ARTIGO | Costurando o protagonismo: a luta das mulheres atingidas por direitos

Com agulhas e retalhos, mulheres atingidas bordam a resistência nas Arpilleras em um grito por direitos e um chamado à organização popular

É a luta intensa e incansável das mulheres que garante a conquista de direitos. Foto: Nane Camargos / MAB
É a luta intensa e incansável das mulheres que garante a conquista de direitos. Foto: Nane Camargos / MAB

Temos um acumulado histórico no trabalho de organização das mulheres atingidas que visa a luta por direitos e a nossa emancipação. Somos sujeitas de direitos e cabe a nós essa luta. Como fruto da realidade concreta e a partir da análise sobre as violações de direitos que nós, atingidas, sofremos com o planejamento, a construção e a operação de barragens, em 2013 incorporamos na metodologia a construção de Arpilleras no trabalho com as mulheres atingidas. 

​Embora tenham surgido no Chile no início do século passado, as Arpilleras tornaram-se uma poderosa ferramenta durante a ditadura de Augusto Pinochet, quando mulheres utilizavam retalhos de roupas de parentes desaparecidos para costurar denúncias visuais e ocultar cartas que relatavam a repressão. Adotamos essa metodologia por meio do Coletivo de Mulheres do MAB, sistematizando a prática em centenas de oficinas pelo Brasil. Assim, fortalecemos a nossa auto-organização e consolidamos o bordado como uma forma de ação política coletiva e de protagonismo frente ao modelo energético vigente.

A escolha dessa técnica é eminentemente política. Nossa produção de Arpilleras é resultado da intencionalidade de publicizar os impactos que as barragens causam na vida das mulheres, reafirmando a técnica como um instrumento de denúncia e resistência. Ou seja, compreendemos que elas são arte política: peças com bordados e aplicações sobre juta, que dão visibilidade às violações específicas sofridas pelas mulheres, analisadas sob as lentes do capitalismo e do patriarcado. 

Nossa sociedade é moldada por uma divisão sexual do trabalho que define papéis sociais, em que os homens ocupam a esfera pública e os espaços de decisão. Enquanto as mulheres são restritas ao espaço privado, um lugar de produção da existência que, embora essencial, é tratado como subalterno e invisibilizado. Essa desigualdade é um dos pilares de sustentação do sistema capitalista.

Arpillera: Poder popular, do Coletivo de Mulheres atingidas de SP e aliadas do MAB SP. Foto: Arquivo MAB
Arpillera” Poder popular”, do Coletivo de Mulheres Atingidas de São Paulo e aliadas do MAB SP. Foto: Arquivo MAB

Desse modo, a construção das Arpilleras, consolidada como instrumento organizativo, tornou-se um espaço onde nós expressamos nossas experiências e reconhecemos a dimensão coletiva daquilo que vivemos. Por meio disso, desafiamos a lógica capitalista, que busca encobrir decisões autoritárias orientadas pela acumulação de riqueza. Ao mesmo tempo, esse modelo fragmenta e individualiza o sofrimento das pessoas atingidas, em especial das mulheres, ocultando a origem estrutural dos problemas. Assim, o que antes era sentido como perda individual, como a casa alagada, o território destruído, o aumento da violência doméstica, a prostituição e o abuso sexual de menores em canteiros de obras, passa a ser compreendido como parte de um sistema estruturado de violação de direitos.

Portanto, as Arpilleras assumidas como uma ferramenta política de luta, fazem com que a costura assuma um novo papel. O mesmo ocorre com as mulheres que, organizadas, deixam o lugar de subjugadas e são levadas ao espaço público e político para denunciar as violações que sofrem enquanto atingidas, analisando criticamente o atual modelo energético e fortalecendo-se coletivamente para reivindicar direitos e lutar por uma nova ordem social e por um projeto energético justo e popular.

No MAB, desde a primeira peça, ampliaram-se os territórios retratados e as sujeitas atingidas. Encontramo-nos em um novo momento histórico, marcado pela crise climática, que tem determinado nossa atuação e permitido identificar que a classe trabalhadora é a mais afetada pelas mudanças do clima. Dentro dessa classe, as populações mais vulnerabilizadas, e que menos foram responsáveis pelas alterações climáticas, são as mais atingidas, em especial a população urbana periférica, os ribeirinhos, os povos das florestas, os pequenos agricultores e, particularmente, a população negra e as mulheres.

Nossas Arpilleras permanecem retratando a realidade das populações atingidas. Nesse contexto, identificamos a perda de muitas vidas, moradias, plantações, infraestrutura e bens móveis e imóveis; a intensificação de doenças físicas e mentais; e o aumento da insegurança e das incertezas relacionadas ao retorno ao local de moradia ou à migração para outras regiões. Além do mais, as peças expõem a perda de trabalho, de fontes de renda e de subsistência; o isolamento, a invisibilização e o abandono por parte do Estado; e a dificuldade de incidência da pauta junto a órgãos públicos. Denunciam, ainda, a falta de informações e orientações seguras, os danos ao transporte de pessoas e mercadorias, além da criminalização e da perseguição àqueles que lutam, entre outras violações.

A crise climática também aumentou a insegurança e o risco de novos rompimentos de barragens, pois estas não foram projetadas para o cenário atual. Sem uma política confiável nem fiscalização rigorosa, não há como garantir a segurança de tais obras.

Arpillera: Dois extremos de uma mesma crise, das mulheres atingidas do MAB em Belém (PA). Foto: Arquivo MAB
Arpillera “Dois extremos de uma mesma crise”, das mulheres atingidas do MAB em Belém (PA). Foto: Arquivo MAB

Sendo assim, as Arpilleras se consolidam como ferramenta que potencializa a organização das mulheres, e possibilita ocupar espaços públicos e institucionais, dando visibilidade à luta das mulheres atingidas. Exposições realizadas em diferentes cidades e países permitem que nossas histórias circulem para além dos territórios onde foram bordadas. Cada uma representa não apenas um reconhecimento artístico, mas uma ampliação do alcance político de nossas denúncias e reivindicações.

Quando nossas peças ocupam espaços como o Memorial da América Latina, inúmeros museus – entre eles o Museu de Arte de São Paulo (MASP) -, unidades do Sesc, universidades e casas legislativas, não se trata apenas de expor obras de arte. Trata-se de afirmar que nossas histórias fazem parte da história do país e que nossas experiências devem estar no centro do debate político e social. O museu, que historicamente foi reservado a outras narrativas, torna-se também um espaço de divulgação da cultura popular, que deixa de ser pensada em oposição à cultura erudita: as fronteiras entre arte e artesanato se dissolvem quando nossas Arpilleras, feitas com retalhos e linhas, são reconhecidas como expressão artística legítima. 

Entre 2025 e 2026, 15 peças produzidas por mulheres atingidas de todo o Brasil foram expostas em cidades da Áustria, levando ao público europeu as denúncias e resistências construídas em nossos territórios. Essas obras retratam os impactos da crise climática, revelando como os eventos extremos afetam de forma desigual as mulheres e suas comunidades. Assim como nos crimes das barragens, as mulheres são as mais atingidas e, ao mesmo tempo, as que constituem a linha de frente da luta e resistência do movimento.

Desse modo, as Arpilleras nos ajudam a transformar a dor em denúncia e a denúncia em organização. Elas seguem nos ajudando a costurar, coletivamente, não apenas a memória do que perdemos, mas o futuro que queremos construir. Seguimos buscando nossos direitos, construindo uma luta que gera resultados concretos e marcos jurídicos que contemplam as necessidades da população. 

Um exemplo recente foi a promulgação da Lei nº 14.755, de 15 de dezembro de 2023, que institui a Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB). Esta legislação representa uma conquista histórica da organização dos atingidos que, ao longo de décadas, denunciaram as violações sistemáticas associadas à implantação e operação de barragens. Pela primeira vez, o Estado brasileiro reconheceu formalmente a condição de atingido, estabelecendo diretrizes para assegurar direitos fundamentais, incluindo o direito à informação, à participação nos processos decisórios e à reparação integral dos danos.

Neste mês de março de 2026, nós, mulheres do MAB, realizamos a Jornada de Lutas, de 8 a 22 de março, com o lema “Atingidas em luta por direitos, soberania e paz”. Em um cenário de avanço do fascismo e da extrema direita global, que trazem consigo o ódio às mulheres, materializado em inúmeros casos de feminicídio, nossas vozes se erguem mais fortes. 

Também se erguem contra a ofensiva dos Estados Unidos na América Latina, no Caribe e no Oriente Médio e à todas as agressões econômicas, políticas e militares que ameaçam a paz e a soberania dos povos. Denunciamos o bloqueio criminoso, ameaças bélicas, ataques cibernéticos e de invasão impostas à Cuba, à Venezuela, Palestina e ao Irã. Denunciamos todas as formas de dominação colonial que aprofundam a fome, a exploração capitalista patriarcal e racista, que busca se apropriar das riquezas estratégicas dos povos. Estamos nas ruas junto a centenas de movimentos e organizações sociais. Nossa pauta central é a regulamentação imediata da PNAB, que ainda carece de instrumentos que garantam sua implementação. Nossa luta é por direitos, soberania e paz, e não descansaremos enquanto a PNAB não for uma realidade na vida de cada atingida deste país.

Arpillera: Privatização da água na natureza, das mulheres atingidas do MAB pelos Projetos de PCHs na região oeste da Bahia. Foto: Arquivo MAB
Arpillera “Privatização da água na natureza”, das mulheres atingidas do MAB pelos Projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) na região Oeste da Bahia. Foto: Arquivo MAB

As mulheres atingidas organizadas no MAB defendem, através de cada ponto, linha e retalho bordado, que o feminismo popular é a solução do problema. Somos sujeitas políticas, construtoras de alternativas, através das redes de solidariedade que criamos, na perspectiva comunitária que nos une, na auto-organização que nos fortalece, afirmamos todos os dias: sem feminismo não há socialismo. Por isso seguimos, bordando e lutando, ocupando e denunciando, resistindo e cuidando da vida.

É tempo de avançar! Mulheres atingidas construindo o feminismo popular!