ENTREVISTA | Vijay Prashad: “O hiperimperialismo governa pelo medo. É preciso nomear o poder para enfrentá-lo”

O intelectual analisa como o domínio das armas e da informação pelos EUA sustenta o hiperimperialismo, minando a soberania dos povos; por que a própria construção da coletividade é parte central para uma perspectiva de futuro; e como a disputa por informação e emoções é decisiva para os povos do Sul Global

Para Vijay, é preciso fazer a batalha das emoções  e apostar na coletividade como potência. Foto: Divulgação Instituto Tricontinental
Para Vijay, é preciso fazer a batalha das emoções e apostar na coletividade como potência. Foto: Divulgação Instituto Tricontinental

Vijay Prashad é historiador, jornalista e um dos principais intérpretes contemporâneos da geopolítica do Sul Global, além de dirigir o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Para o Brasil e a América Latina, sua importância está em oferecer um vocabulário analítico que foge de uma leitura moral da política internacional. Ao invés de repetir a ideia difusa de declínio dos EUA, ele insiste numa metodologia – inspirada no economista franco-egípcio Samir Amin – para medir poder e disputa, lembrando que a potência líder precisa controlar cinco áreas da vida humana e que, hoje, Washington “se coloca numa posição difícil” em três delas, mas mantém domínio esmagador em duas: armas e informação.

Prashad não suaviza o presente. Ele descreve o hiperimperialismo como governar pelo medo e submissão – a ameaça de que, se um país “tiver coragem de desafiar os Estados Unidos, pode ser transformado em Gaza” – e denuncia as chamadas formas híbridas que entram em corações e mentes para desmoralizar projetos políticos alternativos e criar confusão, alimentando um “mercado vibrante de desinformação que sabota projetos” e reorganiza a vida cotidiana aos moldes daquilo que interessa o capital. 

Mas é exatamente ao encarar a questão de frente, com um diagnóstico duro do presente, que traça-se uma aposta política: olhar para a devastação tal como ela se constitui para imaginar o futuro como prática do agora, ou “o futuro contém o que você coloca nele hoje”, e recolocar a construção de coletividade como horizonte, porque “a revolução não é só vencer batalhas materiais”, é reconstruir vínculos, numa “batalha de emoções” que começa no gesto simples “de deixar o celular no bolso e falar com quem está ao seu lado no ônibus”.

Vijay Prashad – Fomos levados a pensar sobre o declínio dos Estados Unidos. Falava-se muito sobre isso, e eu não estava realmente confiante de que tínhamos uma boa metodologia para avaliar esse declínio. Não se pode simplesmente dizer algo desse tipo como uma caracterização moral. Adotamos o método de Samir Amin, que argumentava que, no mundo moderno, há cinco áreas da vida humana que uma potência que quer ser a potência líder deve controlar. O que descobrimos nessas cinco áreas é que, em três delas, os Estados Unidos estão se colocando numa posição difícil, não conseguindo controlá-las; em duas áreas, mantiveram controle esmagador.


Primeira área: controle sobre matérias-primas. Os Estados Unidos não têm controle sobre matérias-primas. O Chile é exportador de muitas matérias-primas, e teremos um governo de extrema-direita em março. Mesmo assim, o Chile ainda terá que exportar para a China. Os Estados Unidos não conseguem absorver todo o lítio, o cobre ou o minério de ferro. 

Segunda área: controle das finanças. Houve um tempo em que a hegemonia do dólar era mantida, mas agora, cada vez mais, países estão usando moedas locais; não tanto na América Latina, mas cada vez mais na Ásia, na Eurásia, em partes da África. Parte disso acontece porque eles foram sancionados; quando você sanciona um país, ele não consegue ter acesso a dólares. A hegemonia do dólar não colapsou, mas está sendo contestada.

A terceira área da vida humana que está sendo contestada em termos de controle é ciência e tecnologia. Depois dos anos 1940, os Estados Unidos tinham poder esmagador em ciência e tecnologia; o Japão começou a superá-los, os EUA impuseram restrições ao valor da moeda japonesa. Agora, os EUA estão tentando quebrar a capacidade da China de acessar semicondutores, chips; os chineses simplesmente desenvolveram os seus próprios chips. Os chineses desenvolvem seus próprios computadores do começo ao fim. São os países que contestam o controle sobre ciência e tecnologia.

Mas em duas áreas não há declínio e os Estados Unidos continuam esmagadoramente fortes. Quais são elas? Informação. Pegue o caso da mídia de massa brasileira: a mídia brasileira forma sua compreensão do que está acontecendo no mundo a partir da Associated Press, da Reuters, da CNN, da BBC, disso e daquilo, mas não de um correspondente global sentado na Índia ou sentado na Zâmbia. As notícias são derivadas do Ocidente. As agências de notícias chinesas e russas tentam competir com os EUA, e então os EUA os atacam dizendo que são porta-vozes do Estado chinês, e em alguns países eles são proibidos de operar. Ninguém leva a CGTN tão a sério quanto a CNN. Você não leva o China Daily tão a sério quanto leva o New York Times. O controle da informação é impressionante.

Veja como os Estados Unidos conseguem dizer que a China está conduzindo um genocídio em Xinjiang, mas as pessoas hesitam em chamar o que está acontecendo na Palestina de genocídio. Um controle incrível da informação. A última área é o controle das armas. O próprio Trump disse isso em Davos: nós desorganizamos a Venezuela, eles não sabiam o que estava acontecendo, não dispararam um único canhão antiaéreo, não houve acordo com Delcy Rodríguez, eles simplesmente destruíram os sistemas de radar e havia 150 aviões voando sobre Caracas. Ninguém podia atingir isso.

Esse poder militar esmagador e o poder da informação são a chave do hiperimperialismo, porque nesse ponto não há conflito interimperialista. Os EUA não enfrentam desafio da China ou da Rússia, e nenhum deles são potências imperialistas.

Eles estão tentando manter seu papel como centro do privilégio usando suas duas formas de controle – armas e informação – e vamos dizer isso claramente: Trump está fazendo um excelente trabalho em manter o medo. Ele enfatizou repetidamente que os europeus têm medo dele, que os iranianos têm medo dele.

O presidente dos EUA no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Foto: Benedikt von Loebell
O presidente dos EUA no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Foto: Benedikt von Loebell

Vijay Prashad – Com medo e submissão. Se você tiver coragem de desafiar os Estados Unidos, eles transformarão seu país em Gaza. Eles mostraram isso ao Iraque, mostraram ao Afeganistão; agora Trump diz abertamente: olhem o que fizemos com a Venezuela. O segundo impacto é que eles querem reverter o desenvolvimento. Eles não querem que os países se desenvolvam. No Níger, por exemplo, eles querem controlar seus minerais, querem vender a preços que eles determinam. Esse hiperimperialismo vai fazer retroceder o argumento da soberania: por que você deveria exercer soberania? Você tem que se submeter aos EUA. Por que você deveria tentar fazer um acordo com a China? Nós proibimos você, não permitiremos que você negocie com a China. Se você está dirigindo uma bomba, tudo bem. Você quer vender suas matérias-primas? Talvez isso tudo bem, mas por que você não usa uma empresa de transporte dos EUA?

Você está vendendo sua soja para a China, compre produtos feitos nos EUA com o dinheiro que está ganhando, não compre produtos chineses. Isso é o que impacta diretamente a vida das pessoas. As coisas ficam mais caras. Você é forçado a aceitar um acordo com os Estados Unidos, não necessariamente um bom acordo.

Vijay Prashad – Muito dessa ideia vem do próprio governo dos EUA. Eles sabem e disseram abertamente que têm todos os tipos de ferramentas para entrar em países e tentar criar instabilidade. É muito fácil controlar a internet; a maioria das plataformas usadas ao redor do mundo, exceto na China, são aplicativos ocidentais. O Brasil tem quase zero soberania digital. Os cabos submarinos do Brasil são de propriedade de empresas ocidentais. Eles não pertencem ao governo. Os satélites que estão acima de você são majoritariamente ocidentais. Podem tornar você inexistente nos feeds de notícias das pessoas. Essas são ferramentas que eles têm, fáceis de usar. Eles podem espalhar histórias maliciosas. Eles fazem isso desde, pelo menos, 1945; eu entrevistei muitos agentes da CIA que dizem isso diretamente. Agora há todo tipo de história circulando dizendo que Delcy Rodríguez vendeu Nicolás Maduro aos Estados Unidos, mas são todas fontes anônimas. Por que todos publicam a mesma história ao mesmo tempo? Por que os jornais brasileiros estão repetindo essas histórias se nunca se interessaram nas complexidades da política venezuelana? Agora dizem que é um golpe palaciano. Por que não falam das armas que os Estados Unidos usaram? Foi um avião Growler que saiu de Porto Rico e sobrevoou a costa da Venezuela, eles vêm experimentando isso desde o ataque aos barcos. O ataque àqueles barcos fazia parte de um experimento mundial com o espaço aéreo da Venezuela. Está tudo no registro público.

Por que as pessoas não se interessam por isso? A guerra híbrida é sobre entrar na sua cabeça, desmoralizar você. É criar confusão. É dizer: Lula está envolvido em corrupção. E isso começa lá atrás, com todo um processo para fazer as pessoas começarem a pensar que o Partido dos Trabalhadores é um partido corrupto. Mesmo que três dias depois digam “bom, não é bem assim”, a população já acredita naquilo. Acabou. Assim se forma um mercado vibrante de desinformação. Isso desacelera empresas, sabota projetos públicos, corta financiamento de coisas importantes que deveriam ser financiadas.

Growler que saiu de Porto Rico e sobrevoou a costa da Venezuela. Foto: BBCavif
Growler que saiu de Porto Rico e sobrevoou a costa da Venezuela. Foto: BBCavif

Vijay Prashad – Há um estudo que mostra que o Pentágono dos EUA, que tem 900 bases militares no exterior, é o maior poluidor institucional do mundo.

Nas negociações climáticas internacionais, os EUA forçaram os outros países a não incluir a poluição militar nos dados nacionais de emissões. Então existe a poluição civil dos EUA, mas a poluição militar não entra, mesmo sabendo agora que o exército dos EUA é o maior poluidor institucional do planeta. Isso sem guerra, só a existência do aparato militar já é destrutiva. Com guerra, é obviamente devastador para o clima.

Veja Gaza: quando você explode um prédio, não é só a bomba. O próprio prédio vira uma cena de crime, cheio de produtos químicos tóxicos. As crianças respiram amianto, colas, poeira tóxica; isso afeta seus corpos. Há toneladas de entulho tóxico que muitas vezes são empurradas para o mar ou para o curso das águas.

Outro ponto importante é que na Ásia, a China, a Índia e outros países estão liderando tecnologias verdes. Os chineses são os maiores produtores de energia solar. EUA e Europa deveriam colaborar com a China para tornar a tecnologia verde parte da vida cotidiana. Não há razão para você, no Brasil, depender de carvão, gás ou petróleo. Mas a nova Guerra Fria contra a China impede a cooperação necessária para enfrentar a crise climática.

Vijay Prashad – Basta ouvir o discurso de Trump, ele disse claramente: se vocês me processarem, eu coloco um X em vocês. Olhem o que fizemos com a Venezuela. Por trás disso está: olhem o que fizemos com Gaza. Vocês se comportam mal, nós destruímos vocês. No golpe de 1964 no Brasil, havia navios de guerra dos EUA na costa entre o Rio de Janeiro e São Paulo enviando mensagem direta aos apoiadores de Goulart: se vocês resistirem, bombardeamos suas cidades. Eles não se importavam quantos brasileiros morreriam, desde que alguns músicos de bossa nova sobrevivessem. Isso era tudo que queriam do Rio na época. Eles estavam prontos para bombardear.

Quando os militares se movem, o que você pode fazer? Nada, você se rende. Eles não se importam. Mesmo críticos de Maduro disseram: hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer um.

Lula comentou recentemente isso com linguagem forte, dizendo que ficou enojado. Mas mesmo assim, gestos simbólicos de solidariedade, como abrir fronteiras para o comércio, não aconteceram. Mesmo governos progressistas ficaram paralisados pelo medo. Que soberania estamos discutindo? Talvez nunca tenha existido plenamente. O Brasil teve 21 anos de ditadura. Que soberania havia ali? De onde vinham as ordens? Agora sabemos, graças a documentos revelados. 

Vijay Prashad – Em maio publicaremos (Instituto Tricontinental) nosso centésimo dossiê, que será sobre o futuro; uma análise materialista do que significa essa ideia filosófica de futuro. O texto discute o que significa amanhã, o que significa esperança. É importante que pessoas sem acesso à universidade também entendam esses conceitos para imaginar o futuro. O problema é que os movimentos sociais vivem no presente. Estão ajudando as pessoas a sobreviver. Fazemos assistência social, apoio jurídico. Isso é sobreviver, não construir o futuro. O Estado desapareceu, a sociedade se fechou para o sofrimento. Então os movimentos fazem o trabalho de sobrevivência. Por isso, precisamos documentar as sementes do futuro que já estamos construindo hoje. Na China, na Venezuela, em Cuba, vemos a dedicação de militantes, médicos que vão para zonas de crise, pessoas que arriscam a vida. Como se constrói um partido com esse nível de compromisso? Você não pode esperar pelo futuro. O futuro contém o que você coloca nele hoje.

Vijay Prashad – É importante que os jovens pensem que tipo de mundo querem viver. Um mundo de desigualdade, muros, polícia em toda parte, solidão, depressão? Precisamos criar coletividade. Eu não quero que ninguém se sinta suicida. Eu mesmo sofri anos de depressão. O mundo é solitário.

A coletividade começa em conversas, em ouvir, em se importar. A revolução não é só vencer batalhas materiais, é construir relações humanas não baseadas no mercado. Ou seja, coloque o celular no bolso, fale com quem está ao seu lado no ônibus. Essas interações criam laços sociais. Isso é parte do futuro. Nós não lutamos só uma batalha de ideias, mas uma batalha de emoções. Precisamos mudar o registro emocional das relações humanas.

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