Racismo Ambiental: a resistência das periferias durante o inverno amazônico

Chuvas intensas escancaram a falta de saneamento, ampliam desigualdades sociais e evidenciam como a crise climática atinge com mais força as populações periféricas da Amazônia

A crise climática não atinge a todos da mesma forma. Nas periferias da Amazônia, ela tem cor, território e classe social. Foto: André Santos / Arquivo Pessoal
A crise climática não atinge a todos da mesma forma. Nas periferias da Amazônia, ela tem cor, território e classe social. Foto: André Santos / Arquivo Pessoal

O início de 2026 reafirma uma realidade que as populações amazônicas conhecem de perto: o inverno amazônico. Após meses de calor intenso, as chuvas torrenciais passam a marcar o cotidiano, trazendo não apenas alívio térmico, mas também medo e insegurança para milhares de famílias que vivem nas periferias urbanas e áreas de baixada. 

A região amazônica enfrenta os mais alarmantes índices de saneamento básico do Brasil, com cidades como Belém, Manaus, Rio Branco, Macapá, Porto Velho, Santarém e Ananindeua figurando entre os 20 piores municípios no ranking elaborado pelo Instituto Trata Brasil. Muitas dessas localidades têm aparecido consistentemente nas listas desde o início do monitoramento.

As fortes chuvas, quando somadas ao precário sistema de saneamento básico, causam diversos problemas relacionados à saúde dos atingidos. Além das perdas materiais recorrentes em áreas de baixada, que impactam diretamente nas condições de vida das famílias, a contaminação da água, a proliferação de insetos e os acidentes com animais aumentam a pressão sobre um sistema de saúde já sobrecarregado na região. Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), esse cenário vai além de um fenômeno climático, é uma expressão direta da desigualdade social e da ausência de justiça climática.

No Pará, estado que sediou a COP 30 no final de 2025, o contraste entre discurso e realidade se torna evidente. Enquanto áreas centrais receberam investimentos e obras de infraestrutura para sediar o maior evento mundial sobre mudanças climáticas, comunidades periféricas continuam convivendo com alagamentos recorrentes que invadem casas, destroem móveis e comprometem a saúde e a dignidade da população. A ausência de políticas efetivas de adaptação voltadas para os territórios mais vulneráveis aprofunda essas desigualdades históricas na região.

Para Jaqueline Damasceno, da coordenação nacional do MAB, a crise climática possui recortes sociais e raciais bem definidos. Segundo ela, a adaptação climática não pode permanecer restrita ao debate técnico e institucional, mas precisa se manifestar em políticas públicas que garantam segurança e dignidade para quem vive nas áreas mais expostas aos impactos ambientais.

Avançar nos direitos dos atingidos com saneamento e moradia adequada é urgente! O MAB vem cobrando políticas públicas para adaptação climática e desenvolvendo experiências concretas em diversas comunidades da Amazônia. A discussão sobre os impactos da crise climática não pode se restringir à COP 30, mas deve ser uma preocupação diária do poder público que se transforme em melhores condições de vida para os amazônidas’’, afirmou. 

A forte chuva registrada na última segunda-feira (02), em Belém, evidenciou novamente essa realidade. Diversos bairros periféricos sofreram com alagamentos, prejuízos materiais e riscos à saúde das famílias atingidas. Para quem vive nas periferias, a chuva deixa de ser apenas um fenômeno natural e se transforma em ameaça constante à sobrevivência.

O abandono histórico por parte do Estado, no Pará e em toda a região Norte, transforma o inverno amazônico em um ciclo repetido de perdas para as populações mais vulnerabilizadas. Para uma parte da sociedade, o período representa apenas a intensificação das chuvas, mas para milhares de famílias significa viver em situação permanente de emergência. 

“Não podemos tratar como normal o fato de comunidades inteiras viverem todos os anos sob ameaça de perder suas casas por falta de infraestrutura e políticas públicas. Quando o Estado não garante saneamento, moradia digna e planejamento urbano, ele contribui diretamente para que a crise climática atinja com mais força quem já vive em situação de vulnerabilidade”, concluiu Jaqueline Damasceno.

O MAB reafirma que a luta por moradia digna é também uma luta pela sobrevivência diante da crise climática. O movimento segue mobilizado, denunciando o racismo ambiental e cobrando que os recursos destinados às políticas climáticas cheguem efetivamente nos territórios mais atingidos. Construir justiça climática significa reconhecer e enfrentar as desigualdades que historicamente marcam a Amazônia e seus povos.

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