Arpilleras brasileiras expostas em Viena denunciam barragens, enchentes e falsas soluções climáticas
A Igreja Votiva, na capital austríaca, acolhe a última etapa da exposição que já passou por Salzburg e Innsbruck
Publicado 24/02/2026

“É muito gratificante saber que a nossa arte denuncia a violação de direitos e que as Arpilleras têm atravessado fronteiras. É de suma importância que nossas Arpilleras cheguem em muitos lugares e passem a mensagem do que vem acontecendo no Brasil para o mundo todo”, diz Rejania Macedo Dias, de Rurópolis, no Pará.
Ela é uma das seis mulheres que bordaram a Arpillera Crise Climática – O Mercado de Carbono: para quê e para quem? Agora, a peça integra a exposição que percorre a Áustria desde outubro de 2025 e chega, a partir desta terça-feira (24), na Igreja Votiva, na capital, Viena.
Durante sete meses, 15 peças percorreram o país, passando pela Universidade Boku, também em Viena, e por Salzburg e Innsbruck. A exposição integra uma série de ações do MAB no país europeu para denunciar a situação das populações atingidas por barragens, pelos megaprojetos do capital e por eventos climáticos extremos no Brasil.

A peça produzida pelas mulheres de Rurópolis (PA) alerta para a crescente propaganda de empresas que apresentam o mercado de carbono como uma falsa solução para a crise climática. Na região do Baixo Tapajós, a tentativa é de enganar pequenos agricultores para que negociem suas terras em troca de dinheiro, sob o pretexto de proteger algo que eles historicamente já protegem.
“Na peça, podemos ver o capitalismo tentando comprar a preservação e o direito sobre o nosso território, representado através da mão oferecendo dinheiro em troca da floresta que está na área dos agricultores. A arpillera mostra também os atingidos com uma faixa que questiona: mercado de carbono para quê e para quem?”, explica Rejania. A obra adverte para as falsas soluções à crise climática, mas os agricultores estão cientes de que isso não resolve o problema. “Os verdadeiros defensores da floresta são as populações que habitam e sobrevivem na Amazônia há muitos anos”, aponta ela.
Enchentes no Pantanal: um alerta das atingidas de SP

Das 15 Arpilleras que compõem a exposição, 13 são da Amazônia. As outras duas denunciam os efeitos da crise climática nos territórios do Rio Grande do Sul e em São Paulo. A Arpillera Enchentes no Pantanal representa o sofrimento dos moradores de São Miguel Paulista durante as enchentes recorrentes, como conta Fernanda Maria Silva, atingida que participou da produção da peça:
“A Arpillera fala da realidade que os atingidos sofrem com a Barragem da Penha. Quando chove, o certo seria manter as comportas abertas para escoar a água para o rio, mas eles fecham as comportas e a água volta e inunda nossas casas. Antes das mudanças climáticas tínhamos uma previsão de quando vinha enchente, entre janeiro e março já ficávamos preparados. Mas de quatro anos pra cá, não temos mais esse controle e, às vezes, mesmo em dias sem chuva, tudo fica alagado porque choveu em outros lugares”, conta Fernanda.
A barragem da Penha foi construída com o objetivo de reduzir o risco de enchentes no centro de São Paulo, mas os atingidos apontam que o fechamento de suas comportas agrava a situação nas áreas a montante. O bairro Jardim Pantanal está entre os mais impactados, com registros recorrentes de perdas materiais, exposição a riscos sanitários e abalos psicológicos a cada episódio de inundação.
Especialistas e lideranças locais apontam que o problema não se limita a fatores climáticos. O cenário também reflete um processo histórico de ocupação desigual do território, o que levou populações vulneráveis a se estabelecerem em áreas de várzea, frequentemente sem infraestrutura, planejamento urbano adequado ou políticas públicas de proteção.
Fernanda conta que o nível da água pode atingir até um metro e meio em muito pouco tempo, o que impede que os moradores consigam retirar seus pertences. “É bem como colocamos na Arpillera: vai fogão, cama, alimento, tudo pra baixo da água”. A peça foi produzida pelas atingidas depois de uma grande enchente em 2023, quando foi preciso até chamar o corpo de bombeiros para salvar idosos e crianças.
Para ela e as outras atingidas que produziram a peça hoje em exposição na Áustria, a experiência é a oportunidade de contar suas histórias ao mundo: “Saber que nossa Arpillera está lá fora, contando a nossa realidade, levando para outras pessoas tudo o que a gente está passando, é muito importante. Eles precisam ver e saber que somos atingidos pela barragem e também pela crise climática”, finaliza Fernanda.
Solidariedade Internacional
Um dos objetivos da exposição de Arpilleras nestes sete meses na Áustria era a conscientização sobre o contexto em que vivem as mulheres atingidas por barragens e pelas mudanças climáticas no Brasil. Para ajudar neste processo, o MAB realizou, durante visita no país europeu, uma série de encontros e oficinas de produção de Arpilleras com a população austríaca, especialmente com as estudantes da Universidade BOKU, também em Viena.

As peças produzidas nestes meses foram apresentadas durante a abertura da exposição nesta terça-feira. O momento também contou com o relato das mulheres sobre o processo de produção das Arpilleras e a partilha para outras estudantes sobre a técnica e a denúncia das arpilleras.
