Uma crônica que relaciona os escritos de Kafka à política internacional contemporânea, denunciando o imperialismo, a violência e a normalização do absurdo no cotidiano.
Publicado 29/01/2026 - Actualizado 29/01/2026

“Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.”
(Trecho do poema Elegia, de Carlos Drummond de Andrade, 1938)
Quem lê Franz Kafka se depara com muitos estranhamentos. São lugares fechados, escuros, quentes, frequentemente sujos. Situações improváveis, cruéis, humilhantes, violentas, abertamente incômodas e até incompreensíveis para quem acompanha.
É um homem que amanhece transformado em barata; é outro que acorda e se vê preso dentro da própria casa e impedido de ir ao trabalho, porque responde a um processo de que não tem conhecimento; é um terceiro que simplesmente não consegue entrar no castelo de onde foi chamado para cumprir suas habilidades de agrimensor. É o absurdo tornado cotidiano sem manifestações fantásticas, somente a vida sendo o que é.
É nas manhãs de Kafka que as coisas acontecem. Quase tudo começa já no primeiro movimento do dia e depois os fatos absurdos vão surgindo “normalmente”.
O mês de janeiro tem sido essa eterna manhã de acontecimentos absurdos, ameaçadores e violentos. A começar pela manhã do dia 3 de janeiro, quando Cília Flores e seu marido Nicolás Maduro, presidente legitimamente eleito da República Bolivariana da Venezuela, foram sequestrados de um quartel no país e levados aos EUA para um julgamento por envolvimento em um cartel de drogas e narcotráfico. Uma ação completamente ilegal, que desrespeitou todas as chamadas leis do Direito Internacional e que escancarou a presença imperialista sem máscaras na América do Sul. Mais de 80 pessoas foram assassinadas pelos EUA nessa operação, incluindo 32 combatentes cubanos.
Os capítulos dessa história seguem com Kafka sendo desafiado a superar em texto o absurdo da realidade. Dias depois do sequestro, os EUA desmentiram que o presidente era membro de um cartel (até porque ele nunca existiu, como todos sabemos), mas mantêm ele preso em uma das piores prisões do país, sem informações públicas diárias sobre ele.
Fizeram dois reféns. Com eles sequestrados, apontaram uma arma na cabeça da presidente interina, que assumiu com 90% de apoio popular, Delcy Rodriguez, e de todo um país. Agora, “negocia” os termos do uso do petróleo.
Em outro estranho capítulo do mês, vemos esse mesmo EUA anunciar que irá construir um resort na Faixa de Gaza. Um grande empreendimento imobiliário, uma zona de turismo de luxo, com hotéis, apartamentos e até ilhas artificiais, similar a Dubai. Não seria propriamente surpresa ouvir de mega empresários a proposta de mercantilizar uma faixa litorânea tão rica como essa região da Palestina. A questão é que, para deixar esse terreno “disponível”, mataram 10% da população, sobretudo mulheres e crianças, enquanto a maioria da população foi expulsa de suas casas. Os que ficaram estão sendo “convidados” a se retirar na força do tiro e da bomba.
A arma apontada para a Venezuela e para a Faixa de Gaza tem tamanho suficiente para amedrontar muitas nações independentes, como Cuba, México, Colômbia e Brasil. É uma ameaça sem discursos introdutórios, sem narrativas salvadoras. É o poder puro e simples. E não apenas os adversários podem ser atingidos. A Groelândia virou um improvável foco de notícia do mês ao ter seus 57 mil habitantes levantando a cada manhã com a notícia de que o império americano quer anexar a ilha, seja comprando em dinheiro uma “cota pessoal” de cada morador ou ameaçando a Dinamarca a abrir mão da soberania do arquipélago. Nem os aliados estão seguros!
O mundo está mais perigoso não apenas porque a “ruptura” começou, como afirmou Mark Carney, primeiro ministro do Canadá, em Davos, na Suíça, mas também porque há muito tempo a verdade deixou de ser relevante. Hoje, acompanhar o noticiário é não saber se a notícia é invenção por inteligência artificial, um quadro humorístico ou mesmo uma peça de publicidade. E a dúvida vem de órgãos supostamente oficiais, como a página da Casa Branca na internet, que publicou “abracem um pinguim”, com Donald Trump andando ao lado de um.
Além de ser um insulto ao mundo, a começar por seus próprios aliados, é uma foto impossível: não existem pinguins no Ártico. Essa é uma ave endêmica do Hemisfério Sul presente na Antártida e não nas terras da Groelândia. Ou a piada é pronta ou estamos diante de mais um truque para seguir confundindo a comunicação e promovendo a interação sombria dos algoritmos que influenciam a opinião do planeta? Aposto na segunda alternativa.
Para você que lê ou ouve essas notícias somadas a tantas outras, não te soa estranho, um incômodo profundo não te perturba, uma ânsia não te sufoca, uma náusea não te assombra?
Será essa a realidade que supera qualquer criatividade mórbida de Kafka, esse simples funcionário de Praga do início do século XX, que irá triunfar sobre nossos sonhos?
Escrevo pensando, como sempre, em Carlos Drumond de Andrade, que já em 1938 queria dinamitar a ilha de Manhattan. Não temos os explosivos suficientes para esse intento, e talvez essa não será nossa tática principal. Mas a mesma manhã que presencia absurdos e metamorfoses da injustiça, também anuncia que os sonhos não envelhecem e que até a mais a brutal guerra de aniquilamento nunca impedirá que a flor nasça no asfalto. “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.
* Thiago Alves é jornalista e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Minas Gerais. Atua ativamente no campo das lutas populares e, entre uma tarefa e outra, observa as pessoas e paisagens redor, buscando perceber a beleza do cotidiano, que vira prosa simples, crônicas sem pretensão.
