação que faz de Cuba, mais uma vez, um território em disputa simbólica e material.
Ao agradecer o apoio brasileiro, o cônsul Benigno Pérez Fernández resumiu o sentido mais fundo desse momento: “Esse apoio – seja material, seja político – é fundamental. Também é importante continuar denunciando essa situação e mobilizando a opinião pública internacional. Porque só com pressão e solidariedade será possível avançar na superação desse bloqueio.”
Para Cuba, neste momento, resistir é manter a luz acesa onde for possível. Para os movimentos populares da América Latina, solidarizar-se é ajudar a impedir que o cerco vença.
