São Sebastião continua em risco: famílias atingidas pelo desastre de 2023 enfrentam abandono e novas enchentes
Tragédia que matou mais de 60 pessoas escancarou a vulnerabilidade climática do Litoral Norte paulista, mas políticas estruturais seguem insuficientes e moradores voltam a perder tudo
Publicado 19/02/2026 - Actualizado 19/02/2026

No dia 19 de fevereiro de 2023, o Brasil assistiu ao maior desastre climático do Litoral Norte de São Paulo. Chuvas de 626 mm, em 24 horas, provocaram deslizamentos e enchentes em São Sebastião, deixando mais de 60 pessoas mortas, milhares de desabrigadas e bairros inteiros devastados, especialmente na Costa Sul. Três anos depois, a pergunta das famílias atingidas permanece: o que mudou? Na prática, pouco. E para muitas pessoas, o trauma não ficou no passado. Ele se repete a cada nova chuva.
Moradora de Boiçucanga há décadas, Josefa Maria da Silva, de 64 anos, vive hoje apenas com a neta em um terreno onde já enfrentou sucessivas enchentes. O desastre de 2023 e as novas chuvas recentes marcaram sua vida de forma permanente. “A enchente daquele dia foi terrível. Foi uma tromba d’água que veio de repente. A gente ficou tudo louco aqui na estrada, tentando se salvar, e a água entrando, entrando nas casas”, conta.
Ela lembra que perdeu praticamente tudo. “Na minha casa entrou muita água, muita lama. Eu perdi cama, perdi guarda-roupa, perdi sapateira, perdi roupa também. No desespero a gente tenta salvar, mas uma coisa cai, outra se perde. No outro dia era só lama no quintal.”
Sem apoio institucional, a limpeza também foi um custo. “A gente teve que dar um dinheiro para uma pessoa vir tirar a lama, porque ninguém aguentava o fedor. Foi muito sofrimento”.

A lama que se repete
O que mais revolta a moradora é que a situação não é nova. “Agora já é a quarta vez que entra água aqui. Toda vez que chove eu fico desesperada”. Ela aponta também o desmatamento e a falta de planejamento urbano como fatores que agravam o problema.
“O pessoal desmata a natureza. A estrada fica mais alta e as casas mais baixas. Aí toda vez que começa a chuva eu fico preocupada”. Sem recursos para proteger a própria casa, ela sente que está sozinha. “O certo era fazer um muro aqui, para aliviar a água, mas eu não tenho condição. Sou só eu e minha neta. A gente faz um sacrifício para comprar as coisas do dia a dia, aí a água leva tudo”.

Outro ponto grave é a ausência de prevenção e comunicação. Naquele dia não houve alerta. “Depois da chuva é que apareceu um aviso no celular da minha neta. Antes, ninguém falou nada”. Segundo ela, o apoio institucional também foi mínimo. “Eu não vi ninguém da Defesa Civil. Só um pessoal trouxe 12 galões de água e uma cesta. Disseram que iam trazer uma cama, mas até agora nada”.
A frustração é evidente. “A gente espera ajuda, mas nem isso tem. Perdi tudo e agora tenho que esperar Deus me ajudar para comprar de novo”.
Por uma política permanente de proteção às famílias
O relato da moradora não é isolado. Em janeiro e fevereiro de 2026, novas chuvas intensas voltaram a atingir bairros da Costa Sul, como Boiçucanga e Juquehy, deixando dezenas de famílias desalojadas. De acordo com levantamento do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o município ainda não possui uma política permanente de proteção às famílias atingidas.
“O município não possui uma política de proteção e segurança para as famílias atingidas. O Fundo Social não tem estrutura para atender a todos e, quando acessa, os insumos são insuficientes para garantir dignidade. A Defesa Civil teve dificuldade para acionar o plano de contingência, os abrigos não foram abertos antes e não houve alerta adequado. Isso mostra a urgência de uma política permanente de prevenção, moradia e proteção às famílias diante da crise climática”, explica Arthur Macfadem, integrante da coordenação do movimento no Litoral Norte.
Apesar de anúncios de entrega de moradias e obras de contenção, muitas famílias seguem aguardando reassentamento definitivo. Outras continuam vivendo em áreas classificadas como de risco, sem garantia de segurança. O déficit habitacional e a ocupação precária permanecem em situação agravada pela pela crise climática.

Desigualdade e justiça climática
Para o MAB, o desastre escancara uma lógica histórica: as periferias são as mais atingidas. As áreas mais vulneráveis seguem sem saneamento, drenagem e planejamento urbano. A reconstrução, quando ocorre, não transforma o modelo que produz risco.
Hoje, Josefa Maria vive sob permanente tensão. “Quando começa a chover, eu fico desesperada. Minha neta pergunta: ‘Vó, o que é isso?’. Eu falo, é a água. E eu não tenho condição de comprar tudo de novo”.

Além das perdas materiais, a instabilidade financeira se aprofundou. “Até um benefício que eu recebia foi cancelado. Tenho que ir para São Paulo resolver e não tenho dinheiro. Minha filha mandou um dinheiro para eu ir quebrando o galho. A gente paga IPTU todo mês, mas na hora da dificuldade, ninguém aparece”.
Memória, justiça e prevenção
Hoje, quando a tragédia completa três anos, as famílias atingidas seguem cobrando moradia segura e definitiva; políticas permanentes de prevenção; transparência na reconstrução; participação popular nas decisões; assistência social e saúde mental contínuas.
Desde o desastre de fevereiro de 2023, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) tem mantido presença constante nas comunidades atingidas de São Sebastião, organizando reuniões com moradores, acompanhando famílias em áreas de risco e pressionando o poder público por soluções estruturais.
A atuação inclui o monitoramento das condições de moradia, do acesso a benefícios e do atendimento social, além da articulação com Defensoria Pública, universidades e outras entidades para ampliar a visibilidade do caso. Segundo o movimento, a principal preocupação tem sido evitar que o desastre seja tratado apenas como um episódio emergencial, sem continuidade nas políticas de prevenção, reassentamento e garantia de direitos.
Nos últimos meses, o MAB apresentou um estudo que reúne dados e relatos sobre os impactos persistentes da tragédia, apontando problemas como a distância dos reassentamentos, a perda de redes comunitárias e o agravamento de questões de saúde mental e renda.
O material foi encaminhado à Defensoria Pública e tem sido usado para fundamentar ações judiciais e pressionar por reparações mais amplas. Para o movimento, a reconstrução ainda é parcial e desigual, e a prioridade agora é garantir participação das famílias nas decisões, transparência sobre os recursos investidos e políticas permanentes de prevenção, diante do aumento de eventos climáticos extremos na região.
