Jornada de Lutas marca os 7 anos do crime da Vale em Brumadinho

Atividades realizadas nos dias 23 e 25 de janeiro denunciaram violações, cobraram reparação integral e reafirmaram a memória das vítimas do rompimento da barragem

Comunidades atingidas reunidas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, durante a Jornada de Lutas. Foto: Patrícia Sousa
Comunidades atingidas reunidas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, durante a Jornada de Lutas. Foto: Patrícia Sousa

Sete anos após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, a reparação integral segue distante da realidade das pessoas atingidas. Para marcar a data e denunciar as violações que persistem nos territórios, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) participou, nos dias 23 e 25 de janeiro, de uma série de atividades em Belo Horizonte e em Brumadinho, reafirmando que o crime permanece vivo no cotidiano das comunidades atingidas.

23 de janeiro: Jornada de Lutas em Belo Horizonte

Na sexta-feira (23), cerca de 700 atingidos e atingidas das cinco regiões da Bacia do Rio Paraopeba, além de representantes da Bacia do Rio Doce e de Itatiaiuçu, ocuparam o saguão da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em Belo Horizonte. O dia foi marcado por denúncias públicas, balanços sobre a reparação e cobrança direta às Instituições de Justiça, ao Governo de Minas Gerais e à empresa Vale. Logo no início, atingidos destacaram que, mesmo após sete anos, seguem convivendo com contaminação, adoecimento, insegurança e ausência de reparação.

Durante o balanço da reparação na Bacia do Paraopeba, falas de atingidos evidenciaram o sofrimento prolongado. Rosângela Maria de Souza, da Região 4 (Baixo Paraopeba), afirmou que a lama trouxe consigo dor e depressão, mas não trouxe reparação: “Nós não pedimos para ser atingidos. Estamos pedindo socorro” disse Rosângela.

Já Mãe Kimazandê, do Centro de Umbanda Mãe Congá de Aruanda, em São Joaquim de Bicas, denunciou a destruição dos modos de vida dos povos de matriz africana e a perda do rio como espaço sagrado.

“Hoje nós não temos mais o nosso rio, nossos peixes, nossas ervas sagradas. O rio realmente chora”, afirmou Mãe Kimazandê.

Guilherme Camponez, da coordenação nacional do MAB, denunciou que o Rio Paraopeba segue contaminado por rejeitos e que grande parte das pessoas atingidas ainda não recebeu indenização individual. Também criticou o acordo firmado em 2021 sem a participação dos atingidos e a retirada da Assessoria Técnica Independente (ATI) Aedas das regiões 1 e 2, considerada uma violação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), da Política Estadual (PEAB) e da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Um dos momentos mais simbólicos da Jornada foi a Abertura da Cápsula do Tempo das Crianças, conduzida pela Ciranda do MAB. Crianças atingidas leram palavras e desejos escritos no ano anterior, como amizade, união e justiça. Uma delas emocionou o público ao afirmar: “Eu quero que as almas das pessoas que morreram na barragem descansem em paz”. Na carta final, as crianças reforçaram que, apesar das perdas, seguem brincando e lutando por reparação justa: “O rio ainda corre, o povo ainda luta e a criança ainda brinca”.

Paralelamente às atividades, foi realizada uma coletiva de imprensa, com lideranças e atingidos denunciando a atuação das Instituições de Justiça no processo de reparação. Joceli Andrioli, da coordenação nacional do MAB, afirmou que promotores e defensores públicos têm violado direitos fundamentais, como a escolha da ATI. “São mais de 64 comunidades com seus direitos violados”, denunciou. A coletiva também destacou atrasos nos projetos coletivos previstos no acordo e a ausência de garantias para a continuidade do auxílio emergencial.

No período da tarde, atingidos protocolaram denúncias formais no Ministério Público e na Defensoria Pública contra agentes que atuam no caso Brumadinho. Ao final do dia, representantes das comunidades, povos e comunidades tradicionais, familiares de vítimas e integrantes do MAB participaram de uma reunião no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) com o juiz Murilo Sílvio de Abreu. O magistrado se comprometeu com a escuta permanente das pessoas atingidas, maior transparência na implementação do auxílio emergencial e a construção de um cronograma anual para avançar nas pendências do processo judicial.

25 de janeiro: Romaria em Brumadinho

No sábado (25), data em que se completaram oficialmente sete anos do rompimento da barragem, o MAB participou da 7ª Romaria pela Ecologia Integral a Brumadinho – por Memória, Justiça e Esperança. A programação incluiu uma missa em memória das 272 vítimas fatais e uma caminhada até a Praça Saudade das Joias, onde ocorreu um ato de homenagem organizado pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão em Brumadinho (AVABRUM).

Durante a Romaria, atingidas compartilharam sentimentos de dor, saudade e resistência. Mãe Kimazandê afirmou que, após sete anos, a luta segue sem respostas e sem justiça. “Os que partiram foram silenciados, mas nós seguimos reunidos para que essas vítimas não tenham partido em vão”, disse. Já Dona Jandira Silva, da comunidade Dom Bosco, em Brumadinho, reforçou a importância da memória coletiva.

“A importância da gente se reunir todo 25 de janeiro é para nunca esquecer nossas 272 joias, que estarão sempre em nossos corações. Ainda não conseguimos justiça, não há nada concreto e concluído”, afirmou Jandira.

Sete anos após o rompimento, Brumadinho e toda a Bacia do Rio Paraopeba seguem marcadas pelo crime cometido pela Vale e pelas graves violações de direitos que ainda persistem. Ao mesmo tempo, os territórios também são marcados pela organização popular, pela memória das vítimas e pela resistência coletiva das pessoas atingidas. Enquanto houver famílias sem reparação integral, sem água segura e sem justiça, os atingidos seguirão afirmando que não foi acidente, foi crime e que a luta por reparação integral permanece viva.

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