Com a ajuda de setores das igrejas católica e evangélica de confissão luterana, do movimento sindical (Departamento Nacional de Trabalhadores Rurais da CUT), Comissão Pró-Índio de São Paulo, Centro de Documentação e Informação (CEDI) e dos professores do IPPUR da Universidade Federal do Rio de Janeiro é que a Comissão Regional dos Atingidos por Barragens (CRAB), e o Polo Sindical do Sub-médio São Francisco tiveram a iniciativa de organizar, de 19 a 21 de abril, em Goiânia, o I Encontro Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragens. O evento foi preparado em 4 etapas regionais: Norte, Nordeste, Sudeste e Sul e foi consagrada principalmente a troca de experiências. Foi um momento importante, onde se decidiu por constituir uma organização nacional forte para fazer frente aos planos de construção de grandes barragens no Brasil. O Encontro de Goiânia também criou uma Comissão Nacional Provisória para organizar o I Congresso Nacional dos Atingidos por Barragens, que seria realizado dois anos após.
O I Congresso Nacional dos Atingidos por Barragens ocorreu no mês de março, em Brasília. Delegados vindos de todo o país decidiram, então, fundar o MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, como um movimento nacional, popular e autônomo, com a tarefa de organizar e articular as ações contra as barragens a partir das realidades locais. Para marcar o nascimento do movimento, o dia da plenária final do I Congresso, 14 de março, foi consagrado como Dia Nacional de Luta Contra as Barragens, sendo celebrado desde então em todo o país.
Em dezembro, foi realizado o II Congresso Nacional do MAB, e uma das suas principais deliberações foi a necessidade de organização de um encontro internacional de atingidos por barragens, reunindo experiências de luta em outros países, que veio a ocorrer em 1997.
Organizado pelo MAB, o Encontro Preparatório para construção do I Encontro Internacional de Atingidos aconteceu em setembro, em Itamonte, Minas Gerais. Foi criado um comitê organizador com a participação dos norte-americanos da Rede Internacional de Rios (IRN), dos indianos do Movimento para Salvar o Rio Narmada (NBA), dos chilenos do Grupo de Ação pelo Bio Bio (GABB) e dos europeus da Rede Europeia de Rios (ERN), além do próprio MAB.
Entre 10 e 13 de dezembro, realizou-se o III Congresso Nacional do MAB, em São Paulo, com o objetivo de debater as linhas gerais de ação, o trabalho de base, a política de alianças e a posição frente ao setor elétrico.
De 12 a 14 de março, organizamos na cidade de Curitiba, no Paraná, o I Encontro Internacional de Atingidos por Barragens, com delegações de 20 países. No último dia, foi aprovada a declaração de Curitiba, que oficializou o dia 14 de março como o Dia Internacional de Luta contra as Barragens, Pelos Rios, Pela Água e Pela Vida.
O IV Congresso, realizado em novembro, em Belo Horizonte, confirmou as diretrizes anteriores e definiu a linha de combate contra as políticas neoliberais e o processo de privatização do setor elétrico.
Foi em 1999 que avançamos na elaboração das linhas gerais sobre o que poderia vir a ser um Novo Modelo Energético e um Projeto Popular para o Brasil. Uma vez mais, o Congresso afirmou a prioridade da organização de base e da luta de massa como principal forma de fortalecer o movimento e alcançar seus objetivos.
Essa foi a última grande atividade de caráter nacional intitulada enquanto Congresso. A partir deste momento, fomos construindo e realizando os Encontros Nacionais. Fomos afirmando e formulando nossa concepção de movimento popular, onde não é o voto nos congressos a expressão mais importante. O que passa a ter mais relevância é a participação popular de atingidos inseridos organicamente no movimento, que fazem o debate, formulam propostas a serem incorporadas pelo conjunto da organização, aprofundando o nosso caráter de movimento popular.
Em junho de 2003 a capital federal sediou o 5º Encontro Nacional do MAB. Na carta de Brasília, reafirmamos a luta popular como o único instrumento capaz de obter conquistas concretas para o povo. Foi um momento de esperança com a chegada de Lula à presidência, pois, nos anos anteriores, a política neoliberal levada a cabo por Fernando Henrique Cardoso privatizou grande parte do setor elétrico e nos colocou à mercê das políticas das empresas transnacionais de energia.
Entre 28 de novembro e 3 de dezembro, no povoado de Rasi Salai, no nordeste da Tailândia, foi realizado o evento “Rios para Vida: II Encontro Internacional de Atingidos por Barragens e seus Aliados”.
A pequena vila onde foi promovida a atividade tinha um forte significado simbólico. O terreno, durante mais de sete anos, esteve encoberto pelas águas da barragem de Rasi Salai, a qual, após muita luta dos atingidos e de organizações ambientalistas, teve suas comportas reabertas permitindo que as águas do rio retornassem ao seu leito natural. O Encontro Internacional ocorreu três anos depois das comportas reabertas, quando a natureza voltava a se recompor.
Em maio desse ano, o MAB realizou uma marcha histórica com cerca de 600 militantes vindos de 15 estados do país. Foi a “Marcha Nacional Águas pela Vida”, percorrida de Goiânia à Brasília, para exigir do Governo Federal o cumprimento dos direitos dos atingidos. A manifestação denunciou a necessidade de enfrentamento às empresas construtoras de barragens e questionou a política energética do governo brasileiro, apresentando alternativas para o setor.
Em março, realizamos o 6º Encontro Nacional dos Atingidos por Barragens em Curitiba, no Paraná. No encontro, 1200 atingidos de todo Brasil e reafirmaram o caráter nacional do MAB, a importância das especificidades regionais e o caráter popular, sindical e político do movimento. Dentro da consolidação do Projeto Popular para o Brasil, o movimento passa a propor medidas para a construção do Projeto Energético Popular. A principal palavra de ordem tornou-se “Água e energia não são mercadorias!”. Compreendemos que a água e a energia são bens essenciais para a vida e todos devem ter acesso com qualidade e a preço justo; não podem ficar nas mãos de multinacionais que têm como único interesse o lucro.
Durante o lançamento do Plano Safra daquele ano, e posteriormente em falas públicas e em audiência com o MAB, o então presidente Lula reconheceu que o Estado brasileiro tem uma dívida histórica com os atingidos por barragens. Falou também que não terminaria seu mandato sem resolver o problema. Foi a primeira vez em nossa história que fomos reconhecidos enquanto atingidos por um presidente. No entanto, seu mandato acabou e os nossos problemas continuam, por isso, continuamos organizados e lutando.
Os olhos dos atingidos por barragens do mundo estiveram voltados para Temacapulín, no México, de 1 a 7 de outubro, durante o do III Encontro Internacional dos Atingidos por Barragens. A luta contra a barragem de El Zapotillo se fortaleceu internacionalmente depois de cinco anos de resistência dos moradores locais e do movimento nacional mexicano. O encontro, que contou com a participação de 320 delegados de 60 países, chamou a atenção internacional para a luta em defesa dos direitos dos atingidos, aumentou a compreensão global da importância e necessidade, pois, as empresas que atuam na construção de barragens são as mesmas na maioria dos países da América Latina, da África e também da Ásia.
Em abril de 2011, realizamos em Brasília o 1º Encontro das Mulheres Atingidas por Barragens. O evento contou com a presença de 500 mulheres que debateram a situação de violência e as lutas que travam. Saímos mais fortalecidas para construir nossa organização. No dia 7 de abril, as mulheres presentes no encontro foram recebidas pela presidente recém-eleita, Dilma Rousseff, e, em carta, cobraram do governo o atendimento das reivindicações históricas do movimento e das pautas das mulheres no sentido de construção de políticas para a igualdade de gênero e o fim da opressão e violência contra as mulheres.
Reunindo cerca de 2.500 atingidos de todo o Brasil, de 1 a 5 de setembro de 2013, realizamos o 7° Encontro Nacional do MAB, em Cotia, São Paulo. Foi neste encontro que o movimento define priorizar a luta específica dos atingidos diante da construção de grandes barragens, principalmente na Amazônia, avançar na construção do Projeto Energético Popular, participar das lutas gerais do povo e fortalecer a organicidade interna.
Nosso profundo sentimento de solidariedade e indignação surgiu no dia 5 de novembro, quando recebemos as primeiras informações sobre o rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco (Vale e BHP Billiton), em Mariana, Minas Gerais. Foram 19 mortes, uma mulher sofreu um aborto forçado na lama. Milhares ficaram desalojados e sem água potável. Mais de 600 quilômetros do rio Doce foram destruídos, causando a morte de peixes e da biodiversidade marinha no litoral do Espírito Santo. Esse é um dos momentos da nossa história que, mesmo com profunda revolta perante o crime, o MAB esteve no centro das discussões nacionais e internacionais sobre os direitos dos atingidos e sobre a segurança dos que vivem à jusante das barragens, sob constante ameaça.
Durante o 4º Encontro Internacional de Ciências Sociais e Barragens, realizado na Universidade Federal da Fronteira Sul, em Chapecó (SC), entre os dias 19 e 23 de setembro, foi fundado o Movimiento de Afectados por Represas na América Latina (MAR), constituído por organizações de 12 países, México, Colômbia, Brasil, Chile, Honduras, Guatemala, Bolívia, El Salvador, Argentina, Peru, Brasil e Cuba. Desde 2010, essa organização de movimentos populares que fazem a luta contra as barragens estava sendo gestada. Nesses anos, foram se intensificando as articulações internacionais na América Latina a partir da análise de que os problemas dos atingidos e a forma de atuação das empresas e dos estados nacionais eram praticamente os mesmos no que se refere a construção de barragens e violações de direitos.
O maior encontro de atingidos por barragens da história do Brasil realizado até o momento aconteceu entre 1 e 5 de outubro, no Rio de Janeiro. Participaram do 8° Encontro Nacional do MAB mais de 3.500 atingidos organizados no MAB, centenas de trabalhadores e militantes de organizações de 19 países. A atividade ocorreu no centenário da Revolução Russa, e afirmou a necessidade de unidade da classe trabalhadora no Brasil pela soberania nacional, e definiu os rumos para a luta de um Projeto Energético Popular com soberania, distribuição da riqueza e controle popular. Como marco, foi realizada uma grande marcha, que contou com a presença de cerca de 20 mil pessoas no coração da cidade, no caminho entre as duas grandes estatais de energia do país, a Eletrobras e a Petrobras.
Pouco depois de três anos do rompimento da barragem de Fundão, o estado de Minas Gerais chorou de novo – em mais um crime causado pela Vale. Choramos juntos a morte de 272 pessoas e a destruição do rio Paraopeba com o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em 25 de janeiro. Foi o maior acidente de trabalho da história do nosso país. Mas, nós nos levantamos, fortalecemos nossa organização na região e fizemos a denúncia nacional e internacional dessa empresa reicidente e assassina, seguimos, com firmeza, na luta pelo direito dos atingidos. “Por água, energia e soberania dos povos” foi a palavra de ordem do 1° Encontro Continental de Atingidos por Barragens, que aconteceu no Panamá entre 24 e 27 de setembro, organizado pelo Movimiento de Afectados por Represas de Latinoamérica y el Caribe (MAR) e organizações aliadas. O encontro reuniu atingidos por barragens e por projetos minero-energéticos, trabalhadores do setor energético e organizações aliadas de 21 países de todo o continente americano, além de convidados de outras partes do mundo. O encontro teve por objetivo principal avaliar o processo de construção do MAR na América Latina, analizar a conjuntura latinoamericana e reafirmar a resistência nos territórios contra as barragens.
Foram mais de 2500 atingidos de 20 estados do país que rumaram à Brasília para a Jornada de Lutas do MAB. De 04 a 07 de novembro, a mobilização apresentou na capital do país a reivindicação das populações atingidas: reparação, efetivação dos direitos e políticas de proteção social por parte do Estado brasileiro.
Entre as pautas, a principal estava na boca de cada um e de cada uma: Aprova a PNAB já!
Foram quase 40 anos desde as primeiras lutas até a aprovação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens, em novembro de 2023. A sanção da PNAB pelo Presidente Lula, em 15 de dezembro do mesmo ano, marcou um novo capítulo na história do Brasil, que começou a dar os primeiros passos rumo à reparação justa e integral das famílias atingidas pelo processo de construção ou pelo rompimento de barragens. Em 09 de maio de 2019, foi apresentado o Projeto de Lei nº 2788/2019 na Câmara dos Deputados, que contou com amplo apoio e, em novembro de 2023, foi aprovado por unanimidade no Senado Federal. Hoje, uma nova etapa da luta dos atingidos é pela regulamentação da PNAB.
As drásticas enchentes no Rio Grande do Sul e a severa seca na Amazônia, em 2023 e 2024, evidenciaram ao Movimento dos Atingidos por Barragens a necessidade de ampliar sua atuação. Diante dos eventos extremos agravados pela crise climática, o MAB intensificou sua ação junto às vítimas desses novos desastres socioambientais e aprofundou o debate sobre as mudanças do clima.
No Rio Grande do Sul, apenas a enchente de maio de 2024 deixou um rastro de 178 mortes e afetou mais de dois milhões de pessoas em 478 municípios. No Norte do país, a seca em 2023 tornou extensos trechos dos rios Amazonas e Negro totalmente inavegáveis, isolando comunidades inteiras e deixando populações ribeirinhas sem acesso a água potável e alimentos.
Esse cenário, que se agrava a cada ano, exige respostas imediatas e efetivas dos governos. Hoje, os atingidos organizam-se na luta por reconhecimento, por reparação integral dos danos e pela implementação de políticas permanentes de prevenção e ação diante de eventos climáticos extremos — com atenção prioritária às populações em situação de maior vulnerabilidade.
O IV Encontro Internacional de Atingidos por Barragens e Crise Climática aconteceu em Belém (PA), de 06 a 11 de novembro de 2025. O encontro, realizado durante a COP 30 e sucedido pela Cúpula dos Povos, marcou a fundação do Movimento Internacional de Atingidos por Barragens, Crimes Socioambientais e Crise Climática.
Os participantes, mais de 200 delegados de 45 países, reforçaram nestes dias a importância de internacionalizar a luta dos atingidos e de garantir que as políticas públicas incorporem a voz das comunidades na formulação de respostas à crise climática, reafirmando que sem participação popular, não há transição justa nem justiça climática.

















