Nicinha Vive: 10 anos de Memória, Luta e Resistência!
Atividade do MAB em Rondônia resgata a memória de Nilce de Souza Magalhães, destaca seu legado de luta e reforça o papel fundamental das mulheres no movimento
Publicado 25/03/2026 - Actualizado 25/03/2026

No dia 7 de janeiro, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Rondônia reuniu-se no Sindicato dos Urbanitários (SINDUR), na capital Porto Velho, para honrar a memória de Nilce de Souza Magalhães – a Nicinha. A data, que marca uma década de seu martírio, reafirma a potência de uma voz que a violência tentou calar, mas não conseguiu.
O encontro teve início com o ensaio aberto do monólogo As Marias Somos Nós, espetáculo livremente inspirado em um mergulho na trajetória de Nicinha. Idealizado por Kaline Leigue e com direção de Rafael Bastos, o trabalho dá corpo à força e à delicadeza da militante. Mais do que uma dramaturgia, a peça representa a vivência de plurais mulheres, as Marias que resistem.

Ao final da apresentação, Leigue descreveu o processo de criação como “uma construção intensa e muito dolorosa”, mas profundamente significativa. Cada elemento das cenas foi pensado para representar a essência pescadora de Nicinha, sempre em uníssono com o rio. Para a atriz, a singularidade do projeto reside no desafio de levar ao palco a narrativa de outrem. Uma história que, assim como a arte, atravessa tantas outras existências e se fortalece na coletividade.
A conexão do público com a obra foi imediata, abrindo caminho para que a dimensão humana de Nilce conduzisse a roda de conversa entre familiares, amigos e companheiros de luta. Os relatos desenharam o retrato de uma mulher de espírito vibrante, cuja generosidade transbordava de forma tão natural que, muitas vezes, passava despercebida até pelos mais próximos.
A entrega era tamanha que Divanilce Andrade, filha mais velha de Nicinha, compartilhou que a real magnitude da atuação da mãe só foi plenamente compreendida pela família no dia de seu velório. O adeus coletivo de mais de 300 militantes revelou que Nicinha não apenas defendia causas, mas engajava-se nelas sem hesitar, renunciando até ao próprio conforto em prol do bem comum.
Esse espírito altruísta também se refletiu na maneira como guiou o neto, que viveu ao seu lado até os 16 anos. Para Jardeson de Sousa, as lembranças simples e afetuosas do dia a dia transformaram-se em reverência ao perceber que a ‘vó Nicinha’ era uma figura muito maior do que imaginava: um símbolo de resistência e fonte de inspiração reconhecido por todo o país.

A atuação política de Nicinha foi resgatada por Océlio Muniz, da coordenação nacional do MAB, que destacou sua coragem ao denunciar irregularidades na implantação da Usina Hidrelétrica de Jirau. Nas mesas de negociação, ela se impunha pela firmeza; exigia responsabilidade e não aceitava recuos diante dos opressores.
Essa postura, no entanto, não a distanciava de sua persona descontraída e que, acima de tudo, zelava pelos seus. Esse cuidado transparecia, por exemplo, quando temperava a luta com generosas doses de afeto – como ao preparar o melhor pirarucu da região para os companheiros, ainda que ela mesma não o provasse.
A história de Nicinha também foi costurada por meio da arte das Arpilleras – técnica de bordado chilena surgida durante a ditadura de Pinochet -, criada pelas mulheres como forma de denúncia das violações de direitos. Hoje, essa prática é incorporada pelas mulheres do MAB, que transformam retalhos de tecido em verdadeiros manifestos.

Entre esses manifestos está a peça dedicada a Nicinha, elaborada em denúncia ao seu assassinato. Para as companheiras que participaram de sua construção, esse instrumento fortalece a luta permanente, pois é capaz de materializar o peso dos crimes com intrepidez, para que jamais esqueçamos e normalizemos a crueldade.
Durante o relato, Bruna Balbi, advogada popular da Terra de Direitos, compartilhou um detalhe ainda não antes mencionado: que seu irmão, que atuou como bombeiro nas buscas à época, foi quem encontrou a correntinha de terço que Nicinha jamais tirava do pescoço. O colar, que era sua marca registrada, tornou-se o elo final de sua identidade física.
Em um dos momentos mais simbólicos da noite, a filha de Nicinha entregou à atriz a última blusa de frio que a mãe vestira em sua derradeira viagem de militância. Um gesto simples, mas carregado de memória e continuidade, que trouxe ao presente a força de sua trajetória.
Aquele instante foi, ao mesmo tempo, um lembrete doloroso da violência sofrida pelas defensoras e defensores de direitos e a reafirmação de um legado que não se apaga: Nicinha vive em cada pessoa que permanece na luta, em cada mulher que enfrenta, em cada Maria que resiste. Enquanto sua memória pulsar, Nicinha será semente!
Com essa afirmação, convidamos o público para a Mostra Marias Tantas, com apresentação na íntegra do espetáculo As Marias Somos Nós, com presença do Movimento dos Atingidos por Barragens, no dia 27 de março, e Mata Densa e Águas Tantas, no dia 28, às 19h, na Casa de Cultura Ivan Marrocos, localizada na Av. Carlos Gomes, 563, Caiari, em Porto Velho. A entrada é gratuita, com limite de lotação e a classificação indicativa é de 16 anos.
